Na semana de 28 de abril de 2026, as máquinas entraram no terreno junto à Praia da Rocha Baixinha, em Albufeira, para o início da construção da Estação de Dessalinização de Água do Mar do Algarve. Uma obra de 108 milhões de euros que arranca sem estar concluído o licenciamento do seu principal risco ambiental.
O TUPEM, ou Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo Nacional é, em linguagem simples, a licença que autoriza o uso de uma faixa de mar para instalar infraestruturas submersas. No caso desta obra, é o documento que autoriza a descarga de salmoura, o resíduo hipersalino produzido pelo processo da dessalinização, no oceano.
Sem ele, a componente mais sensível desta infraestrutura não pode operar legalmente. O processo de consulta pública para este título abriu a 20 de abril de 2026, três dias após a autorização de início de obra, com prazo até 11 de maio. No entanto, as máquinas não esperaram.
Este pormenor não é apenas burocracia, diz-nos algo sobre a forma como a decisão foi tomada. É evidente a pressa do Governo. Porém, com que certezas, e com que respeito pelo processo que devia proteger uma das costas mais valiosas da Europa, é que avançamos? Levanta-se uma questão que os algarvios têm o direito de colocar em voz alta: se o projeto é tão sólido quanto nos dizem, porque não se espera o tempo necessário para ser devidamente licenciado?
A resposta começa nos números. A dessalinizadora de Albufeira, a plena capacidade, produzirá 24 hectómetros cúbicos de água por ano, o equivalente a 6,8% do consumo total anual do Algarve. É a infraestrutura mais cara do Plano Regional de Eficiência Hídrica, 108 milhões de euros de dinheiro público europeu, e resolve menos de um décimo do problema hídrico da região.
Enquanto isso, em 2022, mais de 15 milhões de metros cúbicos de água potável escaparam pelas redes de distribuição do Algarve, água já captada, já tratada, já transportada, simplesmente perdida. Um volume que, segundo a DECO, teria chegado para cobrir 49% das necessidades anuais das famílias algarvias. As perdas médias nas redes urbanas da região rondam os 30%.
Dito de forma direta: o Algarve perde nas suas redes, todos os anos, mais água do que esta obra alguma vez produzirá. Esta não é uma crítica à ideia de segurança hídrica, é uma crítica às prioridades. Quando o recurso escasseia, a primeira obrigação de um Estado responsável é não desperdiçar o que já tem. No Algarve, essa obrigação foi sistematicamente ignorada por todos menos um. Em 2022, dos 16 concelhos da região, 15 ficavam abaixo dos mínimos de reabilitação de rede recomendados pela ERSAR, a entidade reguladora do setor. A maioria investiu zero, ou próximo disso, na manutenção das suas infraestruturas hídricas. Foi sobre este histórico de inação que se construiu a urgência que hoje justifica 108 milhões de euros de obras junto à Praia da Rocha Baixinha.
Tudo isto é ainda mais censurável tendo em conta que o exemplo a seguir não estava nada longe. A Inframoura, empresa municipal responsável pela gestão das
infraestruturas de Vilamoura, é referência nacional neste domínio. Em 2018, apresentava já 15% de perda de água, num setor onde a média nacional ronda os 30%. Desde então, tem investido continuamente na redução de perdas, na criação de ZMCs (que funcionam como setores independentes da rede, equipados com sensores que medem continuamente o caudal e a pressão com o objetivo de detetar fugas, ruturas ou uso de ligações ilícitas), na telemetria de rede e, mais recentemente, num sistema de distribuição que pretende reutilizar água para redes de rega, prevendo uma redução em 34% do consumo de água potável na zona, o equivalente a 136 mil metros cúbicos por ano, com um investimento de apenas 1,5 milhões de euros. Portanto, é possível fazer melhor. Só não tem sido a prioridade.
O padrão repete-se noutras frentes. A ligação entre o sistema de Alqueva e as barragens do Algarve, através de uma tomada de água no Pomarão, foi identificada como necessidade urgente no Plano Regional de Ordenamento do Território em 2007. Dezassete anos depois, em agosto de 2024, o projeto obteve finalmente uma Declaração de Impacte Ambiental favorável, no entanto, as obras ainda não começaram. Da mesma forma, a barragem da Foupana, também prevista nesse mesmo plano como infraestrutura essencial para o Algarve, continua hoje em fase de estudo, sem prazo de execução definido.
