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(A) :: Guerras? Tarifas? Nada está a abalar otimismo dos empresários europeus

Guerras? Tarifas? Nada está a abalar otimismo dos empresários europeus

Empresários europeus estão entre os mais otimistas em relação aos próximos anos. Em entrevista ao Observador, Kaspar Grathwohl, vice-presidente do UBS, elenca as áreas onde o entusiasmo é maior.

Edgar Caetano
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Mais de dois em cada três empresários, a nível mundial, olham para os próximos anos com otimismo (um em cada cinco, até, com “muito otimismo”) e os europeus estão entre os mais confiantes. As conclusões são de um estudo feito pelo UBS que entrevistou mais de duas centenas de líderes de grandes empresas – e Kaspar Grathwohl, vice-presidente executivo do banco suíço para a Europa, Médio Oriente e África (EMEA) elenca, em entrevista ao Observador, os setores que se mostram mais entusiasmados com as “oportunidades” que estão a detetar: áreas como tecnologias de defesa, a exploração espacial e tudo o que está ligado com independência energética.

Kaspar Grathwohl reconhece que os resultados do estudo surpreenderam, “absolutamente“, quem esteve envolvido neste trabalho, tendo em conta um fluxo noticioso que nos últimos trimestres foi dominado por “guerras comerciais” e, também, guerras no sentido mais literal da palavra.

Foram feitos inquéritos e entrevistas “aprofundadas” a 215 empresários, entre 29 de outubro e 10 de dezembro de 2025, um período anterior ao início da guerra no Médio Oriente. Por essa razão, o vice-presidente do banco suíço admite que “é possível que o otimismo de alguns empresários possa ter sofrido algum rombo” relacionado com uma guerra que, pelo facto de se arrastar há mais de dois meses, está já a penalizar o crescimento das economias e a dificultar o controlo da inflação.

Porém, Kaspar Grathwohl salienta que, no período em que a sondagem foi feita, não só se mantinha a guerra na Ucrânia como havia um outro importante fator de incerteza que, até certo ponto, diminuiu de tom: as tarifas lançadas por Donald Trump. Ainda “persiste alguma incerteza” sobre se a administração norte-americana planeia continuar a recorrer às tarifas como arma política, mas o facto de o Supremo Tribunal dos EUA ter considerado ilegais as taxas alfandegárias aplicadas por Trump retira alguma da incerteza associada a esse fator que atormentou os empresários e os mercados financeiros ao longo de 2025.

https://observador.pt/especiais/imbroglio-nas-tarifas-empresas-americanas-podem-ser-reembolsadas-mas-o-que-as-europeias-e-portuguesas-perderam-ninguem-pagara/

“Ou seja, uma coisa compensará a outra, até certo ponto, no que ao nível de otimismo dos empresários diz respeito”, afirma o executivo do UBS, em entrevista ao Observador.

Europeus são, de longe, os mais otimistas. Na Ásia, o clima é menos positivo

Foram consultados gestores de empresas que, no total, faturam cerca de 35 mil milhões de dólares por ano, uma média de 167 milhões de dólares (ou moeda equivalente) por cada uma – “ou seja, estamos a falar de grandes empresas”, diz Kaspar Grathwohl.

Entre os 215 inquiridos, 21% disseram estar “muito otimistas” acerca do negócio nos próximos 12 meses, ao passo que 47% disseram-se “algo otimistas”. Ou seja, mais de dois terços, 68%, têm uma visão positiva acerca do futuro imediato, ao passo que na anterior edição deste estudo, feita no ano passado, essa percentagem era de 61%.

No final de 2025, quando foram inquiridos os empresários para a mais recente edição deste trabalho, cerca de um em cada cinco (21%) manifestaram uma visão neutral, nem especialmente otimista nem especialmente pessimista, e só um em cada dez (10%) se disse “algo pessimista”. Praticamente nenhum dos inquiridos se mostrou “muito pessimista”, de acordo com esta pesquisa feita pelo UBS.

