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(A) :: Katie Kitamura e a dúvida

Katie Kitamura e a dúvida

"Audição", de Katie Kitamura, surpreende pela originalidade, pela estranheza. Uma prosa clínica, altamente analítica, como se estivéssemos perante pensamentos expostos numa peça de teatro.

Ana Bárbara Pedrosa
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No romance, a própria vida aparece como um papel representado, sendo este o que molda as relações estabelecidas. Enquanto a narrativa se vai desfiando, temos acesso à gestão dos silêncios: a narradora, actriz de meia-idade, vai dando ao leitor o que se passa na sua cabeça, quase sempre sobre as dúvidas que tem em relação à cabeça alheia.

Actriz de teatro, e em ensaios para uma estreia iminente, coloca logo o leitor em cena – ei-la a almoçar num restaurante de Manhattan com Xavier, suficientemente jovem para passar por filho dela. Ora, sendo o estilo da autora desafiante neste aspecto, o leitor indaga logo: tendo sido atirado para o centro da acção, sem que lhe tenham sido dadas explicações, sem que haja a papinha feita, ou sequer contextualização ou exposição, vai tentando adivinhar quem é quem, quem faz o quê, como é que se chegou ali, o que implica ficar de pernas bambas, incapaz de interpretar o encontro à cabeça – que, de início, parece ilícito, adúltero, escondido.

As páginas avançam e a relação vai sendo explicada, com as suposições do leitor a serem desafiadas, ora confirmadas, ora desfeita, mas o texto de Kitamura, muita vezes vago, obriga o leitor apanhar-se em falso com frequência. E nisto, verdade seja dita, o enredo acaba por passar quase ao lado, já que o romance acontece quase sobretudo através de diálogo interior – mais do que monólogo. A protagonista vai cogitando a vida e cogitando o pensamento alheio (por exemplo, sobre o que o próprio marido julga do encontro com aquele rapaz), e fá-lo com uma distância aparente de tal forma robusta que parece ver-se também ao longe.

Um dos principais interesses do romance residirá na forma como a autora trabalha o que cada personagem é consoante a circunstância, e ainda na inovação formal que cria, e que faz com que chegue a parecer meta-ficção, jogando com o próprio conceito de ficção – e sobretudo de hipótese – lá dentro. Na primeira parte, temos a protagonista num cenário em que não é mãe: Xavier aborda-a, querendo saber se ela poderá ser a sua mãe biológica. Ela recusa o cenário, mas o rapaz fica-lhe na órbita, e ela indaga o que seria a sua vida, caso tivesse seguido outro rumo.

Ora, na segunda parte, temos uma viragem estrutural: a narrativa reinicia e temos ficção dentro da ficção. Os romances são hipóteses de vida, e aqui temos uma cogitação de outra, uma hipótese dentro de outra, estando a protagonista num cenário em que Xavier é seu filho, criado por si desde o início. Com isso, temos as tais representações, as tais hipóteses de vida e os tais papéis representados – cada pessoa é diferente, e vista de forma diferente, consoante a circunstância. Ao leitor, é permitido ver duas vidas distintas, e muito, consoante as formulações familiares. Não é que haja grande trabalho no enredo, pelo contrário, mas o romance traz a cena riqueza emocional, e sobretudo funciona pela ideia de se poder ter várias lentes sobre a mesma matéria, sendo essa matéria a vida.

O tom é meio hipnótico, e a divisão de papéis – mãe ou não, filho ou amante, pai ou marido – permite evidenciar ao leitor de que forma um papel representado molda uma lente, mais do que o contrário. É inegável que o livro é inteligente, e com frequência nota-se o esforço para que o seja. Ao longo da leitura, há ainda a sensação de que o que se tem nas mãos é mais um exercício de estilo do que um romance calibrado, embora tenha o mérito de conseguir navegar na dúvida e na nuance. Todo o romance é essa zona cinzenta. Ora, o cinzentismo acaba por trazer algumas desvantagens, em parte no que toca à capacidade de criar ligação entre leitor e personagens, uma vez que o primeiro fica refém do jogo intelectual, da cogitação das invenções alheias.

Ora, com tudo isto pesado, e sendo o enredo em si curto e mais pretexto do que história a ser contada, a verdade é que a resolução parece parca, e que não sai bem articulada com o resto da narrativa. Kitamura, que foi mantendo mão firme até lá chegar, pareceu não saber o que fazer com uma história que parece existir de forma estática, ao invés de se desenvolver. Assim como assim, o romance prima pela originalidade, e por uma prosa limpa, bem cuidada, assim por uma originalidade estrutural, que mostra inegável ambição formal.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.