Entretanto, o problema agravou-se. Em janeiro de 2024, com as barragens do Algarve a apenas 25% da capacidade, o então ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, anunciou cerca de quarenta medidas de emergência e admitiu publicamente que, sem intervenção imediata, a região chegaria ao fim do ano sem água nas torneiras.
Consegue-se assim perceber que a crise era real, mas ficou sempre por responder a pergunta: como chegámos aqui? Oito anos de governação socialista tinham passado desde o PROT de 2007 e, no entanto, o Pomarão continuava sem obras e a Foupana ainda em estudo.
Existe um padrão nesta história que não pode ser ignorado: sempre que a urgência chega ao limite, o Estado recorre à solução mais cara e mais visível, em vez de executar as medidas estruturais que tinha identificado há muito. O Pomarão custaria 61,5 milhões de euros, pouco mais de metade da dessalinizadora, e poderia transferir até 40 hectómetros cúbicos por ano, o dobro da capacidade inicial desta obra. Esta opção estava identificada, estudada e financiada a 100% pelo PRR, simplesmente não foi feito a tempo.
A urgência que hoje justifica 108 milhões de euros e o atropelo do licenciamento marítimo não foi imposta pela natureza; foi produzida pela inação de quem tinha o dever de agir.
Curiosamente, nos últimos dias o próprio primeiro-ministro Luís Montenegro afirmou que “em Portugal não temos falta de água, temos é falta de capacidade de armazenar esse recurso”. Se é essa a leitura do Governo, fica por explicar porque razão a resposta prioritária foi produzir água “nova” em vez de armazenar melhor a que já existe.
No entanto, o projeto que acabou por ser escolhido, a dessalinizadora, não é mais convincente do que o processo que nos levou até ela; e a voz que se mostra mais incómoda
para o Governo, não é nenhum crítico externo, é a Declaração de Impacte Ambiental, o documento produzido pelo próprio Estado para avaliar os riscos da obra.
O primeiro problema diz respeito à descarga da salmoura. A dessalinização por osmose inversa funciona forçando água do mar através de membranas que retêm o sal e, deste processo, resta a salmoura, uma água com o dobro da concentração salina normal, misturada com os aditivos químicos do processo industrial. Esta salmoura tem de ir para algum lado e, neste projeto, vai para o oceano através de um emissário submarino. A profundidade de descarga prevista é de 7,9 metros.
Para se perceber o porquê deste número ser problemático é necessário compreender o conceito de profundidade de fecho. Este traduz-se na profundidade a partir da qual o fundo do mar deixa de ser perturbado pela ação das ondas. Abaixo dela, os sedimentos estão relativamente estáveis e, acima dela, as ondas redistribuem o que ali se deposita, incluindo substâncias que se acumulem no fundo. Para o local de costa em questão, a profundidade de fecho situa-se entre os 8 e os 10 metros, no entanto, a descarga está prevista para 7,9 metros, ainda dentro da zona de influência das ondas, o que constitui um risco de contaminação. A própria DIA reconhece e alerta para este risco, para o qual não se preveem medidas corretivas.
O segundo problema identificado prende-se no facto de que quando se descarrega uma substância no mar, o seu comportamento não depende apenas do ponto de descarga, mas sim da dinâmica da costa inteira. As correntes, a profundidade, os ventos dominantes e as infraestruturas existentes determinam se essa substância se dilui rapidamente ou se acumula em zonas sensíveis.
Uma avaliação de impacto rigorosa simula este comportamento em modelo computacional, integrando todos estes fatores. Nesta costa, os ventos sopram principalmente de poente para nascente, e existem estruturas como os molhes da Marina de Vilamoura e da praia de Quarteira, as grandes estruturas de betão que prolongam a marina para o mar, que alteram os padrões naturais de circulação da água, criando assim zonas de menor renovação onde a salmoura pode acumular-se em vez de se diluir.
