Foi o maior apagão em Berlim desde o final da II Guerra Mundial. Partes da cidade ficaram sem luz no início de janeiro de 2026, numa altura em que se registavam temperaturas negativas na capital alemã. Durante horas, foi uma incógnita o que tinha provocado aquelas falhas de eletricidade, praticamente inéditas na Alemanha. Até que as autoridades concluíram que se tratou de um ataque à central elétrica de gás de Berlin-Lichterfelde. Um ato de sabotagem que deixou milhares às escuras e que causou prejuízos na ordem dos milhões de euros.
Dias depois, chegou a reivindicação. Na internet, o Vulkangruppe (Grupo Vulcão, em português) assumia a autoria do ataque. “Foi um ato de autodefesa e de solidariedade internacional com todos aqueles que protegem a Terra e a vida. Expomos as ligações entre a riqueza, o estilo de vida imperialista e a destruição das nossas bases de vida, às quais todos nos devemos opor”, lia-se no documento. O grupo identifica‑se com a extrema‑esquerda e com causas anarquistas, ambientalistas e antifascistas, estando ativo desde pelo menos 2011. E o ataque que desencadeou o incêndio na central elétrica de Berlin‑Lichterfelde não foi o primeiro: o Vulkangruppe tem sido apontado como o responsável por uma série de ações de sabotagem contra infraestruturas energéticas e tecnológicas na Alemanha.
Num país que já foi alvo de vários ataques resultantes do extremismo islâmico e de extrema‑direita, a Alemanha vê‑se agora a braços com outro fenómeno: o extremismo e a violência perpetrados por grupos de extrema‑esquerda, que atuam em pequenos núcleos clandestinos, mas extremamente bem organizados. Os principais alvos? Infraestruturas críticas e instalações ligadas a grandes empresas e milionários. As autoridades alemãs estão a tentar perceber a verdadeira extensão deste fenómeno e admitem falhas na forma como lidaram, durante anos, com o radicalismo violento de esquerda.

Na extrema‑esquerda alemã, existe um amplo leque de grupos cujos motivos complicam a vida às autoridades e muitas vezes articulam-se entre si: anarquistas, ambientalistas radicais, comunistas e primitivistas (defensores de um modo de vida menos tecnológico e que têm como principais inimigos as grandes tecnológicas). Alguns usam métodos violentos para colocar em prática a sua visão do mundo. Já foram registados ataques na fábrica da Tesla em Brandemburgo (a única da marca de automóveis detida por Elon Musk na Europa) e certas pessoas já foram atacadas depois de serem rotulados como “fascistas”.
O crescimento do radicalismo de esquerda acontece num momento em que a cena política alemã está mais polarizada. A Alternativa para a Alemanha (AfD) ganha cada vez mais apoiantes e até já lidera as sondagens. Neste contexto interno que encaram como menos favorável, algumas organizações de extrema-esquerda têm recorrido a métodos mais violentos para se impor.
Extremismo de esquerda foi desvalorizado na Alemanha?
Um milhão de euros. Foi esta a recompensa que as autoridades germânicas ofereceram no final de janeiro de 2026 a quem tivesse informações que permitissem identificar os responsáveis pelo apagão em Berlim. O valor mostra o esforço e a urgência com que o Estado se mobilizou para capturar os principais suspeitos. No final de março, quatro pessoas foram detidas na capital alemã, numa operação policial contra círculos anarquistas e eco‑anarquistas, sob suspeita de ligação a atos de sabotagem contra infraestruturas elétricas.

