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A rede clandestina que fura o bloqueio de internet do regime e leva a Starlink ao Irão

"O regime provou que, durante o bloqueio, pode matar." Entre rotas secretas e o risco de prisão, voluntários montam uma "operação complexa" para provar que, no Irão, a internet pode ser sobrevivência.

Mariana Furtado
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Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a guerra no Médio Oriente

No Irão, estar online é um ato de resistência. Sob o manto de um bloqueio digital que já dura há mais de dois meses, o país mergulhou numa escuridão cibernética imposta pelas autoridades. No entanto, nas sombras, figuras como Sahand (nome fictício) arriscam a liberdade para manter viva uma ténue ligação ao mundo exterior, conta a BBC.

Numa operação de contrabando que descreve à emissora britânica com nervosismo, detalha a BBC, Sahand lidera uma rede clandestina dedicada a introduzir terminais Starlink em solo iraniano. Estes dispositivos da SpaceX, empresa de Elon Musk, permitem aos utilizadores ligarem-se à internet a partir de qualquer lugar — e tornaram-se essenciais para os dissidentes. Ao serem capazes de contornar a infraestrutura estatal e a censura de Teerão, estas unidades são compradas no estrangeiro e atravessam as fronteiras através de rotas complexas e secretas, financiadas pela diáspora e por doadores privados.

Desde janeiro, Sahand enviou pessoalmente uma dúzia de unidades e garante estar “ativamente a procurar outras formas de contrabandear mais”. Mas a escala do fenómeno é muito superior: a organização de direitos humanos Witness, citada pela emissora, estima que existam pelo menos 50 mil terminais no país, e um voluntário ligado a um canal de vendas externo afirma ter comercializado cerca de 5 mil unidades nos últimos dois anos e meio. Questionada pela BBC, a SpaceX optou pelo silêncio.

O risco para os iranianos no país é medido em anos de cárcere. Segundo a legislação aprovada pelo regime no ano passado, a simples posse de um destes aparelhos pode resultar em dois anos de prisão; para os distribuidores ou importadores de mais de dez dispositivos, a pena escala para uma década. A resposta do regime já teve visados: Yasmin (nome ficício), uma luso-americana-iraniana, relata que um familiar foi detido e acusado de espionagem apenas por possuir um terminal.

Apesar da ameaça, o fluxo não estanca. Num país onde a rede doméstica controlada serve apenas para serviços básicos e propaganda, a missão de Sahand é de “mudança”: “Acreditamos que estes terminais devem estar nas mãos daqueles que realmente precisam deles para promover mudanças”, afirma à BBC.

A rede de Sahand tenta agora mitigar os riscos aconselhando o uso de VPNs sobre a ligação satélite para garantir o anonimato. Contudo, o custo elevado torna esta segurança inacessível para muitos numa economia em crise. Para Sahand, o esforço justifica-se pela necessidade de mostrar ao mundo o que acontece no terreno: “O regime iraniano provou que, durante um bloqueio, eles podem matar”, acrescentando que “se ao menos mais uma pessoa conseguir aceder à internet, vale a pena”.