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Nos bastidores do Coliseu dos Recreios (e no palco): assim se fizeram as noites eternas de Carminho

Os ensaios, os nervos e as canções: acompanhámos os preparativos do terceiro e último concerto da fadista no Coliseu de Lisboa, uma gloriosa encarnação do álbum "Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir".

Ricardo Farinha
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Diogo Ventura
photography

O Coliseu dos Recreios, em Lisboa, não é apenas uma das mais emblemáticas salas de espetáculos do país para Carminho. Foi onde a fadista, nascida e criada no meio, cantou pela primeira vez em público, num evento em 1996, tinha apenas 12 anos. Três décadas volvidas, continua a ser conhecida pelo nome de menina, mas é hoje uma fadista madura no comando de uma carreira sem limites à vista. Nos últimos dias, entre 1 e 3 de maio, reservou o Coliseu para apresentar o seu mais recente álbum, Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir, perante três plateias esgotadas.

Só apenas na terceira e última noite, porém, mais relaxada e em jeito de celebração, é que decidiu fechar o concerto com um dos fados que lhe era permitido cantar em criança, As Penas, popularizado por Amália Rodrigues. Foi um momento de evocação, de encontro com a menina que foi mas também com a expressão mais pura do fado: subitamente, os microfones foram desligados e um Coliseu dos Recreios em silêncio ouviu nada mais, nada menos, do que a voz de Carminho e as cordas da guitarra portuguesa de André Dias. Um canto em ligação direta com o público, sem qualquer amplificação a servir de intermediária.

Foram três noites que também serviram de preparação para toda a digressão nacional e internacional que se segue nos próximos meses. O espetáculo foi estreado (e ajustado) no Coliseu dos Recreios para agora percorrer outras salas. Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir estará em tour por Portugal, por diferentes cidades europeias, com datas no Brasil e em Angola até ao final do ano. O Observador acompanhou os preparativos na terceira noite no Coliseu.

Tal como um disco, um concerto é uma construção constante

Passam poucos minutos das 17 horas quando Carminho chega ao Coliseu dos Recreios. Tem sido a sua casa ao longo de boa parte da carreira, mas é-o especialmente neste primeiro fim de semana de maio. Durante três noites consecutivas, faz do mesmo camarim o seu lar, habita e partilha aquele espaço com os seus músicos, equipa e família — afinal, um dos instrumentistas que a acompanham, João Pimenta Gomes, responsável por tocar o mellotron e instrumentos inusitados como o Ondes Martenot e o Cristal Baschet, é o seu companheiro e pai do seu filho de cinco anos.

“É muito confortável esta coisa de três noites num sítio. O meu sonho era fazer residências assim”, confessa ao Observador. “Porque ocupo o camarim exatamente como o ator de teatro que fica uma temporada. Tenho um certo fascínio por estes camarins, está a dar-me um gozo enorme. Venho para aqui mais cedo, falar com os meus músicos, com os meus técnicos. Os meus músicos costumam chegar mais tarde do que eu. Venho trocar umas ideias com o Hugo [Coelho, técnico de iluminação] e com o Marco [Esteves, técnico de som]. Vamos fazendo alguns ajustes.”

A primeira noite no Coliseu dos Recreios foi marcada por um engano no desenho de luz que acabou por ser incorporado no espetáculo. “Esse erro resultou num efeito espetacular, foi um erro feliz. Perguntei ao Hugo: o que foi aquele efeito que aconteceu ali? ‘Carminho, desculpa, houve um erro, o espelho não desceu, mas hoje já vai ficar tudo bem’. Eu disse-lhe que não, disse-lhe para cometer o erro outra vez. E continuámos a explorar essa ideia e estivemos aqui a divertir-nos imenso com os efeitos do espelho. E desse erro surgiram outras imagens além do que eu esperava. Foi maravilhoso e é muito bonita essa partilha, esse entrosamento.”

A experimentação nas luzes e na cenografia dialoga diretamente com o processo criativo e as ideias que geraram Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir, um disco que prolonga o seu trabalho na “prática do fado”, que explora a sua plasticidade, que desconstrói os dogmas mantendo uma reverência absoluta à canção que é Património Cultural Imaterial da Humanidade.

“Os nervos são sobre a produção, porque estou a pensar em muitas coisas ao mesmo tempo e quero que todas funcionem. Não me consigo bem desligar das coisas em que estive a pensar, quero saber se vão ou não resultar… E é muito bonito ver a reação das pessoas a cada momento."

