1 2017, restaurante “O Madeirense”. André Ventura entra e é ovacionado. Umas semanas antes ele ainda era um ilustre desconhecido que almoçara no mesmo local sem provocar qualquer reacção. Agora não – agora estávamos na comoção que se seguira às suas declarações sobre a comunidade cigana enquanto candidato do PSD à câmara de Loures. E ali, naquele restaurante lisboeta, o jovem político (tinha então 34 anos), interpretou o apoio de forma linear: “se calhar devíamos formar um novo partido”, desabafou com quem o acompanhava.
Este episódio vale o que vale, mas para mim é um indicador claro: Ventura percebeu que dizer aquilo que não podia ser dito mas muita gente pensava era um passaporte para o sucesso na política – e em eleições. Mais: que acertar naquilo que as pessoas desejam, mesmo que desejem sem noção da viabilidade dos seus desejos, é a melhor das receitas para ter sucesso no mercado dos votos. Mais ainda: este episódio, e a forma como depois Ventura nunca mais deixou o filão da denúncia dos alegados abusos associados à etnia cigana, sinalizam a meu ver a natureza profunda do líder do Chega.
Essa natureza não é a de um ideólogo – é a de um populista, e populista no sentido de dizer aquilo que muitos querem ouvir, mesmo que irrealista.
Essa natureza que não é também a de alguém estruturalmente de direita – como muitas vezes se diz, tem dias: os dias em que chega a ser reaccionário e os dias em que alinha com os partidos mais à esquerda a pedir mais Estado.
2 Há duas coisas que tenho dito muitas vezes sempre que falo de Ventura e do Chega.
A primeira é que se o compararmos com os líderes europeus da chamada direita radical, ele mais facilmente se identifica com demagogos que cavalgam a primeira causa popular (o melhor exemplo será o de Salvini, o líder da Lega italiana) do que com aqueles que possuem um pensamento estruturado e coerente (e aí lembro-me sempre de Giorgia Meloni). Infelizmente a amalgamação que é tão comum nos órgãos de informação não nos ajuda a perceber melhor o personagem e muito menos a entender a sua agenda e o seu modo de actuação.
A segunda é que, ao contrário de uma daquelas verdades que podem ser apenas ilusões, não estou nada certo que Ventura esteja destinado a um dia ser primeiro-ministro ou mesmo que consiga continuar a somar sucessos eleitorais.
A meu ver os últimos dias têm confirmado estas minhas intuições e tornado bem evidente outra das ilusões dos dias que vivemos: a de que, de repente, existe em Portugal uma maioria de direita que só não transforma o país porque Montenegro é um cobarde e um calculista.
Que Montenegro é um calculista não duvido, até dou de barato a tema da sua coragem política, aquilo de que discordo mesmo é da ideia de que temos em Portugal, com tradução parlamentar, o que se convencionou chamar “uma maioria de direita”, maioria tão sólida e tão grande que até poderia, se quisesse, mudar a Constituição.
Não sendo eu daqueles que dividem o mundo, de forma muitas vezes maniqueísta e redutora, entre “esquerdas” e “direitas”, a verdade é que essa chave de leitura ajuda-nos a perceber inclinações políticas – talvez não nos ajude é a perceber o Chega e André Ventura se abandonarmos o reducionismo das classificações que ao primeiro TikTok o engavetam logo na extrema-direita.
3 Senão vejamos o que se passou nas últimas semanas.
De um lado temos um Governo que, com mais ou menos habilidade política e sensibilidade negocial, tenta concretizar uma das poucas reformas na sua agenda, a reforma laboral. Já escrevi sobre o tema, não me vou repetir, mas não acreditando em “balas de prata” que só por si tornem a nossa economia mais competitiva, não duvido que muitas das medidas propostas pela equipa de Maria do Rosário Palma Ramalho vão no bem sentido, são importantes, diria mesmo urgentes.
Do outro lado temos as oposições inevitáveis das extremas-esquerdas, CGTP incluída, a oposição ressabiada do PS (que nesta matéria permanece preso a uma reforma iníqua que fez com os partidos à sua esquerda) e a oposição incompetente, cobarde, mas teimosa, da UGT.
No Parlamento haveria, teoricamente, uma maioria capaz de derrotar estes bloqueios, uma maioria capaz mesmo de chegar aos dois terços do deputados. Mas só teoricamente porque o Chega, e André Ventura, só para alguns temas são “de direita”, para menos temas ainda serão “liberais”.