A Alemanha dispõe de um poderoso serviço de informações para assegurar a segurança interna — o Bundesamt für Verfassungsschutz (BfV, na sigla em alemão — em português, Gabinete para a Proteção da Constituição), responsável por monitorizar ameaças extremistas e proteger a ordem democrática. Ainda assim, o apagão em Berlim e outros atos de sabotagem atribuídos a extremistas de esquerda expuseram os seus limites: o BfV não conseguiu impedir o ataque, nem pôde, numa primeira fase, apontar rapidamente quem eram os principais suspeitos.
Oficialmente, quando foi anunciada a recompensa de um milhão de euros, o ministro da Administração Interna da Alemanha, Alexander Dobrindt, prometeu “ripostar” e declarou que o Governo está a “reforçar a luta contra o extremismo e o terrorismo de esquerda”. O governante anunciou mais recursos humanos e financeiros para os serviços de informações internos, incluindo o Gabinete de Proteção da Constituição, com o objetivo de combater este fenómeno e proteger mais eficazmente as infraestruturas críticas.
Numa entrevista ao Süddeutsche Zeitung, o ministro alemão pertencente ao partido bávaro de centro-direita CSU (irmão da CDU, os democratas-cristãos liderados pelo chanceler Friedrich Merz) reconhece que o país está a lidar com uma “onda crescente” de “extremismo e terrorismo de esquerda” que se alia ao “extremismo climático”: “Está cada vez mais presente na Alemanha.” “Estão a tentar ganhar apoiantes para realizar ataques na Alemanha, causando o máximo de danos a empresas, infraestruturas e, consequentemente, aos cidadãos.”
Há, ainda assim, a noção de que algo falhou, quando se compara a resposta do Estado a diferentes tipos de extremismo. “É perfeitamente natural que o ministro da Administração Interna lute contra o extremismo de direita. É perfeitamente natural que o ministro da Administração Interna lute contra o extremismo islâmico. Mas o ministro da Administração Interna também luta contra o extremismo de esquerda. E a minha impressão é que, no passado, houve muito pouca atenção a ser dada ao extremismo de esquerda”, admitiu, em meados de abril, Alexander Dobrindt, num evento com um sindicato policial.
Uma das explicações para essa “pouca atenção” tem a ver com as motivações. Muitos dos autores destes ataques alegam causas que, à superfície, não são por si nefastas: a defesa do clima ou a luta contra o extremismo de direita. Ao olharem apenas para os objetivos — sejam ambientais, anticapitalistas ou antifascistas —, as autoridades alemãs podem ter subestimado este tipo de violência política e o risco que representa para a segurança interna.
No entender do professor na Universidade de Chemnitz, Eckhard Jesse, a opinião que ainda é preponderante entre as autoridades — e que também partilha — é que o “extremismo de esquerda não representa atualmente uma ameaça para o Estado de Direito democrático alemão”. Ainda assim, o também cientista político ressalva ao Observador: “No entanto, os ataques às infraestruturas devem ser levados a sério.”

A falta de provas, a rede de amigos e familiares e os objetivos distintos
O apagão em Berlim não foi a primeira infraestrutura ou alvo dos grupos de extrema-esquerda. O fenómeno tem-se manifestado há alguns anos na Alemanha. Houve um evento preponderante que os ajudou a organizar e extremar posições: a cimeira do G20, em 2017, em Hamburgo, cidade cujo autarca era à altura Olaf Scholz, antigo chanceler e ex-líder do Partido Social-Democrata (SPD). Em redor daquele encontro em que estiveram presentes vários chefes de Estado, organizações de esquerda convocaram várias manifestações massivas, que degeneraram em violência e tumultos prolongados nas ruas da cidade.
Foi um ponto de encontro para vários manifestantes de extrema-esquerda — dos defensores radicais do clima a anarquistas a grupos anticapitalistas — que aproveitaram a cimeira para se articularem e testarem os limites e novas formas de ação direta. Não foram apenas extremistas alemães que se reuniram em Hamburgo; chegaram militantes de toda a Europa. Apesar do elevado número de feridos resultantes dos protestos, não houve mortos.
As autoridades ainda demoraram cerca de um ano a identificar os principais incitadores à violência em Hamburgo. Três ativistas acabaram condenados, em 2020, a menos de dois anos de prisão, num julgamento que foi marcado por várias tentativas de sabotagem. Um ano depois, surgiu uma revelação que ajudou a perceber o que viria ser o modus operandi destes grupos. A revista que se identifica como anarquista chamada Zündlumpen publicou uma reflexão autocrítica sobre o caso, tentando compreender o que tinha corrido mal para que aqueles militantes fossem condenados.


Na edição de setembro de 2021, os autores analisavam os erros de planeamento. Como recorda o Politico num longo artigo publicado este fim de semana (em colaboração com o jornal alemão Die Welt) em que tenta reconstituir a vaga de ataques de extrema-esquerda na Alemanha, os responsáveis da Zündlumpen concluíram que a “velocidade podia ter sido ajustada, transportes públicos poderiam ser usados” e que “vale sempre a pena planear tempo suficiente para desvios, observações e verificações”.
A Zündlumpen — uma revista anarquista com sede em Munique — é tida como um referencial para a extrema-esquerda alemã. Em outras edições, a publicação encorajou a continuação de ações semelhantes ao que se passou em Hamburgo em 2017 e chegou a sugerir métodos para evitar que se deixassem impressões digitais nos locais dos crimes. O apagão em Berlim pareceu seguir essa lógica: as autoridades encontraram poucas provas e tiveram dificuldades em identificar os responsáveis.
O ministro da Administração Interna alemão já salientou a sofisticação das ações dos extremistas. Sobre o apagão em Berlim, Alexander Dobrindt conjeturou que foi levado a cabo por “células bem estruturadas de terrorismo de esquerda e extremistas climáticos”. “São capazes de não deixar rasto — nem mesmo digital — por muito tempo”, descreveu. Essa forma de atuação complica o trabalho das autoridades e torna mais difícil uma eventual condenação em tribunal.

