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(A) :: O futuro dos homens

O futuro dos homens

Os países Ocidentais estarão preparados para “exércitos de homens”, devidamente educados para as emoções, mas sem trabalho ou objetivos?

Patrícia Fernandes
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1 A página em branco (outra vez)

Perdoem-me a insistência, mas este passo parece-me fundamental para compreendermos a realidade atual: abandonar, de uma vez por todas, o paradigma da página em branco – o mesmo é dizer, o paradigma do género.

Tal não significa ignorar o modo como as sociedades criam papéis no imaginário social, o que oferece alguma variabilidade cultural no comportamento dos dois sexos. Mas não podemos retirar daí que tudo é variável e se encontra absolutamente sob o nosso controlo.

Conseguir impor essa ideia no espaço público terá sido a grande vitória do feminismo e tem conduzido, na verdade, a múltiplas disfuncionalidades e sensação de mal-estar das sociedades ocidentais. É por essa razão que sinto necessidade de me repetir: se não somos totalmente determinados pela evolução, somos pelo menos páginas rascunhadas – e um dos rascunhos mais relevantes é o sexo com que nascemos. Dentro de uma distribuição normal, homens e mulheres são diferentes e esse facto deve refletir-se em múltiplos aspetos que organizam as nossas sociedades, em particular no domínio educativo.

Vou deixar para outro momento a defesa do ensino separado em algumas disciplinas, para regressar à chamada “educação para as emoções”, que tem tido uma influência cada vez maior entre nós. Podemos hoje dizer que a obsessão com as emoções individuais e a prática de refletir sobre elas têm gerado crianças mais autocentradas, mimadas, indisciplinadas e agressivas. Mas esta abordagem é sobretudo prejudicial para os rapazes por afirmar querer libertá-los de uma suposta masculinidade tóxica que a sociedade lhes imporia.

De acordo com a teoria da página em branco, seria possível educar os rapazes para serem emocionais, sensíveis e empáticos e conseguir, com isso, uma sociedade menos violenta. O problema é que isso não está a acontecer.

2 O regresso da violência (outra vez)

O tópico sobre o regresso da violência às sociedades ocidentais tem sido colocado de forma repetitiva nos últimos anos, ainda que pareça difícil defender que há mais violência hoje do que a que existiu em muitas décadas do século XX. Mas é possível que se verifique hoje um aspeto relativamente novo: parece haver uma predisposição maior para legitimar atos violentos, de que a música de Carsie Blanton sobre Luigi Mangione é um bom exemplo.

Não encontramos essa legitimação só nas caixas de comentários. Como James B. Meigs escreve, o espaço público tem vindo a ser crescentemente ocupado pela ideia de que um certo tipo de violência é admissível (a do nosso lado, claro) desde que permita atingir certos objetivos (os nossos, claro). Qualquer outro tipo de violência é naturalmente inaceitável.

Também devemos notar que, apesar de encontrarmos muitas mulheres nessa luta pela legitimação da violência, na prática a violência propriamente dita é feita pelos homens – sim, mesmo que tantos jornalistas insistam em designar essas pessoas como “atiradoras”. É, mais uma vez, uma espécie de convicção de luxo associada aqui ao “privilégio do género”: legitimamos no espaço público certos atos de violência desde que as consequências sejam depois assumidas pelo outro “género”.

Seja como for, a contradição fica evidente: se a violência pode ser extirpada através de “educação”, nomeadamente “educação emocional” – pelo que bastaria formatar os rapazes para serem “empáticos” –, por que razão anos de educação emocional não criaram uma sociedade menos violenta?

É perante esta contradição que o perigo da página em branco se torna mais evidente: quando se parte deste pressuposto, os falhanços da nossa estratégia nunca são entendidos como resultado dos limites reais ao que é possível fazer. Pelo contrário, são sempre entendidos como “ainda não fomos suficientemente longe” ou “ainda é preciso educar mais, construir mais ou, em última instância, desconstruir permanentemente”. E aqui reside o seu perigo: ela não é falsificável, em sentido popperiano; nunca aceita que os erros possam estar na sua teoria mas entende-os sempre como resultado de problemas na sua aplicação.

