Era uma vez uma menina que menstruou pela primeira vez e sabia tão pouco sobre o assunto que nem sabia que tinha de usar um produto menstrual à noite. Achava, ingenuamente, que a menstruação parava enquanto dormia. Essa menina sou eu. Lembro-me de ficar contente por poder finalmente dizer às minhas amigas que também já menstruava e de os meus familiares a comentarem alegremente: “Agora já és mulher!”
Ninguém me disse mais nada. E eu também não perguntei. Mas o que eu não sabia… era que todos os meses ia ter dores menstruais. Quando me queixava, diziam-me que era normal, que era a parte “chata” de ser mulher, que elas também passavam por isso.
Nos primeiros anos, adorava quando a menstruação vinha ao fim de semana: ficava deitada no sofá com o meu saco de água quente e medicação, a ver filmes ou ler livros. Quando menstruava durante a semana, servia de desculpa para não fazer educação física, uma disciplina que odiava. Havia qualquer coisa reconfortante neste ritual, a dor como permissão para parar. Mas com o tempo… deixou de ser apenas um incómodo e passou a ser um limite. As dores menstruais tornaram-se sinónimo de cancelar planos, ficar em casa e aceitar que aquilo era o preço a pagar por ser mulher. Se eram incapacitantes? Não. Mas a verdade é que no primeiro dia só me sentia confortável deitada, com o saco de água quente que me deixou a pele vermelha vezes sem conta.
Numa consulta de rotina, já adulta, mencionei as dores. Recebi duas opções: a pílula contracetiva ou continuar com analgésicos. Não se investigou a causa e é aqui que começa o problema: quando a dor menstrual é banalizada, trata-se o sintoma e ignora-se a origem. Somos frequentemente subdiagnosticadas e subtratadas: apenas 4% da investigação médica é dedicada à saúde feminina (McKinsey, 2023) e isto é uma escolha política, pois afinal tudo é político quando somos mulheres.
Lembro-me também de cancelar planos e ouvir: “Isso não é nada, toma um comprimido e vem”, inclusive de outras mulheres que não percebiam do que eu me queixava porque nunca tinham tido dores menstruais. E assim cresci a acreditar exatamente isso: as dores menstruais eram normais e eu não podia fazer nada para além de as aguentar.
Ainda hoje tenho de calar a voz que me chama preguiçosa durante a menstruação. Não sou. Tenho menos energia porque estou na fase do ciclo menstrual em que as hormonas estão mais baixas. Mas vivemos numa cultura de produtividade linear, desenhada por e para homens, que espera consistência num corpo que é cíclico.
A menstruação é a descamação do revestimento uterino quando não há gravidez, um processo fisiologicamente inflamatório. As dores menstruais, ou dismenorreia, manifestam-se sobretudo no ventre e na zona lombar. A dismenorreia primária surge sem uma condição médica subjacente: resulta de um aumento de prostaglandinas, substâncias que levam o útero a contrair-se com mais intensidade para expulsar o fluxo menstrual. Pode começar antes da menstruação e durar até três dias. A dismenorreia secundária está associada a condições como endometriose, miomas, quistos nos ovários, entre outras.
Em Portugal, um estudo de 2025, da Ordem dos Psicólogos Portugueses revelou que 31,5% das pessoas faltaram à escola ou ao trabalho por sintomas menstruais. Outro estudo verificou que a dor menstrual pode atingir níveis de pressão até quatro vezes superiores aos do parto. E ainda assim há mulheres que vão trabalhar porque “é normal”.
O ciclo menstrual foi reconhecido pelo American College of Obstetricians and Gynecologists [Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas] como o quinto sinal vital da saúde, tão importante como a pressão arterial e frequência cardíaca. Pode revelar desequilíbrios hormonais, problemas de tiroide, défice de ferro, resistência à insulina, entre outros. Mas ninguém nos ensina a olhar para ele como um relatório mensal de saúde. Ninguém nos ensina a prestar atenção e a monitorizar a cor da menstruação, a presença/ausência de coágulos, a quantidade de produtos menstruais usados, a intensidade da dor.
Então, como saber se é normal? Se for apenas um desconforto leve, que não interfere com a vida, está dentro do esperado. Fora disso, deve ser investigado.
Foi aos 24 anos que entrei no mundo da educação menstrual e ouvi, pela primeira vez, que as dores menstruais não eram normais. Aos 28, através da fisioterapia pélvica, descobri que os anos de tensão muscular e ligamentar e de sentar incorretamente sobre o meu sacro tinham deixado o meu útero posteriorizado, sem mobilidade e em anteflexão, e era isso que estava na origem da minha dismenorreia primária. Informação que nunca me tinha sido dada antes. Como assim o nosso útero pode adotar várias posições e isto nem sequer é mencionado nas consultas de ginecologia?
Hoje menstruo com 80% menos dor. Conto esta história porque sei que não estou sozinha e acredito que a menstruação não é apenas uma questão biológica, é também social, cultural e política.
E é por isso que estou a coorganizar, com a minha colega Rita Andrade, a Cimeira Menstruação: do Silêncio à Palavra, no dia 30 de maio de 2026, em Lisboa: um evento para trazer este tema para o espaço público e promover a literacia (conhecimento) corporal e menstrual como o direito humano que é. Este encontro contará com um painel sobre as dores menstruais, com a presença de três especialistas: Sara Graça, fisioterapeuta pélvica; Susana Fonseca, presidente da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose e Filipa Teles, especialista em acupuntura e medicina chinesa integrativa.
A moral desta história é simples: as dores menstruais podem ser comuns. Mas comum nunca foi sinónimo de normal. Vamos deixar que nos digam que as dores menstruais são normais?
Sheila Góis Habib é mestre em Direitos Humanos e educadora menstrual. Na Habibi Fertility, dedica-se à promoção da literacia corporal como um direito fundamental e ensina pessoas a monitorizar o ciclo menstrual e a ovulação com base em evidência científica para fins contracetivos. É coorganizadora da Cimeira Menstruação, um evento anual para assinalar o Dia Internacional da Dignidade Menstrual em Portugal e é uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade.