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Uma festa sem horas que teve nome, número e toda a memória: o FC Porto só podia mesmo ser campeão a dia 2

Jorge Costa esteve presente antes, durante e depois do jogo que consagrou FC Porto como campeão. Capitão foi lembrado por todos, de jogadores a adeptos, com o dia 2 a tornar tudo ainda mais especial.

Mariana Fernandes
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A ideia de que estaria presente no dia mais importante da temporada era óbvia ainda de manhã, à hora de almoço ou durante a tarde. Pelas ruas do Porto, nas horas que antecederam a conquista do Campeonato, muitos adeptos já usavam camisolas, cachecóis, casacos e bandeiras alusivas ao FC Porto, numa espécie de celebração antecipada que prolongou durante todo o dia. E muitas dessas camisolas, cachecóis, casacos e bandeiras tinham um único número: 2. 

Jorge Costa, eterno capitão do FC Porto que morreu em agosto do ano passado enquanto desempenhava as funções de Diretor do Futebol do clube, foi a figura central do sábado que coroou os dragões como campeões nacionais. Centenas de adeptos escolheram camisolas antigas com o 2 do central nas costas para levar ao jogo que carimbaria o troféu e muitas bandeiras apareceram ainda nas imediações do Estádio do Dragão — mas praticamente ninguém estava preparado para o que aconteceu já depois do apito final.

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Numa altura em que nas bancadas já tinha surgido uma tarja onde se lia “voltámos a ter uma equipa, mister”, frase que Jorge Costa disse a Francesco Farioli depois da apresentação aos sócios contra o Atl. Madrid, as luzes apagaram-se no Estádio do Dragão e o momento tornou-se solene. Já com André Villas-Boas em campo, o speaker atirou: “Bicho, esta festa também é tua”. Nas bancadas, apareceram apenas as lanternas dos telemóveis. Nos lugares, parecia que todos aqueles que tinham levado as camisolas com o 2 para dentro do estádio emergiam no meio da escuridão. Até porque quis o destino que este sábado fosse precisamente o segundo dia do mês.

Depois de ser transmitido um vídeo com os melhores momentos de Jorge Costa como jogador e dirigente do FC Porto, uma bandeira iluminada com o único foco de luz desceu até ao relvado e foi entregue a André Villas-Boas, com Diogo Costa, Lucho González e André Castro a surgirem como os elementos mais emocionados durante a homenagem. Pouco depois, já após um Dragão inteiro gritar e cantar por Jorge Costa, Francesco Farioli foi dos primeiros a dedicar o Campeonato ao antigo internacional português.

“A nossa força durante a época foi o Jorge. Uma das coisas que ele disse no início da época é que tínhamos uma equipa outra vez. Demos tudo o que tínhamos para vencer e em pequenas coisas deu para ver a sua presença, os dois cortes em cima da linha são o ADN do Jorge Costa. Fisicamente não está connosco, mas está connosco em pensamento. O Jorge ajudou-nos com algumas defesas”, disse o treinador italiano na zona de entrevistas rápidas, numa ideia que vincou já na sala de imprensa.

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Praticamente todos os jogadores do FC Porto lembraram Jorge Costa nas declarações que fizeram ao Porto Canal, ainda entre o relvado do Dragão e a zona mista, com Diogo Costa a mostrar-se novamente o mais emocionado — sendo que o guarda-redes português, durante os festejos, usou uma camisola dos dragões com o nome de Diogo Jota e o 19, o número que o avançado usava nas costas quando representou o clube. “Ao nosso Jorge, ao nosso presidente, ao Diogo Jota e ao seu irmão André. É tanta coisa, uma mistura de tristeza e felicidade. Quase que sabíamos que algo bom ia acontecer porque merecíamos. Somos diferentes, somos um povo diferente. Somos uns ranhosos, mas somos unidos e simpáticos. Recebemos bem toda a gente”, atirou, já depois de ter ido buscar uma bandeira gigante com o nome de Jorge Costa.

De forma claramente pensada e propositada, muitas das músicas que ecoaram no Estádio do Dragão enquanto jogadores, equipa técnica e staff se reuniram com as respetivas famílias foram italianas, numa óbvia associação à nacionalidade do treinador. Depois da festa do relvado, sempre com a presença dos lesionados Samu, Luuk de Jong e Nehuén Pérez, milhares de adeptos reuniram-se perto do Coreto do Dragão, nas imediações do estádio, para receber a equipa — que só irá à Câmara Municipal do Porto, na Avenida dos Aliados, no dia 16 de maio. Com a chuva intensa que chegou a cair durante o jogo a dar tréguas madrugada dentro, a gigantesca mancha de adeptos foi do Alameda Shopping até preencher toda a Alameda das Antas, com a espera a prolongar-se até bem depois da 1h da manhã e mais de três horas depois do final do jogo.

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A festa no Coreto começou ao som de “Pronúncia do Norte”, dos GNR, e os ecrãs permitiam perceber que entretanto tinha surgido um gigantesco “31” projeto no relvado do Dragão, em associação ao 31.º Campeonato conquistado. Thiago Silva foi o primeiro a surgir, Bednarek, Victor Froholdt e Rodrigo Mora foram naturalmente os mais saudados e William Gomes, Zaidu e Pepê, como sempre, os mais disruptivos. Diogo Costa, o último a ser chamado por usar o número 99, só apareceu depois de um longo compasso de espera provocado por um problema técnico e recebeu uma verdadeira ovação — que pode muito bem ter sido das derradeiras como jogador do FC Porto, já que tem sido associado a uma saída para o Liverpool no próximo verão.

Naturalmente, na cauda do pelotão, apareceu Francesco Farioli — já depois da restante equipa técnica, com Lucho González a ser também muito saudado pelos adeptos. O treinador italiano foi engolido pelos jogadores e ainda teve direito a deixar umas palavras, voltando a citar a tal frase de Jorge Costa antes de passar o microfone a Diogo Costa, que fechou a festa antes de ouvir novamente o hino do Futebol Clube do Porto pela voz de Maria Amélia Canossa.

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