Há perguntas para as quais sabemos a resposta: Ö, o título do primeiro longa duração dos Fcukers, lê-se “Oooooooooh”; ou, pelo menos, é assim que eles imaginam que se leia. Já agora, Fcukers lê-se Fuckers; ou, pelo menos, é assim que eles imaginam que se leia. E, julgo poder dizer isto com algum grau de certeza, bastam estes detalhes para demonstrar que eles têm sentido de humor e são subversivos.
Ora, nesse caso como é que acabaram a ser convidados para abrir para Harry Styles (a partir de julho) depois de despacharem Ö em duas semanas. E como é que tiveram ao seu lado Kenny Beats, o produtor de Getting Killed dos Geese? Será que é Kenny Beats que controla a indústria? E que cordas são aquelas em Feel the Real, a faixa que fecha Ö, fugindo à eletrónica pop que marca o disco?
Bom, durante muitos anos eles nem sequer faziam música eletrónica – durante anos, o duo formado por Shanny Wise e Jackson Walker Lewis em 2022 foi ganhando experiência a tocar em diferentes bandas do circuito indie de Nova Iorque, de onde são naturais. Mas eles são uns nova-iorquinos muito especiais: “O meu pai adorava música britânica”, conta Jackson numa entrevista à Vogue, “e ouvia-a imenso quando eu estava a crescer – ele mostrava-me os Happy Mondays e os The Stone Roses e os Primal Scream”. Isto marcou Lewis ao ponto de ele ter passado um semestre a estudar na Goldsmiths University, em Londres.
Aliás, eles não escondem de todo essas influências. Ainda recentemente Jackson explicitava as referências usadas na criação do disco: “Andávamos a ouvir muito hip-hop dos anos 2000 mas também queríamos colá-lo com outras coisas”. E, sem medos, depois de confessar que andavam a ouvir Kelis, André 3000 e os The Neptunes, desatou a explicar: Butterflies é uma canção R&B, mas feita por cima de uma batida de UK Garage. Lonely é muito Atlanta, mas depois enfiaram-lhe house music dentro. Play Me é muito drum and bass com um breakdown trap.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/4RrsgnUbZIFTw42Apa8lXO?si=EA_9sbDCR8-tpFo6GWZkLg
Seja qual for a canção, eles estão a usar géneros do passado e a cruzá-los, na esperança de criarem uma combinação nova, que de alguma forma soe simultaneamente a clube e a pop – e este é um aspeto muito importante: todas as canções têm potencial de pista e ao mesmo tempo potencial pop, são cantaroláveis, têm refrões.
Em parte, isto deve-se à forma de escrever de Shanny. A maior parte das letras são repetições até ao infinito de frases fortes e catchy: em I Like it Like That ela repete a frase “I like it like that” de uma forma que exsuda sexualidade. A voz de Shanny é um trunfo inacreditável: mantém sempre um tom blasé, aparentemente aborrecido, mas ao mesmo tempo é o tom de quem está sempre preparado para uma festa e para cometer todos os pecados possíveis.
Isto é clarinho na estupenda L.U.C.K.Y., batidão 4/4 e refrão de outro mundo; em If You Wanna Party, Come Over To My House e canta “Say you wanna party? / Come over to my house / There’s no high like my body / No, you can’t live without”. Na maravilhosa Play Me ela começa por cantar “I just wanna rock right now / Give it up now” (e isto soa bastante a Fatboy Slim) e depois “If you wanna play me / I wanna tell ya now we’re taking turns”.
https://www.youtube.com/watch?v=i3wir8dBDb0
Esta influência de clube britânico está espalhada por todo o disco, desde o ritmo quebrado de UK garage de Butterflies até ao loop vocal recortado e viciante de Play Me, que faz lembrar Fatboy Slim — não sei se já tinha exposto aqui esta relação.
Mas, apesar disto, os Fcukers são, no fundo, uma banda muito nova-iorquina. Antes de mais porque estão lá; mas também porque o som deles mistura batidas de dança dos anos 90 e 2000 com a atitude desinteressada de Wise, evocando o espírito lo-fi de bandas como Le Tigre e toda a estética associada à DFA Records nos anos 2000 – com destaque para James Murphy e os seus LCD Soundsystem (os Fcukers chegaram mesmo a tocar como banda de abertura numa residência de Murphy em Nova Iorque).
O álbum Ö nasceu de forma surpreendentemente rápida – e não da forma que eles esperavam. Depois de assinarem pela lendária editora londrina Ninja Tune no início de 2024 e do lançamento do EP Baggy$$, começaram a sentir o peso das expectativas. “Estávamos numa posição estranha porque o EP era quase uma declaração de identidade”, explica Lewis. “Tínhamos a pressão de fazer um primeiro álbum, mas também a dúvida sobre para onde ir a seguir.” À medida que os prazos apertavam, nada parecia resultar. “Simplesmente não estava a funcionar”, diz Wise, admitindo que chegaram a dizer à editora que podiam não lançar música nenhuma durante algum tempo. “A pressão pode bloquear completamente a criatividade – tivemos de a tirar de cima.”
https://www.youtube.com/watch?v=oDFpHxtCZsc
Foi em Los Angeles, durante o Coachella, que tudo mudou. Encontraram-se com Kenny Beats, com quem já trocavam mensagens há meses, e o que era suposto ser uma sessão curta transformou-se numa semana intensiva de estúdio. “Cancelámos tudo e fizemos o disco em duas semanas”, recorda Wise na mesma conversa com a Vogue — o que diz muito sobre as modas desta gente. “E de repente: temos um álbum.”
E essa urgência sente-se. Ö é um disco imediato, quase impulsivo — como se tivesse sido feito para existir apenas naquele momento exato. Há nele uma certa despreocupação com a ideia de longevidade e uma obsessão com a eficácia: cada faixa quer funcionar já, quer prender já, quer fazer mexer já. Isso aproxima-os mais da tradição da música de dança do que da lógica do rock – ninguém vai para um clube à procura de narrativa, vai à procura de impacto.
De onde vem então esse instinto para um refrão perfeito? “Às vezes aparece logo, outras vezes tens de trabalhar muito para lá chegar”, diz Wise. “Mas é isso que torna tudo divertido – quando encontras a palavra certa, a frase certa, é das melhores sensações que há.”
https://www.youtube.com/watch?v=4-U3MQbCWU0
Talvez seja por isso que Ö funciona tão bem mesmo quando parece uma colagem. Beatback tem um beat sólido e synths eficazes, mas é o refrão que o eleva; L.U.C.K.Y.” é direta e quase primitiva no seu 4/4; Butterflies começa contida antes de explodir; If You Wanna Party… tem uma das linhas mais memoráveis do disco recente — provocadora, física, impossível de ignorar.
Depois há Play Me, onde tudo converge: o cruzamento de géneros, o ritmo, e sobretudo aquela voz de Shanny que parece desligada mas nunca distante. I Like It Like That leva a repetição ao extremo até se tornar hipnótica, enquanto TTYGF desacelera e introduz um inesperado sabor reggae – mais uma prova de que, neste universo, não há regras fixas.
No fim, qualquer pergunta que tenhamos sobre eles continua sem resposta clara — e ainda bem. Porque se há coisa que os Fcukers deixam evidente é que não estão interessados em percursos lineares. Preferem o desvio, a colagem, o acaso. Preferem fazer-nos dançar e repetir a frase de um refrão, agora, neste exato instante. E isso, pelo menos por agora, isso está muito para lá do que podíamos esperar.