Em 2022, por exemplo, o Ministério Público de Munique suspeitava que três pessoas associadas à revista Zündlumpen por serem os responsáveis por ataques contra máquinas florestais, turbinas eólicas, betoneiras e dezenas de veículos da polícia. Em 2025, o trio foi investigado pela formação de uma alegada organização criminosa. Porém, a falta de provas sólidas e de ligações levou a que os processos judiciais fossem travados e não avançassem.
Para além dos métodos, a forma como se organizam os grupos extremistas de esquerda também os ajuda a passar mais despercebidos. Como refere o jornal Die Welt, funcionam de forma informal e improvisada, mas com um grau elevado de eficácia. As redes subdividem‑se entre quem define as linhas ideológicas e planeia — e que costuma escrever manifestos e artigos em revistas — e quem as coloca em prática. Muitas vezes, estas estruturas são formadas por familiares e amigos, em que a confiança e a lealdade são praticamente dados adquiridos.
A dispersão e a incapacidade de prever os seus movimentos são também um dos grandes trunfos destes grupos. Ideologicamente, embora muitas vezes se aliem em certos momentos — como na luta contra o fascismo —, defendem causas diferentes. Os anarquistas querem pôr fim a qualquer estrutura estatal que considerem repressiva, como a polícia ou o sistema judicial; muitos ecologistas radicais focam‑se em centrais nucleares e projetos que veem como uma ameaça à sustentabilidade ambiental; já os primitivistas direcionam a sua ira contra grandes conglomerados tecnológicos. Não há um fio condutor entre o extremismo de esquerda e os ataques, à primeira vista, podem parecer aleatórios.

Como a polarização à direita pode ter aumentado o “desespero” da extrema-esquerda — que ataca infraestruturas críticas
Ao longo dos anos, estes grupos estão a ficar mais bem organizados — e mostraram que são capazes de provocar disrupções que atingem dezenas de milhares de pessoas, como se viu com o apagão. Em 2026, a extrema-direita está a ganhar força na Alemanha, ao mesmo tempo que o país é governado por um executivo liderado pela CDU. Num documentário do canal estatal ARD sobre o extremismo de esquerda, uma jovem que participou em protestos pelo clima e que se associou a organizações mais radicais explicou o que a motivou a fazê-lo.
“Simplesmente, cheguei à conclusão de que não podemos ter uma proteção climática eficaz enquanto vivermos sob o capitalismo. Acho que muitas pessoas que são de esquerda estão a ficar desesperadas — pelo menos é assim que eu me sinto em relação à crise climática. E, depois, que a sociedade está a deslizar cada vez mais para a direita. Muitos estão a perguntar-se: ‘O que podemos fazer em relação a isso? O que mais posso fazer? Qual é o meu dever?”, relata a jovem no documentário.
A desilusão com o atual momento político ajuda a explicar porque é que muitos se aproximam de redes mais radicais. Ao mesmo tempo, perante o tal “desespero” que menciona a jovem, há quem passe a acreditar que apenas ações mais violentas e a pertença a grupos extremistas são os fatores que podem efetivamente resultar em mudanças.
Por exemplo, segundo os dados mais recentes das autoridades da Renânia do Norte-Vestfália (considerados um dos estados mais relevantes na Alemanha), os crimes com motivação política atingiram um recorde em 2025. Naquele estado federal onde se concentram muitas das empresas que alimentam a economia alemã, os crimes relacionados com o extremismo de esquerda mais do que duplicaram, registando o maior crescimento: passaram de 1.187 para 2.418 num só ano.
Não é apenas o número que aumenta, mas também a gravidade dos atos da extrema-esquerda alemã. As infraestruturas críticas tornaram‑se o alvo ideal destes grupos extremistas: por um lado, geram forte mediatismo; por outro, oferecem oportunidades para ataques que — em muitos casos — podem ser executados sem deixar quase rasto. Além disso, são alvos relativamente fáceis de localizar e estudar e é simples obter informação detalhada sobre as mesmas.
Corte de linhas ferroviárias, sabotagem em centrais energéticas elétricas, bloqueios em estradas: são várias as infraestruturas críticas que os grupos extremistas de esquerda procuram atingir para expressar a sua revolta. Outros focam‑se em centros de dados e sedes de grandes empresas tecnológicas ou em instalações de empresas como a Tesla, que acusam de simbolizar uma “autocracia digital” ao serviço do fascismo — recordando que, nas eleições de 2025, Elon Musk apoiou abertamente a AfD.

