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O que é o hantavírus, responsável pelo surto que fez três mortos e três doentes num cruzeiro no Atlântico?

Três pessoas morreram infetadas com hantavírus num cruzeiro holandês que se encontra agora ancorado ao largo de Cabo Verde. Que vírus é este, como se transmite e que complicações pode causar?

João Francisco Gomes
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O vírus que provocou a morte a três pessoas esta semana num cruzeiro transatlântico é transmitido por roedores e tem uma elevada taxa de letalidade, podendo algumas das suas espécies levar à morte de perto de 40% dos infetados, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

Em causa está um navio de cruzeiro com bandeira holandesa, que partiu da Argentina há cerca de três semanas com 150 passageiros a bordo, com destino a Cabo Verde. O surto a bordo fez três mortos (dois de nacionalidade holandesa) e deixou pelo menos três doentes (um deles internado nos cuidados intensivos num hospital da África do Sul).

Este domingo, as autoridades de saúde cabo-verdianas prestaram assistência ao cruzeiro ancorado ao largo da cidade da Praia, enviando equipas de profissionais de saúde com equipamentos de proteção individual a bordo do navio. Foi realizada uma operação de avaliação e assistência médica, mas não haverá desembarque de qualquer pessoa no arquipélago. O navio vai manter contacto permanente com as autoridades das ilhas para qualquer necessidade, mas passageiros e tripulantes vão continuar no mar.

Transmitido por urina, fezes e saliva de roedores

O vírus em causa é um hantavírus, uma família de vírus habitualmente transmitidos por roedores, como ratos e ratazanas. De acordo com o The Guardian, são conhecidas pelo menos 38 espécies diferentes de hantavírus a nível global, das quais 24 podem causar doenças em seres humanos — embora as infeções por hantavírus em humanos sejam significativamente raras.

Segundo o CDC, os hantavírus podem dividir-se, genericamente, em duas grandes famílias: os que são encontrados no hemisfério ocidental (particularmente no continente americano), que causam habitualmente complicações pulmonares; e os vírus mais frequentemente encontrados na Ásia e na Europa, que provocam habitualmente febre hemorrágica e complicações renais.

https://observador.pt/2026/05/03/dois-mortos-ligados-a-foco-de-sindrome-respiratoria-aguda-num-cruzeiro-no-atlantico/

Os hantavírus encontram-se habitualmente em roedores, como ratos e ratazanas, e podem transmitir-se aos seres humanos através do contacto com a urina, as fezes ou a saliva dos roedores. O CDC diz ainda que, em alguns casos mais raros, o vírus pode transmitir-se por mordidas e arranhões de roedores.

Sintomas em duas fases

De acordo com a mesma fonte, os primeiros sintomas surgem habitualmente entre uma e oito semanas depois do contacto com o roedor infetado. Os primeiros sintomas são semelhantes aos de uma gripe, incluindo fadiga, febre e dores musculares, mas também dores de cabeça, tonturas, arrepios, náuseas, vómitos, diarreia ou dor abdominal.

Quatro a dez dias depois do surgimento dos primeiros sintomas, é habitual surgirem os sintomas tardios da doença, explica o CDC, detalhando que é nesta segunda fase que chegam sintomas como a tosse, a falta de ar e as dores no peito — já que esta segunda fase da doença é caracterizada pela presença de líquido nos pulmões.

No caso dos vírus que causam complicações respiratórias, a taxa de letalidade situa-se em torno dos 38%, diz o CDC.

Outras variantes do vírus, responsáveis por causar febre hemorrágica com complicações renais, são menos letais. Nesse caso, os sintomas incluem dores de cabeça, dores abdominais e de costas, febre e arrepios, náuseas, visão turva, hemorragias internas, vermelhidão no rosto e nos olhos e falhas renais. Algumas destas variantes têm uma taxa de letalidade entre os 5% e os 15%, enquanto outras ficam abaixo de 1%.

Não há tratamento específico

Ainda de acordo com o CDC, não há um tratamento específico para a infeção pelo hantavírus. Aos doentes mais ligeiros é recomendado o repouso e a hidratação — e podem ser tomadas algumas medidas para tratar os sintomas. Nos casos mais graves, os pacientes podem ter de ser entubados e ventilados. Nos casos em que o vírus afeta os rins, pode também ser necessário recorrer à diálise.

Por isso, e considerando a elevada taxa de letalidade do vírus, as autoridades de saúde recomendam essencialmente a prevenção: deve reduzir-se ao mínimo a exposição a roedores e apostar na limpeza intensiva de locais onde podem estar ou circular ratos, ratazanas e outros roedores. As autoridades norte-americanas recomendam ainda especial atenção a pessoas que tenham roedores como animais de estimação, como hamsters ou porquinhos-da-índia.

Vem aí outra pandemia?

Tudo indica que não há risco de este surto dar origem a uma epidemia ou pandemia comparável à da Covid-19. Uma vez que a transmissão entre humanos é relativamente rara, as populações em maior risco são aquelas que podem ter maior contacto com roedores, como agricultores ou até funcionários de empresas de controlo de pestes.

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