Mas se estes teóricos são teimosos, a realidade é ainda mais teimosa: a violência parece ser uma dimensão inevitável das sociedades humanas, pelo que o máximo que conseguimos fazer é encontrar estratégias para mitigá-la. E, ao longo da história, encontramos duas estratégias principais para lidar com a predisposição masculina para a agressividade: por um lado, a disciplina; por outro, a atividade física – duas dimensões que têm sido fortemente diminuídas nas últimas décadas. Não só a “educação para as emoções” tende a sobrevalorizar a capacidade de reflexão em detrimento da disciplina, como os espaços de liberdade física diminuíram abruptamente.

Os rapazes têm hoje menos liberdade para correr, subir a árvores, jogar futebol e até entrar, por vezes, em conflitos físicos sem gravidade, como chama a atenção Carlos Neto. E o pai desempenha aqui um papel importante, na medida em que tende a brincar com os filhos de modo mais físico. De facto, dificilmente veremos uma mãe a atirar o seu filho ao ar – são os pais que fazem isso e há boas razões para o fazerem (em segurança, claro): essas brincadeiras de risco e contacto físico ajudam a regular emoções de medo e sensações de insegurança (as mães cumprem outras funções, como nota Erica Komisar).

O tempo para brincadeira é hoje muito limitado e há cada vez menos atividades admissíveis. Então, como e quando aprendem os meninos a regular as suas emoções? Em resultado da crescente higienização dos espaços públicos, já nem no futebol, onde era possível libertar as tensões geradas pela civilização, como diria Freud, o podem fazer, e a participação militar é quase inexistente.

Os equilíbrios têm-se tornado, assim, cada vez mais precários e se é verdade que as sociedades passadas não eram perfeitas, o futuro não augura nada de melhor.

3 O impacto da tecnologia (outra vez)

Reconheçamos que não é fácil abandonar o paradigma da página em branco: implica termos de abdicar da missão de criar um mundo novo e perfeito. E isso pode ser um enorme desapontamento. Não é fácil ter de aceitar que o mundo nunca será perfeito e que encontramos a razão para isso quando nos olhamos ao espelho: não somos perfeitos e a luta para sermos um pouco melhores hoje do que fomos ontem é permanente e frustrante.

Apesar disso, ficaremos mais capazes de interpretar o mundo, compreender as tendências que se estão a desenrolar e identificar os perigos com que nos podemos deparar – em particular pelo impacto da tecnologia no mundo dos homens e no seu futuro. De facto, o desenvolvimento tecnológico tem afetado de forma desproporcional o mundo do trabalho masculino no Ocidente.

Dois fatores contribuíram de modo conjunto numa primeira fase: por um lado, com o processo de automação a esvaziar postos de trabalho tendencialmente masculinos, por exigirem maior força física; por outro lado, com a desindustrialização e a deslocalização de postos de trabalho para outros locais. Foi a esse propósito que o termo “deaths of despair” foi cunhado, demostrando como os efeitos desta tendência de substituição atingem desproporcionalmente os homens.

E temos agora uma segunda vaga com o impacto da inteligência artificial: tem-se apontado para as limitações da IA na realização de trabalhos mais afetivos e que impliquem maior relacionamento humano – tarefas que são, tendencialmente, mais desempenhadas por mulheres. Já aquelas profissões que, nos últimos 30 anos, foram indicadas como excelentes opções para os rapazes – ligadas à informática e à programação, por exemplo – têm sido, na verdade, muito fáceis de substituir. E isto pode deixar milhões de jovens no Ocidente esvaziados das suas tarefas.

Os países ocidentais estão já a lidar com o grupo que tem sido designado como “nem-nem” (jovens, maioritariamente rapazes, que não trabalham nem estudam). Mas estarão preparados para “exércitos de homens”, devidamente educados para as emoções, mas sem trabalho ou objetivos?