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(A) :: A classe média portuguesa morreu

A classe média portuguesa morreu

Um jovem qualificado que aufira 1.800 euros brutos é tratado pelo fisco como um magnata a abater, e pelo mercado imobiliário e financeiro como um indigente sem garantias.

Rui Sampaio
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Tenho amigos e colegas de faculdade que ainda acreditam pertencer à classe média porque conseguem pagar um jantar fora ao fim de semana ou manter uma subscrição da Netflix sem que a conta bancária entre imediatamente em colapso. É uma doce e trágica ilusão. A verdade, dura e cristalina, é que a classe média portuguesa, aquela que historicamente consubstanciava a promessa de que o trabalho árduo e a qualificação garantiam independência, património e paz de espírito, está morta. E o pior do nosso debate público não é a negação do óbito, mas sim a recusa generalizada em assumir as despesas do funeral.

Vivemos, há pelo menos uma década, o prolongamento artificial de uma miragem coletiva. A governação de esquerda, na sua obsessão quase patológica pela redistribuição de uma riqueza que teima em não criar, foi a arquiteta de uma compressão salarial sem precedentes. Ao subir, justamente, o salário mínimo, mas asfixiando fiscalmente tudo o que ousa ultrapassá-lo, o socialismo português não resgatou os pobres; limitou-se a proletarizar os qualificados. Nivelar por baixo não é justiça social, é apenas a democratização da estagnação. Hoje, a distância entre o salário mínimo e o salário médio é uma margem de erro estatística, transformando a excelência e o mérito numa via-sacra onde o prémio final é entregar quase metade do suor ao Estado.

Contudo, se a esquerda operou a eutanásia fiscal, a direita falhou redondamente na promessa da reanimação. O discurso liberal e conservador, tantas vezes focado nas virtudes do mercado livre, tem-se revelado manifestamente impotente ou silencioso perante a economia de rentismo que tomou conta do país. A direita prometeu-nos que a desregulação e a iniciativa privada atrairiam prosperidade, mas esqueceu-se de avisar que o “mercado livre” português é, frequentemente, um capitalismo de compadrio e um casino imobiliário onde quem trabalha não tem lugar na mesa. Não há mercado a funcionar quando um jovem advogado, enfermeiro ou engenheiro ganha 1.200 euros líquidos e encontra o T1 mais barato na periferia de Lisboa ou do Porto a 950 euros.

Em Portugal, o elevador social não está apenas avariado; foi desmantelado de madrugada para vender a sucata a peso de impostos.

O diagnóstico exige que abandonemos o “senso comum” anestesiado e olhemos para os números com a frieza que eles exigem. Com uma carga fiscal a roçar os 38% do PIB, o Estado atua como um sócio maioritário e implacável na vida de quem trabalha, sem devolver serviços públicos compatíveis com essa exação. O drama português resume-se a uma esquizofrenia institucional: um jovem qualificado que aufira 1.800 euros brutos é tratado pela Autoridade Tributária como um magnata a abater, mas é recebido pelo mercado imobiliário e financeiro como um indigente sem garantias. É impossível construir um projeto de vida, formar família ou acumular poupança quando se vive aprisionado neste esmagamento a duas tenazes.

Entristece-me profundamente, mas revolta-me ainda mais, observar a minha geração a aceitar a emigração não como uma escolha de aventura cosmopolita, mas como o único bote salva-vidas num navio que o poder político insiste em dizer que não está a afundar. A nossa resposta coletiva não pode continuar a ser o encolher de ombros ou o conforto fútil das trincheiras partidárias.

Chegámos ao fim da linha do modelo de sobrevivência. A morte da classe média portuguesa é o corolário de um sistema viciado, desenhado para proteger rendimentos passivos e clientelismos de Estado, enquanto pune ativamente quem arrisca, estuda e produz. Não precisamos de mais debates estéreis sobre quem tem a culpa histórica, nem de retórica paliativa que atire poeira aos olhos de quem já não consegue pagar as contas ao dia 20 do mês. Precisamos de um choque cirúrgico nos impostos sobre o trabalho, de coragem para enfrentar oligopólios e de um Estado que se concentre nas suas funções nucleares em vez de querer microgerir a pobreza de cada um.

A ilusão acabou. Está na hora de assinar a certidão de óbito da antiga classe média e começar a trabalhar, sem medo dos dogmas, para construir uma nova. Antes que o último a sair tenha, além de apagar a luz, de pagar também a fatura do funeral.