Desde os primeiros dias do bloqueio ao Estreito de Ormuz que a expressão “choque petrolífero” voltou ao discurso político e à análise económica. Mas é mais do que isso. Uma vez frustrada a expectativa de um impacto de poucas semanas, analistas, organizações e operadores apontam para uma disrupção inédita nos fluxos da circulação de energia. A rotura atinge o coração da produção e ameaça romper com a arquitetura do modelo que tem dominado o mercado mundial há décadas. E vai deixar marcas, mesmo com as perspetivas recentes de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão.
No relatório intitulado, “A Anatomia do Choque Petrolífero no Estreito de Ormuz”, o The Oxford Institute for Energy Studies procura explicar a extensão e a diversidade das ondas deste choque petrolífero, analisando fatores como o tempo de perturbação, as quantidades afetadas, as alternativas, a capacidade dos mecanismos de compensação, as estratégias dos atores envolvidos, perdedores e ganhadores. Com data de 27 de abril, o documento ainda não analisa a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP. Esta rotura histórica com a Arábia Saudita pode enfraquecer a capacidade futura do cartel controlar os preços do petróleo no mercado mundial.
Fecho à navegação levou a queda recorde da produção
A interrupção da navegação comercial através do Estreito de Ormuz é a mais grave disrupção ocorrida nos fluxos e fornecimentos da história do mercado petrolífero, refere o instituto de energia de Oxford com base em dados compilados pela consultora Kpler.
Em 2025, passaram pelo estreito 25% das exportações líquidas de produtos petrolíferos, incluindo 14,9 milhões de barris de petróleo e 3,3 milhões de barris de produtos refinados. O gás natural liquefeito e o petróleo em trânsito por este canal representou 80% do abastecimento mundial, tendo como principais fornecedores a Arábia Saudita, o Iraque, o Irão, o Kuwait, os Emirados, o Qatar e o Bahrain.
Entre 1 de março e 24 de abril, 55 dias, o número de navios a cruzarem o estreito caiu mais de 90%. A interrupção do transporte e os ataques de retaliação a infraestruturas energéticas — campos de gás do Qatar e refinarias na Arábia Saudita — evoluiu rapidamente no maior corte da produção na origem que caiu 11 milhões de barris por dia em março para 16 milhões. “Isto equivale à maior disrupção mensal de fornecimento na história do mercado global de petróleo e ultrapassa o corte mensal promovido voluntariamente em maio de 2020 em resposta à pandemia”.
Alternativas existem, mas são curtas
Existem alguns desvios que permitem contornar o estreito, mas estão concentrados em apenas dois países produtores: a Arábia Saudita e os Emirados.

O pipeline leste-oeste que processou 2,5 milhões de barris por dia em 2025 tem sido uma via fundamental no redirecionamento dos volumes que antes eram escoados por navio, da refinaria saudita de Ras Tanura para Yanbu no Mar Vermelho. Estima-se que a capacidade total do terminal de Yanbu permita processar 4,8 milhões de barris diários de petróleo e mais 900 mil barris de produtos petrolíferos. Já os Emirados que enviavam 2,3 milhões de barris para o Estreito podem desviar os fluxos através do pipeline ADCPO para o terminal de Fujairah. Este Emirado tem um porto estratégico para o trânsito de produtos energéticos no Golfo de Omã (que foi atacado nas primeiros dias de represália iraniana).
O Iraque pode redistribuir parte da sua produção pelo pipeline de Kirkuk-Ceyan, mas a capacidade desta infraestrutura está limitada a 400-500 mil barris por dia devido a avarias e constrangimentos no downstream. O próprio Irão tem como via alternativa o pipeline Goreh-Jask que permite escoar para o Golfo de Omã, mas esta infraestrutura também está limitada a 300 mil barris diários.
Duração da crise e tempo de retoma incertos
À medida que se prolonga o estrangulamento, o foco dos analistas está centrado no tempo que será necessário para que a produção e a exportação marítima destes produtos retome os níveis pré-conflito. Serão meses, estima o relatório do instituto para estudos de energia de Oxford. E o ritmo de recuperação será assimétrico. Quanto mais tempo durar este bloqueio, mais tempo será necessário para repor os níveis. Vai depender do grau de destruição de ativos de produção e industriais que foram atingidos, mas também das mudanças tecnológicas adotadas durante este shutdown e o impacto que a paragem teve em toda a cadeia de produção.
