Acabada de comer as panquecas que o meu querido filho fez, recebo uma notícia que me amarga este dia da Mãe. É com lágrimas recém-enxutas que escrevo sobre um homem com quem troquei uma dúzia de mensagens e falei ao telefone uma mão cheia de vezes. Com quem me encontrei apenas num par de ocasiões e, ainda assim, tem um lugar único na construção daquilo que é o meu imaginário e que consegui trazer para o meu percurso enquanto autora, coisa que ostento como uma medalha.
Cândido Mota morreu, mas a voz dele nunca vai deixar de ecoar nas memórias da minha geração. Este não vai ser um obituário que relata o CV de uma das vozes mais marcantes da rádio, TV, disco e da cassete pirata, como diria Serafim Saudade, mas uma manta de retalhos que costura a minha vida a este figurão que foi Cândido Mota, o locutor d’“O Passageiro da Noite”, o programa de rádio que dava tempo de antena às pessoas antes de cada um ter o seu próprio megafone em forma de arroba.
Sei que podem achar que estou a canibalizar esta oportunidade para trazer a atenção para mim. Acho que consigo viver com isso, já me disseram coisas piores. O que quero mesmo é demonstrar a potência da presença televisiva desse homem da rádio e a maneira como impactou a vida de uma miúda que se colava ao ecrã para o ver e ouvir. “Sai de cima da televisão, Susana Maria, que dás cabo da vista!” Não porque sou especial, mas porque o Cândido era especial. E acredito que não fui a única, mas ele era.
Cândido entra-me pelos olhos e pelos ouvidos adentro graças ao Herman. Durante cerca de 5 anos, começando pela Roda da Sorte e terminando no Com a verdade m’enganas, o “animal Cândido” (ler isto com o trinado de um cavalo a relinchar) foi presença diária. É verdade que isto terá um pouco de construção de falsa memória, porque os concursos não foram ininterruptos. Mas o que é certo é que ainda hoje tenho gatilhos dessas memórias.
São momentos com mais de 30 anos, que me levam para a pequena sentada no chão, a comer carcaças com manteiga e açúcar amarelo, a rir-se a bandeiras despregadas, enquanto Cândido fazia coisas como declamar Jasmim Rodrigues da Silva no poema Na tua boca onde nascem andorinhas, trocando vocábulos, para os concorrentes descobrirem os erros, o que levava a que fossem ditas às sete e meia da tarde no canal 1, frases como “De silêncio entre uma lágrima, um beijo, a polpa de um rabo” (a palavra correcta é “fruto”, para os mais interessados).
Sei que isto vos pode parecer banal, gratuito e até desengraçado. Mas estávamos em 94, e isto, para mim, era do mais desbragado que já tinha visto. E bem sei que muito se deve a Herman José, mas o Cândido não era só um veículo e uma voz envolvente e Herman sabia muito bem disso. A gravitas do locutor de rádio clássico dava ao rei e senhor da comédia em Portugal nos anos 90 um contraponto que tornava tudo muito mais engraçado e sublinhava a caneta fluorescente o insólito e descabido que era o que aquelas duas personagens tão distintas e tão complementares traziam a uma televisão que demorou muito tempo a apanhar o comboio da modernidade, graças a décadas de ditadura e lápis azul.
Os concursos de Herman José viviam muito da criação de um universo e de uma linguagem própria que nos fazia sentir parte de uma comunidade, conhecedores de um dialeto de um clube. Por isso, só entendedores entenderão, porque é que sempre que ouço o nome Ivone canto Goodbye my love ou quando oiço o nome Carla trauteio “Eu sofro por você. Carla. Não posso mais chorar. Carla. Sou solteiro e bom rapaz. Carla. O amor jamais esqueci”. E neste universo, Cândido Mota tinha um papel único. Ele não tinha graça por causa do Herman. O Herman tinha mais graça graças ao Cândido.
Saltamos de século. Depois de uma década de um trabalho que me ia matando de tédio e tristeza, resolvi tentar viver e ser feliz (ui, o piroso que isto soou) e dei o meu melhor para entrar no mundo da escrita de humor. A minha primeira grande oportunidade foi com uma longa metragem cómica. Tendo a perfeita noção que podia ser a minha primeira e última hipótese, não tive dúvidas. Era “agora ou nunca”. O filme tinha que ter um narrador presente e tinha de ser o Cândido. E foi. E quando ouvi aquela voz sem um ecrã no meio, foi tudo aquilo que eu sonhei para melhor. Engraçado, disponível, educado, humilde. Um senhor. Vê-lo esboçar um sorriso a ler o meu guião foi melhor que um Óscar.
Uns anos depois, tive outra oportunidade, que foi um ponto de viragem: adaptar o livro Viagem a Portugal de José Saramago, onde Fábio Porchat refazia os passos do nosso Nobel. Era preciso dar voz a José para relembrar constantemente que era graças a ele que estávamos a percorrer o país. Acho que já perceberam. Tinha se ser ele e mais uma vez deu um banho de bola naquela cabine de som. Do alto dos seus 70 e tal anos, acabou em menos de metade do tempo que tínhamos disponível. Dei-lhe um abraço e disse-lhe como não tinha como lhe agradecer e ele sorriu e agradeceu de volta.
A última vez que o vi foi em cima do palco 25 de Abril da festa do Avante, onde foi mestre de cerimónias tantas e tantas vezes, a clamar os artistas que tanto admirava e a liberdade que não tomava por garantida.
Graças à RTP Memória, pus os meus filhos a ver o Com a verdade m’enganas e vê-los a rir como eu me ria é um atestado de brilhantismo e de resistência ao tempo que me aquece o coração. É agora importante que a memória se perpetue por aquilo que Cândido Mota foi. Um dos grandes da rádio e da televisão portuguesa. Voltando a citar Serafim Saudade, o verdadeiro artista é aquele que se cansa. Cândido foi descansar.
https://www.youtube.com/watch?v=Frq8-TqD_XU
Este texto não é sobre mim, volto a dizer. É sobre a influência do Cândido. Sobre o poder de inspirar sendo aquilo que era, de não temer o ridículo, de deslumbrar sem ser deslumbrado. Desde sempre disse que se a minha vida fosse um filme, o narrador seria o Cândido Mota. E de alguma maneira, foi.
[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]
