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Donanemab, o tratamento que abranda a progressão do Alzheimer, já é administrado em Portugal. Mas a comunidade médica divide-se

Medicamento atrasa, durante alguns meses, a progressão do Alzheimer em cerca de 35%. Mas custo é elevado e o SNS ainda não o comparticipa. Médicos divididos quanto ao custo-benefício.

Tiago Caeiro
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Com a incidência de Alzheimer a aumentar, tanto em Portugal como na Europa, e ainda sem cura à vista, há um tratamento inovador, recém-chegado a Portugal, que promete revolucionar a vida dos doentes. Chama-se Donanemab, e atua através da destruição das placas da proteína beta-amilóide no cérebro (que ‘asfixiam’ os neurónios). Os ensaios mostram uma evolução mais lenta, num intervalo de tempo que pode ir até alguns meses, mas os resultados são recebidos com algum ceticismo pela comunidade médica: porque o custo do medicamento é elevado, porque os resultados são temporários e não travam doença e porque a decisão da toma tem de ser feita numa fase em que alguns doentes não aceitam o diagnóstico.

O tratamento, realizado ao longo de 18 meses, consegue atrasar a progressão da doença em 35% a 40%, segundo os ensaios clínicos já realizados, permitindo “manter os doentes mais autónomos, mais independentes e mais funcionais durante mais tempo”, diz ao Observador a médica neurologista Ana Castro Caldas, diretora clínica do Campus Neurológico, uma rede de clínicas privadas onde o Donanemab, comercializado sob o nome Kisunla, foi administrado pela primeira vez em Portugal, a 20 de abril.

“Este tratamento não é apenas sintomático, mas atua na biologia da doença e consegue atrasar a progressão do Alzheimer”, diz a especialista, que fala numa “terapêutica revolucionária“, que deve ser administrada em fases precoces da doença. Está indicado para pessoas com uma acumulação anormal de placas de beta-amilóide, um dos fatores apontados pela comunidade médica e científica como potencialmente causador do Alzheimer. Estas placas podem perturbar a função cerebral normal, bloqueando a conexão entre os neurónios e deteriorando as capacidades cognitivas do doente. Ao ligar-se à beta amiloide, o Donanemab ativa as células microgliais, consideradas as células imunitárias do cérebro, para limpar os depósitos amiloides, levando a uma redução das placas no cérebro.

Comercializado pela farmacêutica Lilly, este medicamento foi aprovado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) em julho de 2025, tendo, depois, recebido aprovação do Infarmed em setembro desse mesmo ano. Antes, já tinha recebido ‘luz verde’ das autoridades reguladoras do medicamento em países como os Estados Unidos, Japão, China, Reino Unido, Austrália, Brasil, México e Emirados Árabes Unidos. As diversas aprovações foram baseados nos habituais estudos clínicos de eficácia e segurança que precedem a entrada dos medicamentos no mercado.

Estudo com 1.700 doentes verificou eficácia de 35% no atraso da progressão da doença

No caso do Donanemab, os investigadores recrutaram cerca de 1.700 doentes, que dividiram em dois grupos: um deles recebeu o medicamento e ao outro grupo foi administrado um placebo. Antes de integrarem o estudo, os participantes foram submetidos à avaliação da escala integrada da doença de Alzheimer — uma ferramenta usada para avaliar o desempenho cognitivo em pessoas com a doença, e que é constituída por testes de memória, linguagem e orientação. Esta ferramenta tem associada uma escala de desempenho de zero a 144 pontos, sendo que uma pontuação mais próxima do zero indica maior comprometimento cognitivo.

https://observador.pt/2025/09/25/bruxelas-aprova-uso-de-medicamento-para-tratar-primeiras-fases-do-alzheimer/

O estudo mostrou que, em média, após 18 meses de tratamento, a pontuação dos doentes piorou 11 pontos no grupo que recebeu o Kisunla e 13 pontos nos doentes que receberam o placebo. “Entre os participantes com doença de Alzheimer sintomática em estágio inicial e proteína amiloide e tau, o tratamento com Donanemab retardou significativamente a progressão clínica”, conclui o estudo TRAILBLAZER, publicado na revista científica JAMA. O desfecho primário demonstrou uma desaceleração de 35% na progressão da doença ao longo de 18 meses, sendo que o tratamento abrandou também em 40% a deterioração da capacidade de os doentes realizarem tarefas básicas do dia a dia.