Um dos riscos assinalados é a combinação de sistemas em terra com complexos de produção offshore (no mar) ligados por pipelines submarinos que se verifica em países como o Qatar e os Emirados. Uma paragem mais estendida no tempo não afeta apenas os campos ou poços de produção, mas todo o circuito de processamento, transporte e exportação. Várias grandes refinarias da região foram atingidas por ataques com graus diferenciados de gravidade — Sitra no Bahrain; Mina Al Ahmadu e Mina Adbullah no Kuweit; Ruwais nos Emirados Árabes Unidos; Satopr e Ras Tanura na Arábia Saudita. Estima-se que uma capacidade equivalente ao processamento de 3,5 milhões de barris diários esteja encerrada devido a danos físicos, constrangimentos logísticos ou por precaução.
A Arábia Saudita é o país mais preparado para dinamizar uma retoma rápida da produção porque consegue associar uma vasta capacidade técnica com elevados recursos financeiros e reservas elevadas. Os Emirados também estão bem capacitados para recuperar, combinando uma grande capacidade operacional com uma via de exportação através de Fujairah, no Golfo de Omã. Aliás, com a anunciada saída da OPEP, os Emirados terão como objetivo acelerar o ritmo da produção sem ficar preso aos limites impostos pelo grupo liderado pela Arábia Saudita. O alcance desta saída só será contudo percetível quando os países da região estiverem em condições de retomarem a produção na plenitude.
Mecanismos de compensação do mercado insuficientes
A insuficiência da capacidade de resposta perante a dimensão do choque do lado da procura é outra das lições a tirar desta crise, escrevem os analistas de energia do instituto de Oxford. Uma das maiores fragilidades resulta do facto dos produtores com reservas e capacidade operacional para aumentarem rapidamente a produção serem precisamente os que estão impedidos de fazer chegar essa produção ao mercado — com especial ênfase para a Arábia Saudita.
Sem conseguir colocar mais oferta devido ao estrangulamento físico em Ormuz, os membros da Agência Internacional de Energia decidiram realizar a maior libertação de reservas estratégicas no total de 398 milhões de barris. Mas as perdas acumulados na oferta vão atingir em abril um valor que é praticamente o dobro dessas reservas. Além de que apenas uma parte de stocks é de petróleo. O resto são produtos refinados cuja disponibilização ajuda a aliviar a escassez junto dos clientes, mas não resolve a falta de matéria prima na indústria a nível mundial. Existem também desequilíbrios ao nível regional e da qualidade do produto entre as reservas libertadas e o perfil das necessidades.
Outros mecanismos de compensação usados nesta crise é a autorização de compra de petróleo que está sob sanções, em particular de produtores como a Rússia e o próprio Irão. Antes dos primeiros bombardeamentos ao Irão, o nível de petróleo “sancionado” que estava armazenado no mar (em petroleiros) atingiu o valor mais alto desde 2016, mais de 50 milhões de barris, segundo a Kpler.

No início do conflito, os Estados Unidos suspenderam parcialmente as sanções permitindo transacionar algum deste petróleo. A Índia que tinha deixado de comprar à Rússia por imposição de sanções pelos Estados Unidos foi um dos beneficiários do descongelamento temporário.
Choque na oferta atinge outros produtos essenciais
As ondas de choque do bloqueio naval a Ormuz atingem mais do que os mercados energéticos. Numa análise às previsões de preço das principais matérias-primas, o Banco Mundial sublinha o problema dos fertilizantes, com contágio ao preço dos alimentos e para o impacto que a queda no fornecimento de ácido sulfúrico pode ter na mineração de metais a nível global.
https://observador.pt/especiais/conflito-no-irao-abre-crise-nos-fertilizantes-na-pior-altura-do-ano-portugal-menos-exposto-mas-semear-em-tempo-de-guerra-ja-sai-caro/
Ureia, fosfato diamónico (DAP) e gás natural são componentes fundamentais para a produção agrícola. De forma direta, os fertilizantes; de forma indireta o gás natural, na medida em que é usado para fabricar fertilizantes. O fecho do Estreito de Ormuz coincidiu com o início da época de maior procura no hemisfério norte devido às plantações de primavera. O Banco Mundial prevê que a ureia valorize 60% este ano. O preço do DAP subiu menos, mas devido ao alívio das restrições chinesas às exportações que pode ser invertido se o bloqueio em Ormuz se prolongar. Cerca de 15% das exportações mundiais deste produto passam pelo estreito.