“Os clássicos e os antigos estão cá para nos nutrir, para nos transmitir confiança, mas não para nos paralisar pela grandeza que tiveram. Eles foram construtores de uma história, mas é essa coragem que me diz: continua, vai fazendo o teu caminho, à tua maneira. É isso que espero de um artista, que não esteja com uma atitude passiva, estagnada e com um repertório cristalizado. O fado é uma língua viva, então não pode estar parado. Tem que ser mexido e trabalhado.”

A primeira noite do espetáculo é a “mais emocionante”, mas na segunda já existe a “confirmação” de que o espetáculo resulta, então torna-se “prazeroso” subir ao palco com essa tranquilidade. Apesar dos muitos anos de experiência, mais do que os seus 41 de vida poderiam sugerir, Carminho confessa sentir-se nervosa aquando da estreia de um novo espetáculo.

“Os nervos são sobre a produção, porque estou a pensar em muitas coisas ao mesmo tempo e quero que todas funcionem. Não me consigo bem desligar das coisas em que estive a pensar, quero saber se vão ou não resultar… E é muito bonito ver a reação das pessoas a cada momento, ‘ah, se calhar foi aquele desenho, a música está mesmo a ligar-se à imagem’. Acho que os nervos não são positivos, mas são inevitáveis. Então temos de arranjar estratégias para os driblar, têm de ser domados.” No caso da fadista, é agarrar-se aos pensamentos e memórias que reforçam todas as (muitas) ocasiões em que tudo correu bem. Numa segunda ou terceira noite, os nervos dissipam-se, mas mantém-se a adrenalina.

Estrear um espetáculo novo é confirmar se toda a preparação idealizada durante meses — o desenho de luz, o cenário, os arranjos, a qualidade do som — resulta perante um público de alguns milhares de pessoas. Num disco que explora a difusão e a ilusão, as ambivalências e as dúvidas, Carminho pensou num concerto quase todo entre o preto e o branco, o negrume e a luz, e os infinitos tons cinzentos que marcam as ambiguidades da vida. “Esse risco e essa afirmação tão solene também traz um nervosismo. Não procurei um concerto que agradasse a toda a gente. Procurei fazer um concerto que tenha um sentido em relação ao disco que fiz e ao pensamento que fui tendo. O desafio foi preparar um concerto especial, que seja bonito, que conte uma história e que eu possa levar para todo o lado, que tenha essa transportabilidade.”

Embora seja este o espetáculo que Carminho vá apresentar em todas as outras salas, em diferentes países e continentes, há sempre margem para ajustes e trocas no alinhamento. “Porque há canções que ganham uma importância que não sabias que tinham. Outras eram imprescindíveis e deixam de fazer tanto sentido. E depois lembras-te de canções que fazem parte do repertório antigo e que têm mesmo que fazer parte do concerto porque ligam as pontas.”

A interação com as pessoas na audiência é fundamental nesta lenta mutação que um espetáculo vai tendo. “Às vezes querem, no final, algo mais animado. Então canto uma marcha. Ou algo mais nostálgico. Tudo isso se consegue ler. Outras vezes pedem-me mesmo canções do público e se eu souber as letras, canto.”

“O público quer a verdade. E a verdade é imperfeita”

Acima de tudo, Carminho acredita que a melhor forma de encarar uma atuação é com naturalidade. Assumir o cansaço, abraçar a tristeza, aceitar as incertezas. Afinal, cada concerto é mesmo único, com nuances e detalhes distintos, e a beleza da música ao vivo é precisamente essa.

“Muitas vezes, nos dias em que estou mais cansada é quando o concerto me corre melhor. Por isso, faço o exercício de nunca duvidar que aquilo vai correr bem. Porque se forçar o corpo, a emoção ou o ser perfeito… As imperfeições é que fazem a relação vertiginosa com o público. O público quer a verdade. E a verdade é imperfeita. Quando estou triste, essa tristeza alimenta o concerto e é muito bonito. Isto nem é carregar no play nem fazer a primeira coisa que me vem à cabeça. Há um plano, mas existe flexibilidade de manobra e de improvisação para nos deixarmos levar pela energia do público naquele dia, por aquilo que eu e os músicos estamos a sentir.”

Carminho interrompe o raciocínio quando repara num erro no palco. O cenário de fundo branco, duas paredes laterais e uma de fundo, precisa de ser ligeiramente ajustado para estar totalmente ao mesmo nível. Após duas noites no Coliseu dos Recreios, também não existe um grande ensaio de som para fazer, mas os músicos e a fadista instalam-se no palco para ainda assim realizarem os testes que as boas práticas recomendam. “Só para confirmar que as ligações estão bem feitas, que não houve ninguém a desligar uma tomada”, brinca Carminho. “E revermos um pouco, na nossa cabeça, tudo o que vai acontecer.”

