Num momento em que o acesso ao ensino superior continua marcado por profundas assimetrias regionais e socioeconómicas, é urgente mudar o paradigma com que encaramos as infraestruturas de apoio ao estudante e, em particular, o alojamento estudantil público.
As instituições de ensino superior e os serviços de ação social não têm como missão dedicarem-se ao negócio da construção, da restauração, da hotelaria ou do alojamento local. A sua missão é a educação e o sucesso académico dos estudantes.
O objetivo não é erguer edifícios por erguer. É contribuir decisivamente para que jovens talentosos, independentemente da sua origem geográfica ou condição económica, possam frequentar o ensino superior e nele triunfar.
Por isso, o alojamento estudantil e todas as infraestruturas de ação social devem ser concebidas e geridas como infraestruturas educativas essenciais: ferramentas de acesso, inclusão, retenção, bem-estar e desenvolvimento de talento.
Quando um jovem do interior ou de uma família com poucos recursos conquista uma vaga numa residência pública, não está apenas a resolver um problema logístico. Está a superar uma barreira concreta que, com demasiada frequência, impede o acesso ao ensino superior.
Sem alojamento acessível e de qualidade, o mérito continua a ser desperdiçado por falta de condições.
É redutor e empobrecedor reduzir estas infraestruturas a meros edifícios ou a oportunidades de negócio. Uma residência de estudantes, uma cantina, um espaço cultural ou desportivo não devem ser avaliados pela sua rentabilidade ou pelo cumprimento de indicadores orçamentais. Devem ser julgados pelo seu contributo para a formação integral dos jovens.
Uma boa infraestrutura socioeducativa é muito mais do que quatro paredes e um teto. Deve ser um espaço vivo de aprendizagem, integração, desenvolvimento pessoal e construção de redes. Tem de ir muito além do mero alojamento: tem de promover ativamente a qualificação humana, a coesão social, a integração e a empregabilidade.
Precisamos de criatividade e visão estratégica na aplicação do financiamento público. Em vez de nos limitarmos a assistir à massificação da construção de micro quartos privados, devemos projetar infraestruturas multifuncionais que articulem o alojamento com serviços de apoio, espaços de estudo e de investigação em grupo, áreas culturais e desportivas, workshops de competências e parcerias com empresas para estágios e mentoring.
É isso é possível e desejável.
Investir em infraestruturas de apoio e alojamento estudantil público não é despesa: é um investimento com elevado retorno social e económico. Corrige assimetrias, democratiza o acesso às melhores instituições e permite que o talento de todo o país se desenvolva plenamente e seja retido nas nossas regiões e no nosso país.
Quem reduz uma infraestrutura de apoio ao estudante a um mero edifício ou a uma oportunidade de negócio vê muito pouco.
As residências estudantis são, e devem continuar a ser, espaços de qualificação humana: locais onde se forma carácter, se criam laços, se estimula a autonomia e se prepara o futuro. São instrumentos poderosos de coesão territorial, inclusão e promoção da equidade.
O sucesso do sistema de ensino superior português não se mede apenas pelo número de diplomados ou pela qualidade da investigação. Mede-se, acima de tudo, pela capacidade de atrair, reter e fazer triunfar os jovens mais talentosos, independentemente da sua condição social ou localização geográfica.
Educar não é apenas transmitir conhecimento nas salas de aula. É criar as condições para que cada estudante realize todo o seu potencial.
Nessa missão, uma boa residência ou infraestrutura de apoio não é um custo. É um dos melhores investimentos que uma sociedade pode fazer no seu futuro.
É tempo de abandonar visões estreitas e de curto prazo.