O Banco Mundial avisa que uma disrupção no fornecimento de fertilizantes que se prolongue pela segunda metade do ano terá “riscos significativos” para os preços e para a produção alimentar devido à redução do uso destes produtos em zonas mais vulneráveis.
Os efeitos do bloqueio ao comércio no Golfo Pérsico atingem também metais como o alumínio. A região abastece cerca de 7% da oferta mundial deste produto cuja procura está a crescer por causa da expansão da eletrificação. A projeção do Banco Mundial aponta para um aumento de 22% nos preços este ano.
Os mais afetados. Países do Golfo e Ásia
Entre os países mais atingidos por esta situação estão os grandes produtores de Golfo que não têm canais alternativos ao estreito. O Qatar, cujo campo de gás foi um dos primeiros alvos da ofensiva iraniana, sofreu uma queda de 85% na produção. O fornecimento a partir do Iraque tombou 61% e o do Kuwait quebrou 53%. Mais “suaves” foram as reduções sentidas pelos Emirados — 45% — e pela Arábia Saudita — 36%.
A produção do Irão foi das menos atingidas quando comparada com as quedas sofridas pelos outros produtores. Caiu apenas 6% em março, mas é expectável que este desempenho se degrade com o bloqueio da Marinha americana aos portos iranianos. Por outro lado, este bloqueio americano deverá fazer cair ainda mais o já limitado trânsito de navios, o que indicia uma queda mais acentuada da produção em abril.

Do lado dos clientes, a Ásia é o continente mais afetado, com vários países a terem acesso dificultado às ramas de crude mais adequadas às suas refinarias e a introdução de medidas de racionamento em alguns países. 80% dos produtos energéticos transportados pelo estreito tinham como destino países asiáticos. A China comprava quase um terço destas exportações — cerca de 5 milhões de barris diários, seguida da Índia, Coreia do Sul e Japão — cada um com cerca de dois milhões de barris.
Os países têm procurado contrariar os efeitos deste choque, ajudando os consumidores a enfrentarem preços mais altos e com travões à exportação de produtos refinados. Não obstante esses esforços, a região não tem sido capaz de substituir os barris que deixou de receber do Golfo e enfrenta custos mais elevados nos fornecimentos alternativos, ampliados pelas taxas de frete e pela necessidade de usar ramas menos adequadas às refinarias.
Como consequência, concluem os especialistas do instituto de Oxford, “a Ásia teve de equilibrar com cortes na refinação e racionamento na procura dos consumidores. Isto é crucial, uma vez que a procura asiática é responsável por quase todo o crescimento da procura global de petróleo”.
A China resiste
Apesar da sua grande dependência dos fornecimentos do Golfo — quase 50% do petróleo, 40% da nafta e GPL — a China não é para já uma das economias mais afetadas. Isto porque tem vindo a acumular grandes stocks de reservas estratégicas e comerciais ao longo do último ano. Há ainda refinarias independentes que conseguem ter acesso a petróleo sancionado com origem no Irão. O país tem também uma forte capacidade refinadora e limitou as exportações de alguns produtos para assegurar o abastecimento do mercado doméstico. A resiliência do sistema energético chinês fica mais vulnerável a cada mês que passa sem ter acesso a fontes de petróleo que permitam repor as reservas que estão a ser usadas. Até porque também ficou limitada no comércio petrolífero com a Venezuela, depois da intervenção dos Estados Unidos neste país da América do Sul. A Venezuela era um dos principais fornecedores de petróleo da China.
A vulnerabilidade da Europa
A Europa recebia apenas 6% dos fluxos, o correspondente a 1,1 milhões de barris, enquanto menos 5% destas cargas ia para África e para o continente americano.
Apesar de não ser um grande cliente, há outra especificidade desta crise que torna a Europa mais vulnerável aos efeitos do bloqueio.

O choque no abastecimento apanha produtos refinados, com várias refinarias a serem atacadas no Bahrein, Kuwait, Emirados e Arábia Saudita. E os países europeus são deficitários em produtos refinados, com destaque para o gasóleo e o jet fuel. A insuficiência de combustíveis a nível mundial levou vários países a travarem exportações de refinados, o que tem pressionado em forte alta os preços destes produtos.
