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Morreu aos 82 anos o antigo locutor de rádio Cândido Mota

O antigo radialista encontrava-se internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Enfrentava vários problemas de saúde e sofreu, nas últimas duas semanas, uma infeção hospitalar.

João Francisco Gomes
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Agência Lusa
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Morreu aos 82 anos o antigo locutor de rádio Cândido Mota, confirmou a filha, Teresa Mota, à agência Lusa. O antigo radialista encontrava-se internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. De acordo com a informação obtida pelo Observador, Cândido Mota enfrentava vários problemas de saúde e sofreu, nas últimas duas semanas, uma infeção hospitalar.

O antigo locutor morreu “sem sofrimento, rodeado da família e amigos próximos”, afirmou a filha à Lusa.

Nascido em 1943, Cândido Mota começou a sua carreira radiofónica com apenas 17 anos, no Rádio Clube Português, e ganharia notoriedade com programas como “Em Órbita” e “O Passageiro da Noite”. Após um longo percurso na rádio, na década de 1990 Cândido Mota passou para a televisão, onde trabalhou de perto com o humorista Herman José em vários formatos televisivos.

O Governo já reagiu à morte de Cândido Mota, através de uma mensagem divulgada pela ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes. “Morreu Cândido Mota, o artista multifacetado que a televisão aproximou de todos os portugueses”, escreveu a ministra.

“Com uma voz inconfundível, além de radialista, foi ator de teatro e cinema. Marcou várias décadas da nossa história coletiva. Sentidas condolências à família e amigos”, acrescentou ainda a governante.

https://twitter.com/margaridalopes/status/2050885447509745842

Pioneiro da rádio de antena aberta

O locutor deixa para a história a memória de uma das grandes vozes da rádio e de um programa de antena aberta para os ouvintes, pioneiro do género em Portugal. Locutor, apresentador de televisão e ator, Cândido Mota construiu um percurso singular, profundamente ligado à evolução da rádio moderna em Portugal.

Nascido a 28 de setembro de 1943, em Espinho, Cândido Soares Pinto da Mota tornou-se uma das vozes mais marcantes da história da rádio portuguesa, reconhecido pelo timbre grave e por uma presença tão discreta quanto determinante na história da comunicação em Portugal.

Exemplo disso foi o programa noturno “Passageiro da Noite”, um dos pioneiros na interação direta, em que Cândido Mota cedia o seu espaço para os ouvintes falarem sobre o que lhes apetecesse.

Filho da fadista Maria Albertina, cresceu num ambiente ligado à música e à palavra, tendo assumido, numa entrevista ao programa de Manuel Luís Goucha, em 2022, que fora a sua mãe quem o lançara na vida profissional.

Com uma infância marcada pela morte precoce do pai, Cândido Mota recordou esse episódio e as suas últimas palavras como algo estruturante para a sua vida e sensibilidade artística.

Iniciou-se profissionalmente na rádio aos 17 anos, no Rádio Clube Português, afirmando-se rapidamente como um locutor de talento distintivo, reconhecimento que se consolidou na Rádio Comercial, com programas como “Em Órbita”, “Dançatlântico” e, sobretudo, “O Passageiro da Noite”, que viria a ser considerado um marco da rádio portuguesa.

Emitido a partir de 1979, “O Passageiro da Noite” abriu a antena aos ouvintes a partir da meia-noite, tornando-se uma das primeiras experiências interativas da rádio em Portugal.

Décadas mais tarde, ao revisitar o fim do programa, depois de dois anos no ar, Cândido Mota assumiria que “foi a única vez” em que não esteve bem, numa alusão ao desgaste emocional que levou ao fim da emissão, assumindo a sua responsabilidade.

A partir da década de 1990, Cândido Mota tornou-se também rosto e voz familiar da televisão portuguesa, ao iniciar uma colaboração duradoura com Herman José.

Foi a emblemática voz-off de concursos como “A Roda da Sorte” e “Com a Verdade Me Enganas”, na RTP, acompanhando posteriormente o humorista em vários formatos na SIC, e com participações ocasionais em sketches televisivos.

Enquanto figura histórica da rádio, foi convidado a partilhar o seu testemunho no programa da RTP “No Ar, História da Rádio em Portugal”, transmitido em 2010, no qual falou do seu percurso e da conceção da rádio como espaço de intimidade, escuta e participação cívica.

Assumindo-se como uma pessoa empenhada civicamente, Cândido Mota foi militante do Partido Comunista Português e presença regular como locutor e apresentador no Palco 25 de Abril da Festa do Avante!, mantendo ao longo da sua vida pública uma postura política.

Nos últimos anos, foi-se afastando progressivamente da vida mediática, residindo, pelo menos, desde janeiro de 2026 na Casa do Artista, em Lisboa.

Posteriormente foi internado no Hospital de Santa Maria.

Herman José lembra “legado luminoso” de Cândido Mota

O humorista Herman José, com quem Cândido Mota trabalhou durante anos, recordou em declarações à Rádio Observador o “legado luminoso” deixado pelo radialista, que na vida fez “tudo aquilo a que tinha direito”.

Herman partilhou também algumas memórias que guarda do amigo, particularmente as “conversas que ele tinha até às quatro da manhã” com o pai de Herman no terraço da sua casa do Algarve sobre política e religião. “O meu pai era um homem convicto de direita, ele era um homem convicto de esquerda”, disse Herman, destacando que os dois “tinham uma dialéctica formidável, daquelas que já não se usam”.

Destacando que Cândido Mota teve como único inimigo na vida o facto de ter “um superávite de bondade”, Herman sublinhou que o radialista “não se sabia defender das coisas desagradáveis, só via coisas positivas em tudo” — e, acrescentou, “fizeram-lhe muito mal durante a vida”.

Herman José recordou ainda um homem “muito culto e muito profissional”, que praticamente não precisava de preparação para narrar um texto. Cândido Mota era também um homem com grande capacidade de reter informação, sublinhou o comediante, lembrando-o como “uma espécie de Google a quem as pessoas telefonavam a fazer perguntas”.

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]