Há alturas em que me pergunto porque não há-de a escola fechar para balanço e abrir com outra gerência.
Porque, à data de hoje, não está claro se uma escola mais centralizada significa melhor escola, mais sabedoria, mais equidade e maior igualdade. Será que é centralizando a gestão da educação, com a ideia que ela é, assim, mais igual para todos, que a escola se torna mais amiga do conhecimento e da sabedoria? Será que os alunos do litoral e os do interior, os das escolas inclusivas e os das escolas exclusivas, os das escolas que têm de mais de quarenta nacionalidades e os das escolas que selecionam os seus alunos à partida, os das turmas que têm 18 alunos e os daquelas que têm 30 ou mais, ou os das turmas A (que são escolhidos e têm melhores professores) e as turmas que nesta altura ainda não têm professor aprendem o mesmo, de forma tendencialmente igual, na altura mais ou menos adequada e à mesma velocidade? Será que unicidade é sinónimo de igualdade?
E devia fechar para balanço, porque não se entende se a escola, aos dias de hoje, está pensada para as crianças e para o mundo do século XXI ou não estará agarrada a uma estrutura curricular, a métodos de ensino e de avaliação que já não se têm nada a ver com aquilo que a escola deve ensinar e com os formatos de aprendizagem que hoje as crianças devem ter. Será esta uma escola amiga do “sistema” ou virada para os alunos? Não estará este sistema educativo mais a preserva-se a si próprio, aos modelos vigentes e a uma rede de pequenos poderes do que a pensar-se e a pôr-se em questão, considerando o futuro e as necessidades inadiáveis dos alunos a quem se dedica?
E devia fechar para balanço, porque não se percebe porque é que a escola funcionaria pior se cada estabelecimento de ensino constituísse o seu próprio corpo docente e, dentro de balizas sensatas, definisse o tempo das aulas, o tempo dos recreio e os seus próprios métodos de avaliação e de ensino, ao contrário desta ideia de escola funcionando sob uma tutela centralista e não de forma autónoma, proactiva, cooperativa e criativa.
E devia fechar para balanço, porque não se compreende porque é que os professores só ganham se a sua missão educativa tiver de funcionar nesta versão tutelada, espartilhada e burocratizada, como se tivessem que ser quase levados pela mão e controlados de forma austera, em vez de colocarem a sua paixão pela educação ao serviço da forma como amam a escola, adoram ser professores e se dão como referências de respeito, de alteridade e de carinho aos seus alunos, casando tudo isso com a seriedade e a integridade com que vivem, de forma única, a sua profissão.
E devia fechar para balanço, porque não se entende que a escola traga as novas tecnologias para a educação e não reveja a forma como vê as crianças, o seu jeito de pensar e aprender, como se, tal como aprendem, como discorrem e como pensam a escola ainda as veja como se elas estivessem com um pé entre o século XIX e o século XX. No entretanto, há crianças que se vão distribuindo pelas mais diversas ofertas educativas, quase sempre em reacção a um formato de escola que está a ser levado à exaustão, como se não fosse possível casar uma escola que ensine, uma escola onde se brinque, uma escola que aceite crianças em vez de jovens tecnocratas de mochila, uma escola onde se sujem e onde corram, uma escola onde tenham tempo para perguntar e descobrir, onde escutem, onde falem, onde argumentem e onde construam dúvidas e hipóteses com conhecimento e com aprendizagens.
E finalmente, devia fechar para balanço, porque não será com rankings que se uniformiza a escola num todo aberto ao mundo, à diferença e à mudança. Tragicamente, os rankings representam resultados trabalhados, muitas vezes, para esse efeito. Vão ao encontro de estratégias de marketing muito mais do que avaliam com seriedade os desempenhos escolares. E põem os resultados à frente das aprendizagens. Se for assim, os rankings iludem mais do que esclarecem.
A escola muda muito, muito devagar. Sendo assim, é urgente perguntamos, hoje, o queremos da escola nos próximos dez anos. O que queremos da escola, atendendo a que quer a forma como os pais a perspectivam quer a informação com que as crianças lá chegam e tudo o que aprendem de todas as fontes fora dela é cada vez mais significativo, mais diversificado, mais contraditório e mais real. Queremos escolarizar, isso é claro. Dar-lhes um conjunto de conhecimentos básicos com que interpretem aquilo que intuem todos os dias e outros que rasguem avenidas novas nos seus olhares, sem dúvida. Mas poderão ser os objectivos da escola, hoje, semelhantes àquilo que eram há 20 anos, no século passado ou quando a escola foi pensada para mudar o mundo? Como pode hoje a escola mudar o mundo: com mais escola e com mais trabalho ou com mais inafiançável e mais brincar? Com mais inteligência artificial ou com boa educação, mais humanidade e mais empatia?
Escolarizar nem sempre é educar.
Mais escola não significa, por inerência, melhores resultados.
Melhor escola não pode continuar a supor pior infância.