O relatório do Oxford Institute aponta também para a limitação das reservas estratégicas e comerciais do continente face à dimensão do choque na oferta. Num cenário de prolongamento da falta de produtos, os Estados europeus podem ter de tomar medidas duras, como travar os fluxos de produtos petrolíferos, atuando do lado da procura. Para já, o pacote de medidas proposto pela Comissão Europeia deixou cair ações mais radicais, como o teletrabalho, limitando-se a recomendar aos estados-membros que procurem cortar no consumo.
O setor que está mais no olho do furacão é a aviação. Não só o preço do jet fuel mais do que duplicou desde o início do conflito, como se receia uma crise de escassez no continente europeu, o que levou a um alerta do diretor da Agência Internacional de Energia. Várias companhias aéreas europeias cancelaram centenas de voos e já elevaram as tarifas das viagens.
A Rússia do lado dos ganhadores
A Rússia aparece como o primeiro vencedor deste conflito. E ganha por duas vias. Vende mais e por maior valor. Por um lado, vê o afrouxar das sanções internacionais às exportações de petróleo e de gás natural — com a suspensão temporária autorizada pelos Estados Unidos — e ganha potenciais clientes novos como a China que perdeu um dos seus fornecedores mais importantes, a Venezuela, e corre o risco de perder o Irão. Por outro lado, a Rússia está a encaixar muito mais receita com a subida do preço do petróleo e dos produtos refinados, como o gasóleo, dos quais é um grande fornecedor mundial.
Com mais dinheiro nos cofres, a máquina de guerra de Moscovo ganha músculo para atacar a Ucrânia. A tensão permanente no Golfo com sucessivos ataques e contra-ataques verbais e o ricochete que faz na oscilação do petróleo também desvia as atenções da guerra no leste da Europa e alivia a pressão sobre a Rússia.
Estados Unidos vendem mais, mas não conseguem evitar contágio dos preços altos
Os Estados Unidos também podem ser colocados do lado dos vencedores. Ainda que os ganhos não sejam em toda a linha. Para os analistas do Instituto da Energia de Oxford, o reforço da produção própria das últimas décadas defende o país de um cenário de risco de escassez física. Com as restrições a atingir grandes produtores, como a Rússia e agora o Golfo Pérsico, os Estados Unidos estão a exportar mais em quantidade — recorde de 5 milhões de barris diários previstos para maio — e a encaixar mais em valor. O índice de transações do petróleo americano, o WTI, está a ganhar força face ao Brent. As petrolíferas americanas estão também a ganhar com a venda de jet, diesel e GPL para a Europa e para Ásia, mas há limites na capacidade de refinação.

Por outro lado, os Estados Unidos não conseguem proteger o mercado doméstico da subida dos preços dos produtos refinados, o que é um grande fator de descontentamento interno que está já a pressionar a inflação. E este desagrado está a atuar como um constrangimento da estratégia americana para o Irão que optou por “congelar” as ações ofensivas no terreno e apostar no bloqueio aos portos iranianos.
E o Irão?
Não obstante os fortes bombardeamentos de que foi alvo nos primeiros dias do ataque duplo dos Estados Unidos e de Israel e que visaram dirigentes de primeira linha como o líder supremo, o Irão conseguiu trunfos importantes. Conseguiu impedir a navegação marítima no Estreito de Ormuz sem necessidade de uma grande operação militar de fecho físico do canal e fez desta passagem estratégica a arma mais eficaz na resposta aos atacantes.
A estratégia de causar a máxima dor à economia mundial e de retaliar contra os países vizinhos está a produzir dividendos a Teerão. Com o foco do conflito entrincheirado em Ormuz, o Irão fez valer o seu papel de “dono” do Estreito, cobrando portagens e impondo condições de passagem que podem não desaparecer no futuro próximo. O país enfrenta agora um bloqueio naval dos Estados Unidos aos portos que quer travar as exportações e produção de petróleo e cujas consequências ainda são uma incógnita.
https://observador.pt/especiais/com-portagem-de-ormuz-irao-nao-quer-dinheiro-quer-dar-um-tiro-na-hegemonia-do-dolar-e-a-china-da-uma-maozinha/