Prevenir estes ataques é praticamente impossível. E o ministro da Administração Interna da Alemanha reconheceu que a informação disponibilizada online pode ser um incentivo para os grupos extremistas agirem. “É muito fácil aceder a dados sensíveis sobre infraestruturas críticas. Quase todos são publicados, embora a divulgação possa ser recusada em casos excecionais”, disse Alexander Dobrindt, em entrevista ao Süddeutsche Zeitung.
“Estamos a trabalhar com o Ministério da Economia na elaboração de uma nova lei que termine com o regime de transparência. No futuro, deve ser aplicado o princípio oposto às infraestruturas críticas: transparência total apenas em casos excecionais”, prosseguiu o governante alemão, que ressalvou também que “uma vigilância total” é impossível.
A Rússia pode estar a apoiar estes grupos?
É uma suspeita que o próprio ministro da Administração Interna alemão levanta. A Rússia — através do ramo dos serviços de informações externos, o SVR — poderia incentivar ou estar envolvida nestes crimes de extremismo de esquerda. “Estamos a investigar todas as frentes e, claro, potências estrangeiras como a Rússia também podem aproveitar‑se de extremistas internos”, afirmou Alexander Dobrindt, sublinhando, no entanto, que não há indícios de que o apagão em Berlim tenha tido mão de Moscovo.
A ligação à Rússia não é descabida. O Kremlin tem levado a cabo várias ações subversivas na Alemanha, país que se tem tornado um dos principais aliados da Ucrânia e um dos maiores financiadores do esforço de guerra ucraniano. Os extremistas internos podiam ser outra forma de Moscovo gerar o caos dentro das fronteiras alemãs. “Uma teoria é a de que estão a ser mobilizados agentes de baixo escalão — o que significa que as potências estrangeiras utilizam indivíduos acessíveis ou coercivos no terreno para realizar ações de espionagem ou sabotagem”, conjeturou Alexander Dobrindt.
Existe ainda a questão ideológica. Setores da extrema-esquerda europeia continuam a olhar para Moscovo com alguma simpatia, principalmente como contrapeso ao que definem como imperialismo ocidental. Na comunidade internacional, a Rússia procura apresentar-se como uma das principais defensoras na luta contra o imperialismo e contra a atual ordem internacional, narrativa com a qual anarquistas, comunistas e anticapitalistas se identificam parcialmente. Mesmo que na prática isso esteja longe da verdade, o Kremlin tem tentado explorar essa visão a seu favor.
Apesar de não descartar por completo o envolvimento da Rússia, uma análise da Polícia Federal Alemã divulgada no outono de 2025, citada pelo Politico, concluiu que “até à data, as investigações policiais não conseguiram, em nenhum caso concreto, demonstrar que um Estado esteve por detrás dos atos” de sabotagem. No mesmo sentido, não surgiram “provas do envolvimento de serviços de informações ou de atores estatais estrangeiros em possíveis ataques contra infraestruturas críticas”.

Tudo indica que será algo interno. Perante um país que virou à direita nas eleições de 2025, persiste a perceção de que a extrema-esquerda passou a ver a sabotagem como uma das poucas formas de agir que lhe resta. Quando reivindicou o ataque à central nuclear que causou o apagão em Berlim, o Vulkangruppe escreveu: “Não somos os primeiros, e não seremos os últimos a tentar, apesar de tudo, chegar às pessoas através das palavras. Não somos os primeiros nem seremos os últimos a recorrer à sabotagem, porque estamos a jogar contra o tempo. Estamos a usar o tempo que ainda conseguimos ganhar para tentar inverter a destruição de todas as formas de vida. As nossas ações altruístas são socialmente benéficas.”
Convencidos de que estão a fazer o bem numa realidade cada vez mais agreste para a defesa dos seus interesses, vários grupos de extrema-esquerda poderão continuar a perturbar o quotidiano dos alemães com ações disruptivas. As autoridades estão agora plenamente conscientes deste fenómeno — mas as dificuldades em travar um adversário interno difuso e difícil de identificar deverão manter‑se.
[Ao décimo dia em Nova Iorque dá-se o homicídio brutal. As últimas horas, o que aconteceu no quarto 3416 e a confissão de Renato sobre como matou Carlos Castro. O acesso aos ficheiros da investigação permite reconstituir toda a investigação ao crime. Ouça o quinto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro episódio e aqui o quarto episódio]
