(c) 2023 am|dev

(A) :: BPI lucra menos 2% (recua 8% em Portugal) mas carteira de crédito sobe à boleia da garantia pública, uma medida que "faz sentido" continuar

BPI lucra menos 2% (recua 8% em Portugal) mas carteira de crédito sobe à boleia da garantia pública, uma medida que "faz sentido" continuar

Resultados do BPI baixaram 2% no primeiro trimestre, para 133 milhões, com atividade em Portugal a ter um resultado 8% menor. Presidente do banco defende que garantia pública "faz sentido".

Edgar Caetano
text

Os lucros do BPI baixaram 2% no primeiro trimestre, para 133 milhões de euros, com a atividade em Portugal a ter um resultado 8% menor do que no período homólogo. O banco está, no entanto, a aumentar a carteira de crédito na mesma medida – 8% – em termos consolidados. O crédito à habitação para os jovens, com garantia pública, deu um contributo importante e o presidente da comissão executiva defende que é uma medida que “faz sentido” continuar e que, sem ela, os jovens “não têm alternativa” e muitos acabarão por emigrar.

De acordo com informação partilhada pelo banco com o mercado nesta segunda-feira, a carteira de crédito aumentou 2,4 mil milhões em termos homólogos, no trimestre terminado em março, com a carteira de crédito à habitação a ter um aumento de 11%, para 17,5 mil milhões de euros.

Nesta área, o BPI fez 6,6 mil contratos no valor de 1,3 mil milhões de euros, com garantia pública ao crédito à habitação jovem. O BPI obteve um reforço de 250 milhões no seu plafond, atribuído pelo Ministério das Finanças, para atribuir crédito à habitação para jovens.

João Pedro Oliveira e Costa, presidente da comissão executiva, afirmou em conferência de imprensa que a medida da garantia pública “faz sentido” porque “é muito difícil para os jovens conseguirem ter o sonho de ter casa própria sem estes apoios“. “O mercado de arrendamento não existe” e, por isso, “se tornarmos a situação inviável, acontece o que já aconteceu no passado que é procurar outro local para constituir vida – é pena, porque Portugal precisa destas pessoas, precisa de população”.

Os comentários surgiram numa fase em que o Governo tem de decidir se prolonga este apoio para além do fim deste ano e, também, numa altura em que o Banco de Portugal dá a entender que poderá nas próximas semanas anunciar medidas que apertem a concessão de crédito à habitação.

https://observador.pt/2026/04/23/banco-de-portugal-prepara-medidas-para-arrefecer-credito-a-habitacao-aquecido-pela-garantia-publica/

João Pedro Oliveira e Costa garante que todos os alertas do supervisor “são para levar a sério” mas não conhece, ainda, medidas em particular, pelo que não faz comentários além de garantir que os bancos não estão a “flexibilizar” os critérios de concessão de crédito. E, por outro lado, pelo menos no caso do BPI as taxas de esforço e rácios financiamento-garantia estão “perfeitamente dentro dos parâmetros definidos”. Por outro lado, não existe preocupação com a qualidade do crédito daqueles que pediram garantia pública, não mais do que existe com a generalidade dos créditos concedidos, afirma o banqueiro.

A margem financeira do banco, um indicador-chave que reflete a diferença entre os juros pagos (nos depósitos e outras fontes de financiamento) e os juros cobrados (nos créditos), baixou 3% para 223 milhões de euros, em linha com a tendência de outros bancos já que houve uma redução das prestações em comparação com os picos da taxa de juro de 2023. Por outro lado, o aumento de 5%, para 79 milhões, nas comissões também contribuiu para os resultados do banco.

Negociação laboral já ultrapassou os limites do “aceitável e razoável”

Ao contrário do que está a acontecer em outros bancos, como no Santander, o BPI aumentou o seu número de colaboradores para 4.544 pessoas (mais 269 em comparação com o ano passado). Questionado pelo Observador na conferência de imprensa, o banqueiro salientou que o BPI “está a crescer há vários anos consecutivos e precisamos de pessoas para prestar um bom serviço de proximidade aos clientes”. O “processo de redução” de pessoas existiu mas foi feito há mais tempo, “eventualmente mais cedo do que outros”, pelo que nesta fase o banco está a aumentar o número de colaboradores.

A propósito dos temas laborais, João Pedro Oliveira e Costa respondeu aos jornalistas que já passou tudo o que é “aceitável e razoável” os vários meses a que se arrasta a negociação do pacote laboral. Sem dizer explicitamente se concorda com as medidas propostas, o presidente do BPI pede apenas que se chegue a acordo “muito depressa”, porque “a incerteza é negativa” e faz sentido “haver uma atualização das regras que foram definidas” noutros tempos.

João Pedro Oliveira e Costa, considerando que existe muita “rigidez” no mercado de trabalho português, que protege os instalados e dificulta a entrada dos mais novos, não concorda que as medidas tragam mais precariedade, porque “a precariedade, no limite, é uma questão que está ligada à sustentabilidade das empresas – de que me serve ter um contrato efetivo, com muitas garantias e direitos, se a empresa não tem sustentabilidade?”.

Para o banqueiro, a demora em chegar a um acordo nesta matéria é um sintoma do “país adiado” e as posições que alguns assumem são de “chantagem“. No limite, diz João Pedro Oliveira e Costa, “há um Governo que foi eleito e deve executar” aquilo que tem planeado para o país, para depois ser “julgado em eleições”.

Na apresentação de resultados do BPI, o banco acrescentou que concedeu mais de 300 milhões de euros em apoios às famílias, empresas e comunidades afetadas pelas tempestades de final de janeiro/início de fevereiro.