Estas são as conclusões a nível global, mas Kaspar Grathwohl salienta que, por exemplo, é na Europa que está a maior percentagem de empresários que se manifestaram “muito otimistas” (32%). A esses juntam-se os 42% que se disseram “algo otimistas” – ou seja, 74%, quase três em cada quatro dos empresários europeus têm uma visão positiva acerca do futuro.

Essa percentagem é, até, superior à encontrada nos EUA (69%) e na América Latina (63%), um dos resultados da pesquisa que Kaspar Grathwohl destaca como mais surpreendente e que vai contra as “narrativas” que frequentemente correm nos mercados financeiros. “O clima entre os empresários europeus é globalmente positivo, eles mostram-se muito empenhados em otimizar os seus negócios usando a tecnologia – e fazer isso ao mesmo tempo que estão confrontados com a necessidade de encontrar novas fontes de procura pelos seus produtos e serviços“, afirma o especialista do UBS.

Na Ásia, o otimismo é um pouco menor, sobretudo na região Ásia Pacífico, onde pouco mais de metade (53%) dos inquiridos têm uma visão positiva (apenas 13% “muito otimistas”) e há, até, 2% que se dizem “muito pessimistas”.

“O que é mais interessante é ver que, a nível global, entre aqueles empresários que estão otimistas, o que a maioria deles diz é que esse otimismo se baseia numa expectativa de aumento da procura pelos seus produtos e serviços”, afirma Kaspar Grathwohl. Segundo o relatório, essa é a principal razão que justifica o otimismo de 64% dos inquiridos, a nível global, sendo que na Europa a percentagem é ainda maior: 79%.

Empresas investem em IA, mas não todas. “A IA não é capaz de construir uma parede”

O relatório destaca, também, que em locais como a Europa, os EUA e a China os empresários destacam um importante “vento de feição”: avanços tecnológicos que irão ajudar o negócio. “Esses avanços tecnológicos estão, essencialmente, relacionados com as tecnologias de inteligência artificial (IA), eles dizem-nos que essa é a maior oportunidade que têm diante de si, mesmo comportando investimentos significativos”, afirma o executivo do UBS.

Faz sentido, no entanto, distinguir aquilo que são investimentos em IA (e outras tecnologias) para poupar em custos e, por outro lado, aumentar a faturação, defende Kaspar Grathwohl, vincando que essas são duas formas totalmente diferentes de olhar para o investimento.

“A maior parte dos investimentos em IA estão a ir para questões como gestão de cadeias de abastecimento, modernizar processos produtivos, no fundo, estamos a falar de eficiência e redução de custos“, afirma o suíço. Mas, depois, há outra componente, que é olhar para os investimentos em IA como algo que não apenas pode ajudar a cortar custos mas, também, a aumentar o negócio e as receitas.

No setor tecnológico e também na área da saúde já estamos a ver mais essa segunda componente, cada vez temos mais empresários em mais áreas que estão a ver o investimento em tecnologias como algo que lhes vai ajudar o top line [a faturação] e não apenas o bottom line [os lucros, subtraídos dos custos]”, afirma Grathwohl.

Ainda assim, nem todos os setores estão a embarcar nestes investimentos. O relatório cita um empresário do ramo da construção, no Luxemburgo, que diz que “neste setor, a IA tem um potencial de utilização limitado”. “Isto é um negócio muito físico e a IA não é capaz de construir uma parede“, afirmou o empresário, reconhecendo que, “algures no futuro, teremos robôs, mas isso ainda não existe”.

O relatório revela que, num horizonte dos próximos cinco anos, quatro em cada cinco (80%) dos empresários, em todo o mundo, planeiam aumentar a sua força de trabalho – humana, claro. E mais de um em cada três (37%) garantem que irão aumentar essa força de trabalho “de forma significativa”. Os líderes corporativos dos EUA são aqueles que mais planeiam aumentar o número de trabalhadores (94%) mas os europeus não ficam muito atrás (86%), segundo o estudo.

Um empresário e investidor norte-americano afirmou, na entrevista que lhe foi feita pelo UBS, que “a IA dá ferramentas para nos ajudar a pensar mais rapidamente e com maior alcance, mas a criatividade ainda tem de vir dos humanos“.

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