O que torna esta questão ainda mais pertinente é que esses molhes foram prolongados em 2024, o mesmo ano em que a DIA da dessalinizadora foi aprovada, numa obra cujos próprios promotores reconheceram que as estruturas condicionam o transporte de sedimentos nesta costa no sentido oeste para este, tendo por isso encomendado estudos à Universidade do Algarve e à Universidade de Aveiro para garantir que o prolongamento não agravava esse efeito.
Assumir-se-ia que infraestruturas desta dimensão foram naturalmente integradas no modelo de avaliação, no entanto, a questão foi levantada publicamente pelo presidente da Câmara de Albufeira, que afirma ter acedido ao projeto e concluído que estas infraestruturas não foram devidamente consideradas. O Governo não respondeu a esta afirmação de forma específica e, num projeto desta escala e numa costa desta sensibilidade, a ausência de resposta pública satisfatória é, em si mesma, uma resposta.
A tudo isto acresce uma contradição que o próprio processo de licenciamento não consegue esconder. A APA, Agência Portuguesa do Ambiente, é a entidade pública responsável por avaliar e aprovar projetos com impacto ambiental em Portugal. No caso desta dessalinizadora, esta entidade emitiu em novembro de 2025 uma aprovação favorável condicionada, impondo 123 medidas de minimização que o projeto terá de cumprir durante a execução da obra. Ao mesmo tempo, a mesma entidade classificou os impactos do projeto como “não significativos”. A associação ambiental ZERO resumiu esta contradição da seguinte forma: “as mais de uma centena de exigências adicionais agora impostas são a prova de que o projeto, tal como apresentado, não oferecia todas as garantias ambientais”. A isto só tenho a adicionar, cento e vinte e três medidas para um projeto com impactos “não significativos” dá que pensar como seriam os projetos com impactos significativos?
Nenhuma destas fragilidades técnicas se resolve de graça. Na verdade, o custo da dessalinizadora não termina nos 108 milhões de euros de construção, esse é apenas o valor de entrada. A osmose inversa é energeticamente intensiva por natureza, o processo de forçar água do mar através de membranas a alta pressão consome quantidades significativas de eletricidade, independentemente do volume produzido. O próprio Governo estima que cada metro cúbico de água dessalinizada custará entre 35 e 50 cêntimos, aos quais acrescem os custos de transporte e distribuição, não esquecendo que a energia necessária representa a maior fatia desse valor; e essa fatura não desaparece quando chove.
No entanto, não faltam exemplos de quem já passou por aqui antes de nós e experiência internacional devia servir de aviso. A Austrália construiu centrais de dessalinização durante a chamada Millennium Drought, entre 1997 e 2009 como uma solução permanente. Contudo, quando a seca terminou e os reservatórios encheram, as centrais foram colocadas em “modo de espera”, o que resultou, no caso de Melbourne, inaugurada em 2012, num custo ao consumidor australiano mais de 600 milhões de dólares australianos por ano enquanto esteve parada. Em Sydney, a central ficou desligada entre 2012 e 2019, acumulando nesse tempo centenas de milhões em taxas de manutenção. O Algarve registou precipitação acima da média em 2025 e 2026, as barragens recuperaram. A dessalinizadora vai-nos custar, chova ou não.
Não devemos concluir, a partir deste exemplo, que as dessalinizadoras são sempre um erro. No entanto, estas são uma resposta de último recurso, e tornam-se muito caras quando deixam de o ser, especialmente para uma zona como o Algarve que ainda não esgotou as alternativas, apenas decidiu não as executar.
Devemos ter ainda em conta o custo de oportunidade, que nunca entra nas contas oficiais. Cento e oito milhões de euros aplicados na reabilitação das redes de distribuição do Algarve teriam impacto imediato, permanente, e sem passivo ambiental. Não criavam salmoura, não dependeriam do preço da eletricidade e não ficavam paradas ou em serviços mínimos quando chove.
Há responsáveis por estes acontecimentos, nos governos que adiaram as obras públicas, nas autarquias que não reabilitaram as redes, nos responsáveis que decidiram à pressa. Mas a conclusão pertence a quem cá vive. O Algarve não precisa de água fabricada à pressa, precisa de respeito pelo que tem, pelo que desperdiça, e pelo mar que lhe serve de fronteira.