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Vila Viçosa merece ser Património Mundial!

A candidatura a Património Mundial da UNESCO pressupõe a valorização e o reconhecimento da “Princesa do Alentejo”, sob a designação “Vila Viçosa – Sede Ducal”.

Inácio Esperança
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Vila Viçosa é uma referência cultural em Portugal. Falar do património português é falar indubitavelmente do burgo calipolense, dada a sua importância no contexto geopolítico internacional, sobretudo a partir do século XVI.

A sua monumentalidade é reconhecida em termos globais, tendo em conta o seu património e a sua história, heranças extraordinárias que resultam de circunstâncias excecionais relativas a momentos altos da nação lusitana.

São muitas as páginas escritas nos monumentos da “Princesa do Alentejo”, que refletem a sua importância no contexto português e que projetaram o seu nome pelos quatro cantos do mundo.

Na forma como nasceu e se desenvolveu ao longo dos tempos, Vila Viçosa foi ampla e profundamente condicionada por uma diversidade de fatores, nomeadamente os que se referem à sua localização geográfica e a um conjunto de potencialidades naturais ligados àquela. Situada num vale ameno e fértil, deve precisamente a sua designação a esta localização.

Vila Viçosa, ou vale viçoso, a sua toponímia poderá, à partida, antever o carácter da sua paisagem ao longo da História. De facto, quer as fontes para o período medieval, quer para o moderno apontam no sentido da abundância da água e do verdejante do entorno.

A riqueza do concelho em árvores de fruto, produtos hortícolas e abundância de água. De entre o conjunto mencionado, é de referir, pela sua importância múltipla, o facto de Vila Viçosa se situar na denominada Zona dos Mármores.

Em Vila Viçosa jazem toneladas de mármore da melhor qualidade, conhecido e reconhecido no mundo inteiro há muitos séculos. Fragmentos seus, trabalhados com esmero e arte, adornam templos e palácios dos mais belos da civilização ocidental. Riqueza natural incalculável de pedra luxuosa, com que também se ergueu a bela Callipole, designação atribuída pelo humanista André de Resende, em meados se Seiscentos.

Durante a sua proeminência cultural, no período renascentista, Vila Viçosa atraiu alguns dos mais extraordinários humanistas, pensadores, diplomatas e artistas, além dos seus discípulos, da época, que aqui criaram um excecional complexo urbano de notável homogeneidade, influenciado pelo gosto italiano.

No conjunto, esta vila mantém ainda hoje características estruturais e arquitetónicas que a definem como um dos exemplos mais significativos do urbanismo português, concebido tomando em consideração o tecido unitário da vila visto como um todo. Desde cedo Vila Viçosa revela um crescimento no qual se notam fortes preocupações urbanísticas, cujas diretrizes se inserem numa verdadeira lógica de cidade, cuja génese se vislumbra na idealização conceptualizada pelo pensamento humanista dos alvores do período renascentista.

Nos dias de hoje, o solar da Padroeira de Portugal continua a cativar com o seu encanto genuíno e com a hospitalidade do povo calipolense. São inúmeras as belezas que podem ser apreciadas e que, para além dos seus notáveis edifícios, passam também pela versatilidade no mármore na arquitetura, na gastronomia e nos vinhos, para além das paisagens do montado alentejano, que continua a preservar a sua essência de outrora.

É com base neste legado secular que estamos a preparar, conjuntamente com a Fundação da Casa de Bragança e várias outras entidades parceiras, a candidatura a Património Mundial da UNESCO, que pressupõe a valorização e o reconhecimento da “Princesa do Alentejo”, sob a designação “Vila Viçosa – Sede Ducal”.

Pretende esta iniciativa dar a conhecer o brilho e a influência da Casa de Bragança, não somente no contexto político da Península Ibérica, mas um pouco por todo o antigo Império Ultramarino.

Este caminho, que tem vindo a ser trilhado desde 2016, com a integração na Lista Indicativa Nacional, representa uma oportunidade e simultaneamente um desafio. Aprovada a proposta pela Comissão Nacional da UNESCO, em 2026 a candidatura calipolense constitui, no presente ano, a candidatura do Estado português.

Trata-se, portanto, de uma enorme responsabilidade que representa um conjunto de possibilidades, que trarão uma maior visibilidade em termos da valorização do património nacional, assim como uma necessária consciencialização para a salvaguarda e proteção desse legado.

É prioritário um cada vez maior envolvimento da comunidade calipolense no sentido de proteger o seu património e continuar a salvaguardar a sua identidade tão característica.

A possível e desejável classificação da UNESCO representa um desejo há muito acarinhado em Vila Viçosa e a consciência coletiva de uma cada vez maior responsabilização no que ao património diz respeito.

A proposta, neste momento em fase de apreciação no Centro do Património Mundial em Paris, será seguramente um passo fundamental para a projeção internacional, que trará frutos em termos de dinamização turística e de crescimento económico.

Pretendemos com esta iniciativa olhar para o futuro com otimismo, criando alicerces para um turismo cada vez mais sustentável e que permita a conservação e fruição de uma herança cultural única.

A classificação deste conjunto patrimonial, assente no património da Casa de Bragança em toda a sua extensão, envolvendo o centro histórico, o Paço, o Castelo e a Tapada Real, implica o compromisso para as décadas vindouras, em termos do planeamento de gestão patrimonial, que é absolutamente crucial.

Para além da justificação do valor e da singularidade de Vila Viçosa, é necessário precaver o futuro e envolver os cidadãos em torno das estratégias de requalificação dos bens. As diferentes tutelas têm de estar preparadas para a implementação de medidas, que passam pela preservação, intervenção e possibilidade de fruição.

Prevê-se que em 2027 haja uma decisão final sobre a candidatura calipolense, facto que continua a ser o pêndulo do trabalho que continua a ser desenvolvido.

São muitas as intervenções que se encontram a decorrer e que resultam de protocolos que têm vindo a ser estabelecidos com as diferentes entidades locais, nomeadamente as Fábricas Paroquiais, a Santa Casa da Misericórdia, as Confrarias e Irmandades, assim como com os proprietários de imóveis no centro histórico.

Não basta ter o património recuperado. É fundamental que possa ser fruído. É o trabalho de estamos a desenvolver, com a necessária cooperação de todos os agentes, instituições, sociedade civil e organismos públicos. Só em conjunto será possível alargar os horizontes para lá da desejável elevação de Vila Viçosa no seio da UNESCO e concretizar os projetos que são fundamentais para o futuro do nosso território.

Nota editorial: Inácio Esperança é Presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa.

Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.