“Este tratamento é eficaz a atrasar a progressão da doença nos estádios iniciais — portanto, a evidência não é aplicada em estádios avançados —, o que está muito relacionado com o facto de em estádios avançados já haver outros processos e a acumulação de outro tipo de proteínas”, explica a neurologista Ana Castro Caldas, lembrando que o Donanemab “não cura a doença, mas abranda a progressão”. A médica explica que se trata de um “tratamento modificador da doença de Alzheimer”, que “muda completamente o paradigma do tratamento e da abordagem” à doença.

Donanemab permitiu "manter os doentes mais autónomos, mais independentes e mais funcionais durante mais tempo" e é "completamente o paradigma do tratamento e da abordagem" à doença de Alzheimer
Ana Castro Caldas, neurologista do Campus Neurológico

Entre os ganhos resultantes do tratamento com Donanemab está o aumento da autonomia e da funcionalidade dos doentes. “O que acontece é que os doentes, pelo defeito de memória, vão perdendo capacidade de fazer algumas funções no dia a dia, seja gerir a medicação, seja gerir pagamentos, seja fazer os autocuidados e, no fundo, vão precisando de cada vez mais ajuda de terceiros para conseguir manter a funcionalidade”, nota Ana Castro Caldas, sublinhando que o objetivo do tratamento é que “o doente esteja mais autónomo, mais independente e mais funcional durante mais tempo”.

Efeitos do tratamento só se mantêm durante alguns meses. Médicos dividem-se quanto ao custo-benefício

Ainda não é, no entanto, clara para a comunidade científica a duração dos efeitos do tratamento, ou seja, durante quanto tempo o medicamento consegue retardar a progressão do Alzheimer depois do final da administração, que é feita uma vez a cada quatro semanas, por via endovenosa. “Nos próximos anos, é certamente uma das perguntas que as agências [de medicamento] europeia e americana vão querer ver respondidas”, antecipa a especialista, adiantando que “já há também estudos a decorrer nesse sentido”.

A duração dos efeitos dos novos anticorpos monoclonais (tanto o Donanemab como o Lecanemab, administrado em março pela primeira vez em Portugal, no Hospital de Luz Lisboa) é precisamente um dos fatores, juntamente com o elevado custo, que continua a dividir os neurologistas. Parte da comunidade médica lembra que o abrandamento da progressão da doença — comprovado em ensaios clínicos – se mantém apenas durante poucos meses após o fim do tratamento, não justificando o investimento, que chega às dezenas de milhares de euros.

“O tempo poupado é de quatro a sete meses”, sublinha, ao Observador, a médica neurologista Luísa Alves, apontando aos resultados do estudo TRAILBLAZER. Um benefício que a especialista considera curto e que, sublinha, não se traduz sequer numa melhoria dos sintomas, mas sim num abrandamento da progressão dos efeitos do Alzheimer.

"O tempo poupado [com os novos fármacos] é de quatro a sete meses. As intervenções não farmacológicas ficam mais baratas, em oposição a esses fármacos, que são caríssimos"
Luísa Alves, neurologista do Hospital Egas Moniz

“Os estudos dizem que, com estes medicamentos, as pessoas não melhoraram, tiveram um declínio menos acentuado”, vinca a médica do Hospital Egas Moniz, em Lisboa, que, no acompanhamento clínico que faz na consulta naquele hospital público, privilegia o tratamento não farmacológico, recomendando aos doentes a estimulação cognitiva, exercício físico, controlo dos fatores de risco vasculares, dieta saudável e convívio social. Estratégias que, diz, têm comprovada eficácia em pessoas com défice cognitivo ligeiro, ou seja, em fases iniciais da doença — precisamente a fase em que medicamentos como o Donanemab e o Lecanemab estão indicados.

Tratamento com Donanemab custa cerca de 40 mil euros. Infarmed avalia comparticipação no SNS

O tratamento com os dois medicamentos inovadores tem um custo que o torna inacessível a uma parte da população com Alzheimer. No Campus Neurológico (uma rede especializada no tratamento, reabilitação e investigação de doenças neurológicas, como Parkinson ou Alzheimer, AVC, e que conta com clínicas em Lisboa, Torres Vedras e Braga), uma administração mensal com Donanemab ao longo de ano e meio tem um custo total a rondar os 40 mil euros, totalmente suportado pelo doente. “Infelizmente, não está acessível a todos neste momento. Antecipamos que poderá haver uma comparticipação, mas não sabemos quando é que isso vai acontecer”, assume a neurologista, referindo-se à análise fármaco-económica que estará a ser feita pelo Infarmed e que vai determinar se o medicamento vai ou não ser financiado no Serviço Nacional de Saúde. Ao Observador, o Infarmed confirma que a avaliação ainda está em curso.

https://observador.pt/especiais/investigadoras-portuguesas-descobrem-que-medicamento-para-convulsoes-pode-ser-a-chave-para-travar-evolucao-da-doenca-de-alzheimer/

O custo global do tratamento com Donanemab no Campus Neurológico inclui ainda os exames necessários, como as ressonâncias magnéticas (seis nos primeiros 12 meses de tratamento) e as tomografias por emissão de pósitrons, designadas PET, para avaliar a evolução das placas de beta-amilóide. Neste caso, é feita um PET antes de iniciar o tratamento e outra entre os seis e os nove meses, se considerado necessário pela equipa médica.