Os músicos João Pimenta Gomes (mellotron, Ondes Martenot, Cristal Baschet), André Dias (guitarra portuguesa), Pedro Geraldes (guitarra elétrica), Tiago Maia (baixo acústico) e Flávio César Cardoso (viola de fado) instalam-se nos seus lugares para ligarem os instrumentos. Carminho está no centro do palco, ocupando diferentes posições consoante o tema e o seu enquadramento no espetáculo. O filho da fadista está perto do pai na típica agitação de uma criança. “Filho, senta-te a ouvir a mãe que hoje é Dia da Mãe”, diz Carminho, antes de entoar umas notas de temas dos Beatles como Ob-La-Di, Ob-La-Da ou She Loves You, que o filho aparentemente aprecia.

“Como qualquer atleta, tenho que aquecer, só que apenas aqueço dois músculos do corpo inteiro. Costumo dizer que sou uma atleta de alta competição mas só em dois músculos, que são bem pequenos. E depois é abraçar os meus amigos, a minha equipa, desejar-lhes ‘muita merda’, e não me esquecer de pequenos triggers que me ajudam emocionalmente a estar presente em palco.”

“Baixa um bocadinho o vocoder, acho que está a picar”, diz para o técnico de som instalado na régie na retaguarda do Coliseu, hoje novamente preenchido por cadeiras vermelhas, porque se vai cantar o fado. O ambiente é profissional e exigente, mas ainda assim descontraído. “Faz-vos confusão que cante assim? É que às vezes estou só na minha”, diz Carminho aos músicos enquanto interpreta uma parte de Pela Minha Voz, tema composto por Joana Espadinha, que durante o concerto a fadista nomeia como a sua compositora portuguesa favorita.

Finalizado o ensaio de som, naturalmente curto para quem está a fazer uma terceira noite consecutiva na mesma sala, resta jantar na sala de refeições do Coliseu dos Recreios, num ambiente tranquilo e familiar. A preparação final inclui trocar de roupa e fazer os últimos ajustes de cabelo e maquilhagem, num camarim particularmente sóbrio e sereno.

Antes do espetáculo, Carminho conta que a única coisa que faz é beber água por uma palhinha, um exercício para aquecer a voz e relaxar o seu instrumento, as cordas vocais. “Como qualquer atleta, tenho que aquecer, só que apenas aqueço dois músculos do corpo inteiro. Costumo dizer que sou uma atleta de alta competição mas só em dois músculos, que são bem pequenos. E depois é abraçar os meus amigos, a minha equipa, desejar-lhes ‘muita merda’, e não me esquecer de pequenos triggers que me ajudam emocionalmente a estar presente em palco”, deixa no ar.

Uma contadora de histórias que lembra o legado mas traz frescura para o palco

Quando voltamos a ver Carminho, a fadista está transformada em palco, a entoar a hipnótica e melancólica Balada do País que Dói, a primeira faixa de Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir. Está de lado para a plateia, elevada numa plataforma, uma ventoinha agita-lhe os cabelos e um enorme lenço preto à medida que a canção se intensifica.

É uma visão esplendorosa, um fado cinematográfico de sombra e luz, a figura de Carminho recortada pelo projetor branco. “O barco vai, o barco vem/Português vai, português vem/O corpo cai, o corpo dói/Português vai, português cai”, canta o poema escrito por Ana Hatherly. O momento é tão expressivo, nesta dramática e impressionante composição cénica, que damos por nós a avistar o próprio fado, personificado, em todas as viagens malfadadas pelo mar, em todos os becos lisboetas de má fama, em toda a sua desolação e pesar, de cabelos soltos ao vento e tecido negro a esvoaçar. Já vimos fado assim?

O Coliseu dos Recreios é amplo e alberga uns quantos milhares de pessoas, mas, tirando uma pequena agitação inicial de conversas paralelas interrompidas pelos pedidos de silêncio dos espetadores do lado, torna-se um templo solene para o fado de Carminho. Vestida com um fato branco, austero e andrógino, como quem também desconstrói a ideia da intérprete fadista dona de uma grande voz mas cujo destino está nas mãos de homens músicos, compositores, agentes e outras figuras de poder dos bastidores. Carminho é a sua própria líder, auto-determinada e emancipada, que apresenta um disco particularmente inspirado em mulheres e de pendor feminista. A dada altura, sublinha o “caminho corajoso” feito por muitas mulheres antes de si que permitiram “abrir as portas” para que ela esteja ali esta noite como intérprete, letrista, compositora, produtora e comandante do seu próprio projeto artístico.