Aquilo que Ventura nos disse por estas semanas é que só estaria disponível para aprovar a legislação laboral se, em simultâneo, fosse reduzida a idade da reforma. Trata-se de uma posição que nada tem a ver com ideologia – tem apenas a ver com populismo, tem apenas a ver com a natureza profunda de Ventura, alguém cuja bússola é mais depressa o aplauso à entrada em “O Madeirense” do que qualquer projecto para tornar Portugal um país melhor.
4 Olhando para os documentos programáticos do Chega a actual posição de Ventura não faz sentido e muito menos é coerente.
Primeiro, porque o Chega se diz liberal, e cito do seu programa: “O ideal da mão invisível, de Adam Smith (1759/1776), representa a defesa do mercado livre de ideias tão fundamental à autorregulação da sociedade, quanto o mercado livre de bens e serviços é fundamental à autorregulação da economia”. Eu sei que o programa é de 2021, mas ainda é o oficial, que eu saiba.
Depois porque, consultando o seu programa eleitoral de 2025 (ou seja, o mais recente), não encontramos qualquer referência à necessidade de baixar a idade da reforma. Fala-se disso a propósito de algumas categorias profissionais (bombeiros, por exemplo), refere-se isso como bónus para as mulheres que tiverem mais filhos, mas nunca o tema é abordado como uma medida transversal.
O que André Ventura está fazer é simples: está a definir uma fasquia intransponível por qualquer governo responsável. Não vou discutir aqui o tema em detalhe, mas a sustentabilidade do nosso sistema de Segurança Social nunca suportaria uma medida como a agora defendida pela Chega. Do ponto de vista orçamental e social, tal medida seria tão irresponsável como os desvarios socráticos que nos levaram à bancarrota, com a agravante de ser ainda mais difícil de corrigir no futuro.
O que André Ventura parece pretender é também transparente: nunca deixar de ser oposição, mesmo quando pode ser solução.
5 Na última semana a prestação do líder do Chega no debate parlamentar com o primeiro-ministro só confirma esta análise, pois apenas fez coro com todos os que, à esquerda, pediram mais Estado, mais gasto público, mais subsídios, mais irresponsabilidade orçamental, sempre naquela óptica de que se podem oferecer milhões (baixando o IVA da alimentação, por exemplo) cortando tostões (acabando com alguns abusos nos subsídios pagos pelo Estado).
O caminho escolhido por Ventura – mais Estado, mais leis iliberais – não converge em momento nenhum com o caminho necessário a uma agenda reformista. Pelo contrário: converge sim com a desgraçada tradição do autoritarismo corporativista, alinha também com a agenda bloqueadora das esquerdas contemporâneas, essas esquerdas que se entrincheiram em cada tema clamando sempre contra os “retrocessos civilizacionais” quando são elas que estão presas no passado.
O caminho escolhido por Ventura, e que não sei se algum dia deixará de ser o dele, é um caminho que apenas parece seguir aquilo que mais facilmente pode receber um sonoro aplauso à mesa do café ou muitos likes nas redes sociais.
Por outras palavras – Ventura não é de direita nem representa a direita com que sonham alguns articulistas. Ventura é apenas um político extremamente habilidoso, alguém com uma enorme sensibilidade para sentir o ar do tempo, um tribuno talentoso mas que em nenhum momento deu sinais de estar preparado para apoiar medidas que não passem por dar mais dinheiro, já, a toda a gente (menos aos ciganos e aos indostânicos).
6 Quando, em 49 a.C., um general chamado Júlio César decidiu cruzar, com as suas tropas, o Rubicão, no norte de Itália, violando as convenções que regiam a República, sabia que estava a desafiar o Senado e a que a guerra civil seria inevitável. “Alea iacta est” (a sorte foi lançada) terá então dito, e no início parecia que nada o deteria, pois venceu os exércitos que se lhe saíram ao caminho e tornou-se ditador. Parecia imparável – até que foi assassinado, cinco anos depois.
Agora, ao torpedear qualquer acordo “à direita” para reformar a legislação laboral, e ao fazê-lo desenterrando reivindicações da ultra-esquerda (a idade da reforma), André Ventura cruzou o seu próprio Rubicão. No curto prazo pode estar a enfraquecer a governação de Luís Montenegro, no médio prazo está a condenar qualquer hipótese de “a direita” funcionar em Portugal como agente de reformas e de progresso.
É por isso que o seu populismo é também um populismo de curto prazo e vistas curtas.