A responsável pelas clínicas do Campus Neurológico explica que o tratamento pode ser suspenso antes dos 18 meses, se a PET demonstrar uma “redução drástica nesta quantidade de amiloide” no cérebro. Ana Castro Caldas reconhece que a quantidade de exames pode ser incómoda para os doentes, também devido ao custo associado. “Pode haver alguma resistência dos doentes, não só pela chatice de fazer as ressonâncias, como pelo custo associado. Mas acabam por perceber a necessidade”, salienta. O PET é um exame invasivo, em que se introduz um composto radioativo no organismo do doente. Depois de um interregno de 60 minutos, faz-se uma captação de imagens 3D durante 15 a 45 minutos. Em poucas horas, o composto radioativo é eliminado do organismo.

Ana Castro Caldas defende que o investimento no tratamento com donanemab vale a pena, mas a opinião da especialistas está longe de ser consensual.

As intervenções não farmacológicas ficam mais baratas, em oposição a esses fármacos, que são caríssimos, que só têm efeitos mínimos em formas muito precoces da doença. Portanto, no custo-benefício, faz muito mais sentido investirmos nas medidas mais simples”, contrapõe Luísa Alves, dando o exemplo de uma medida que defende: uma comparticipação de ginásios para os doentes.

Mas para Ana Castro Caldas, diretora clínica do Campus Neurológico, o investimento no tratamento faz sentido. “Acho que faz sentido, porque de facto não temos mais nada para oferecer do ponto de vista de neuroproteção. Até hoje, o que damos aos doentes são medicamentos que podem, no melhor cenário, melhorar um bocadinho a memória, a atenção, a velocidade de processamento. Mas a doença continua a progredir”, realça a neurologista, admitindo, ainda assim, a importância de intervir também na “mudança de alguns fatores de risco vasculares e no estilo de vida, que podem contribuir para um agravamento mais rápido da doença”.

No final de 2024, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do Reino Unido [NICE, na sigla em inglês], o organismo público que avalia o custo-benefício dos medicamentos para decidir se devem ser comparticipados pelo NHS (o equivalente inglês ao SNS), afirmou que o tratamento com Donanemab proporcionou apenas um pequeno benefício aos doentes, e não seria um bom investimento, sendo o preço cinco a seis vezes maior do que o NHS normalmente considera aceitável. “Este benefício simplesmente não justifica o custo para o NHS [cerca de 25 mil libras ano/doentes, o equivalente a 29 mil euros]”, disse Helen Knight, diretora de avaliação de medicamentos do NICE.

Donanemab tem efeitos colaterais como inchaço e hemorragias

Para além disso, o organismo sublinhou outro fator que pode ter influenciado a avaliação: os efeitos colaterais do Donanemab. Em cerca de um terço dos doentes que receberam o medicamento no estudo TRAILBLAZER, registou-se um inchaço cerebral, na maior parte dos casos sem consequências. No entanto, dois voluntários morreram. Outro efeito colateral grave são as hemorragias cerebrais. “O que acontece é que, quando estes medicamentos tentam retirar as placas da amiloide, há um aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos, o que faz com que haja um maior risco de edema, de inchaço do cérebro e até pequenas hemorragias”, explica Ana Castro Caldas, ressalvando que, “na maior parte das vezes, é assintomático e completamente reversível”.

“Vamos vigiando através de ressonâncias magnéticas que temos de fazer com alguma frequência durante o processo de tratamento. Pode haver casos graves. São raros, mas podem acontecer e exigem esta monitorização mais rigorosa”, garante a médica, acrescentando que “o Donanumab parece ser um bocadinho mais seguro” do que o seu concorrente o Lecanemab, produzido pela Biogen. “Parece que, no caso do Donanumab, são menos frequentes os efeitos adversos”, sublinha. Na lista de efeitos adversos do Donanemab estão ainda inchaço do rosto, lábios, boca ou pálpebras; problemas respiratórios; urticária; calafrios; irritação da pele; náuseas; vómitos; dor de cabeça ou dor no peito.