“O fado tem letras muito machistas, é uma história de 200 anos e nem tudo se deverá trazer para o presente. Há coisas que pertencem a outro lugar, discursos que não fazem parte deste tempo”, defendeu. “O fado é como aquela tia avó que eu amo muito mas que às vezes diz cada coisa…"

Num registo de contadora de histórias, Carminho vai falando empaticamente com o público da sua prática do fado, de como se constrói um cancioneiro, de que pode ir recolher poemas eruditos às livrarias mas também mergulhar em “sites de layout manhoso” para desvendar pérolas perdidas da poesia popular, como aconteceu quando se apropriou dos versos de António Campos para gravar Pedra Solta, do disco anterior Portuguesa (2023), canção em que trocou o género do protagonista, passando de mulher a homem, rompendo com o sexismo estrutural latente na poesia.

“O fado tem letras muito machistas, é uma história de 200 anos e nem tudo se deverá trazer para o presente. Há coisas que pertencem a outro lugar, discursos que não fazem parte deste tempo”, defendeu. “O fado é como aquela tia avó que eu amo muito mas que às vezes diz cada coisa… Não me envergonhes à frente dos meus amigos. Consigo ver que muita gente não concorda comigo, mas sou eu que tenho o microfone”, atirou num gesto insubmisso, de quem é igualmente indomável e íntegra, respeito próprio e pela canção lado a lado.

O cenário é francamente simples. Envoltos por uma tela branca, atrás de Carminho reside apenas um lençol igualmente branco, vincado, suspenso e inclinado. É um elemento singelo que remete para a Antiguidade Clássica, para a tragédia grega, mas que também pode evocar, através da imaginação, a roupa nos estendais da Mouraria ou de Alfama, as próprias paredes portuguesas caiadas de branco, com as suas imperfeições naturais. A paisagem cénica joga com a ideia de clássico e contemporâneo — é tão minimalista, e o desenho de luz tão sofisticado, que nos transporta de igual forma para o imaginário abstrato de uma instalação de arte moderna.

No fundo, é isso mesmo. Carminho salienta que não tem quaisquer pretensões de mudar ou revolucionar o fado, que é nele que “pensa todos os dias”, num espírito de dedicação total, mas acrescenta camadas e leva-o a sítios num caminho de constantes mutações, desconstruções e construções, questionamentos e respostas que raramente são conclusivas. Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir — cuja canção homónima parte de um poema de Carlos Barrela que Carminho encontrou numa caixa que a fadista Beatriz da Conceição lhe deixou — tem tudo a ver com essa ideia de subverter o fatalismo, de que é possível resistir, de que há mais além das muitas certezas tantas vezes romantizadas nas vozes do fado.

Carminho procurou explorar o caminho, honesto e estoico, da dúvida, da ambiguidade, das contradições que podem coexistir numa canção ou numa pessoa, que na verdade são indissociáveis da condição humana. E há uma enorme segurança, maturidade e consciência quando alguém faz das suas hesitações e fragilidades a sua força. Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir, em disco ou em palco, reflete precisamente isso — note-se, aliás, no enorme espelho redondo, de formas curvilíneas desenhadas, que desce durante Pela Minha Voz. “E mesmo que os meus olhos chorem mágoas/Ou que os sonhos vão com a maré/O meu coração quer ser inteiro/Quer cantar tudo o que é”, entoa a fadista.

O espelho traz a ideia de um reflexo de uma história, de um enorme legado, mas a forma como é conjugado com as luzes ao longo dos diferentes temas sugere outros efeitos, como a ilusão e a dispersão. E as canções soam exatamente assim, quando a voz ao vivo de Carminho e as suas vozes registadas como notas no mellotron se sobrepõem, quando usa o vocoder e transmite uma voz mais frágil ou transitória.

“Apesar de não parecer, estou sempre a fazer a mesma coisa”, dizia-nos antes em entrevista. “Estou sempre a tentar responder às mesmas perguntas sobre o fado. Que papel é que eu quero ocupar? Qual o papel do intérprete? E as fadistas que são tão afirmativas, deterministas, fatalistas e resolvidas? E as fragilidades, como é que se traduzem na música? Há outras vozes que se sobrepõem e a intérprete sai de cena. Há vozes que são interiores, vozes que estão confundidas, que são ambíguas. Nem sempre têm as certezas todas. São frágeis.”