A neurologista Luísa Alves salienta que, para além dos efeitos adversos, os anticorpos monoclonais têm um conjunto de contraindicações. “A grande maioria das pessoas não pode iniciar estas terapias inovadoras porque há uma uma série de contraindicações”, salienta. No caso do Donanemab, o tratamento é contraindicado a doentes com hipertensão mal controlada, que tenham tido uma hemorragia cerebral prévia ou várias micro-hemorragias cerebrais, ou que estejam a fazer terapêutica anticoagulante.

Depois de ter iniciado tratamento num doente em abril, o Campus Neurológico vai administrar Donanemab a outros três doentes, com idades entre os 65 e os 80 anos, revela Ana Castro Caldas. Antes dessa fase, é obrigatório fazer o diagnóstico da doença de Alzheimer, que tem uma vertente clínica e outra envolvendo exames de imagem. “O diagnóstico continua a ser, até hoje, muito clínico. Há um doente com esquecimentos ou falhas de memória, faz uma ressonância magnética, traçamos um perfil cognitivo e assumimos um diagnóstico”, explica a neurologista.

Doentes recebem diagnóstico entre a negação e o alívio

Luísa Alves realça que o facto de estarem a surgir casos da doença em pessoas mais novas pode estar a contribuir para que muitos não sejam diagnosticados uma fase precoce da doença. “Nos casos de início precoce, nem os médicos de família nem a pessoa nem a família pensam nisso. Há formas de doença muito variadas (queixas visuais, mudanças comportamentais e na linguagem, e não apenas a falta de memória), e mesmo o profissional de saúde nem sempre pensa logo no Alzheimer”, lamenta a neurologista, realçando que, muitas vezes, para confirmar o diagnóstico, é necessário recorrer a procedimentos invasivos, como a punção lombar, para análise do líquido cefalorraquidiano (que depois permite identificar biomarcadores, que servem para confirmar com precisão o diagnóstico) ou o exame PET.

"Pessoas com maior nível de escolaridade desenvolvem mais tarde os sintomas. Mas quando estes se manifestam, normalmente essas vão por aí abaixo mais rápido",
Luísa Alves, neurologista do Hospital Egas Moniz

A médica do Hospital Egas Moniz realça que o percurso até ao diagnóstico começa geralmente nos cuidados de saúde primários. “A pessoa queixa-se ao médico de família, faz alguns exames, que não detetam nada, são prescritos antidepressivos, e a pessoa vem para a consulta de Neurologia”, sublinha a especialista, explicando que na Consulta de Doenças da Cognição daquele hospital, da qual é co-responsável, é feito um teste de rastreio para doença de Alzheimer, e ainda uma avaliação neuropsicológica. “Quando as pessoas têm os primeiros sintomas, a beta-amiloide e a proteína tau já se está a acumular no cérebro há anos”, realça. Uma vez confirmado o diagnóstico, Luísa Alves realça que as reações dos doentes variam, desde o alívio até à ideia de negação da doença.

“Para algumas pessoas, é um alívio. Dizem ‘afinal, não sou maluco’, ‘afinal não sou preguiçoso’. É um alívio, porque estamos a dar um nome a uma condição que as anda a chatear”, conta a neurologista. Outras, simplesmente entram em rejeição. “Há muitas pessoas que não aceitam o diagnóstico, que não querem que os familiares venham à consulta. Chama-se anosognosia, não reconhecem que estão doentes. Temos muitas pessoas que vêm arrastadas pelos maridos, pelas mulheres, é difícil”, confessa a especialista, salientando a importância de combater o estigma ainda associado ao Alzheimer. “Temos de trabalhar para acabar com o estigma, as pessoas que estão melhores são as que aceitam a doença”, vinca.

Luísa Alves explica que a estimulação cognitiva ao longo da vida permite “manter o cérebro bom”, havendo evidência científica de que pessoas com maior nível de escolaridade desenvolvem os sintomas mais tarde. “Pessoas com maior nível de escolaridade desenvolvem mais tarde os sintomas. Mas quando estes se manifestam, normalmente essas vão por aí abaixo mais rápido”, ou seja, o declínio cognitivo surge mais tarde, mas também é mais acelerado.

No que diz respeito ao tratamento, e uma vez interiorizado o diagnóstico, a especialista realça que “a resistência aos fármacos é rara”. Mais difícil é, por vezes, levar os doentes a aderir aos tratamentos não farmacológicos. “Estou a lembrar-me de uma pessoa jovem que sigo na consulta, que faz medicação, mas queria que ela fizesse também estimulação cognitiva”, exemplifica, o que ainda não aconteceu. “Só em conjunto, atacando em várias frentes, é que vamos modificar o curso da doença”, defende a médica.