“As pessoas ligaram-se muito a essa canção. O que acho que é incrível. Mas é curioso, porque é geneticamente idêntico a outros que canto. A Rosalía foi um veículo extraordinário que cantou este fado e despertou as pessoas para esta canção. Agora, com este arranjo diferente, quero que as pessoas liguem as pontas e sintam o que é esta música, que conhecem e que ouviram através deste dueto: onde nasce, de onde parte, qual o ponto de partida.”

Em Saber, enquanto canta o fado vai soltando as vozes gravadas pela norte-americana Laurie Anderson, figura maior da música experimental, numa complexa teia de cantos e respostas que sugere precisamente essa ausência de certezas, essa desordem de muitas vozes. Em certos segmentos, Carminho canta simultaneamente para dois microfones, um dos quais em modo vocoder, como se estivesse muito literalmente a soltar as diferentes vozes que tem dentro de si, as diferentes mulheres que a habitam, que a inspiraram e que fazem parte de si, as muitas versões que já teve e cujos resquícios ali permanecem.

Esteticamente, é o fado, que historicamente tanto é sagrado como profano, a dialogar com recursos externos que acrescentam elementos sem nunca o desviarem da sua rota. Em Lá Vai Lisboa, grava, ali mesmo, um loop do refrão em vocoder, criando um pano de fundo para depois juntar a sua voz alta e cristalina, provando (uma vez mais) que tanto a voz como o microfone são instrumentos que mais do que domina.

Embora este seja um disco recheado de camadas, que levou uma vasta pós-produção e edição, tudo em palco é tocado ao vivo. Não há quaisquer backing tracks, o que também faz com que o espetáculo seja verdadeiramente um organismo vivo, onde há margem para descobrir nuances, experimentar e improvisar. “Não sendo ipsis verbis o disco, é um concerto que está vivo e poderá eventualmente resultar em coisas novas, em ideias para novos discos”, na jornada que é a carreira de um artista.

Mesmo que haja canções mais majestosas e outras mais descontraídas, todos os momentos parecem altos ao longo de um concerto de uma hora e meia. A Marcha de Alcântara de 1969 anima a sala. À Sombra do teu Cabelo é o único momento em todo o espetáculo em que o palco se ilumina em radiantes tons vermelhos, quebrando com o eixo branco-preto, uma canção no campo da fantasia e da imaginação de homenagem ao filho. “É o meu momento LSD, há cinco anos que não durmo”, brinca, provocando gargalhadas entre a multidão. Dia Cinzento fala da importância (e da inevitabilidade) do perdão e das cedências nas relações humanas, o busto de Carminho envolto numa névoa onírica como que a sobrevoar o palco.

É apresentado, até de forma particularmente convincente, como o derradeiro tema do espetáculo. Já há três ou quatro fãs apressados a abandonar a sala quando Carminho e os músicos regressam ao palco para um encore de uma mão cheia de temas. O primeiro é Memória, o fado que Carminho partilhou com Rosalía no seu álbum LUX e que recentemente protagonizaram na MEO Arena. A fadista traz o tema numa roupagem “o mais tradicional possível”, como descreve ao Observador, intencionalmente para que se “sinta o contraste”.

“As pessoas ligaram-se muito a essa canção. O que acho que é incrível. Mas é curioso, porque é geneticamente idêntico a outros que canto. A Rosalía foi um veículo extraordinário que cantou este fado e despertou as pessoas para esta canção. Agora, com este arranjo diferente, quero que as pessoas liguem as pontas e sintam o que é esta música, que conhecem e que ouviram através deste dueto: onde nasce, de onde parte, qual o ponto de partida.”

A ovação em pé é avassaladora e mantém-se espetáculo fora, para acolher Meu Amor Marinheiro e Escrevi o Teu Nome No Vento, dois dos seus primeiros grandes êxitos. “Vejam lá, que hoje é domingo. É que eu por mim…”, diz Carminho, divertida e a aproveitar o tempo, como quem diz que não tem pressa para concluir o espetáculo. A última canção é a já mencionada As Penas, que a transporta diretamente para a ideia de casa de fados, “um lugar de renascimento e vitalidade que nunca se esgota”, até porque “as penas” que se cantam e lamentam ao longo da vida vão mudando, e já não são os folhos e os sapatos apertados que a mãe, a também fadista Teresa Siqueira, a obrigou a vestir quando se apresentou naquele mesmo palco aos 12 anos. Mas ainda houve espaço para a oração assumida que é o tema Estrela, com Carminho a apoderar-se da guitarra elétrica de Pedro Geraldes para a interpretar a solo no centro do palco, luz a embater no espelho e a difundir-se pela sala. Entre convicções e dúvidas, poetas imortais e a humanidade terrena, dogmas e rebeldias, estas, para Carminho, foram noites eternas.

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]