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1º de Maio entre Marx e São José

As centrais sindicais estão a falar de quem, com quem e para quem? Com os trabalhadores reais de 2026, ou com um operário de 1986?

Francisco Camacho
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O 1.º de Maio nasceu de reivindicações concretas por melhores condições de trabalho e da afirmação de direitos que marcaram a evolução das sociedades modernas. Essa origem não deve ser ignorada, nem deve ser menorizado o contributo de gerações de trabalhadores para a construção de sociedades mais justas. Mas dela nasceu também uma leitura que torna difícil a muitos sectores da direita celebrar esta data como merece: a ideia de que o trabalho só pode ser compreendido a partir do conflito eterno entre trabalhadores e empregadores, operariado e patronato, classes contra classes.

O trabalho é muito mais do que isso. A Igreja Católica sabe-o. Por isso, em 1955, Pio XII instituiu neste mesmo dia a festa de São José Operário, introduzindo uma dimensão mais humana, logo mais ampla, da realidade laboral. São José não representa uma teoria económica nem um conjunto de palavras de ordem. Representa a pessoa concreta, numa família concreta, numa responsabilidade concreta. Olhar para o que São José simboliza talvez nos ajudasse a compreender com outro alcance os problemas e desafios de hoje. Chamar-lhe-ão ingenuidade. Mas talvez a verdadeira ingenuidade esteja em desprezar uma sabedoria milenar em detrimento de teorias “científicas” com duzentos anos de provas da sua insuficiência.

Num tempo em que o debate tende a oscilar entre uma visão que subjuga as relações laborais à lógica do conflito e outra que se arrisca a reduzi-las a uma variável económica, constrangida pela ditadura da eficiência ou da adaptação tecnológica, é necessária uma visão diferente, mais vasta.

Uma política séria do trabalho tem de reconhecer, ao mesmo tempo, a dignidade de quem trabalha, a liberdade de iniciativa, a responsabilidade social das empresas, o valor da concertação social e a necessidade de uma economia capaz de criar oportunidades reais. Não há trabalho digno sem empresas viáveis e que façam multiplicar a riqueza. Mas também não há uma sociedade decente se o crescimento económico não se converter em estabilidade, justiça e melhores condições de vida para as famílias.

A organização do trabalho está a ser profundamente alterada pela digitalização, a automação e o advento dos grandes modelos de linguagem. Criam-se oportunidades, sim, mas também inseguranças legítimas. Perante isto, a resposta não pode ser nem o medo paralisante, nem a ilusão de que tudo se resolverá por adaptação espontânea do mercado. O país precisa de flexibilidade, qualificação, mobilidade, protecção social inteligente, de diálogo entre parceiros e da capacidade de reformar sem destruir equilíbrios fundamentais.

A propósito do malfadado Pacote Laboral, é pena que a UGT tenha preferido encostar-se à CGTP, transformando matérias como o outsourcing, o banco de horas, a jornada contínua ou a reintegração após despedimento ilícito em linhas vermelhas intransponíveis. As centrais sindicais estão a falar de quem, com quem e para quem? Com os trabalhadores reais de 2026 ou com um operário de 1986?

É também penoso confirmar que o Chega não perde uma oportunidade para sacar uma simplificação grosseira da cartola. A redução da idade da reforma, caso avançasse, daria origem a efeitos muito mais profundos para o futuro do país do que muitas alterações à legislação laboral propriamente dita. Se reformar o mercado de trabalho significasse apenas agravar a insustentabilidade da Segurança Social e transferir a factura para as gerações seguintes, então mais valia ficar na mesma.

Portugal precisa de outro caminho. Muitíssimo mais exigente. Precisa de valorizar o trabalho, de proteger quem está em situação vulnerável. Mas garantir também que quem emprega e arrisca é apoiado. Que a produtividade é reforçada. E que a solidariedade entre gerações não é substituída por promessas fáceis pagas por quem tiver o azar de vir a seguir.

Esse caminho exige a nobreza do compromisso. É aqui que a porca torce o rabo ao Partido Socialista: José Luís Carneiro tem de assumir sem ambiguidades como quer ficar para a história. Como uma versão pálida de Pedro Nuno Santos, presa ao protesto inconsequente que deixou o Partido Socialista como terceira força política nacional, ou como alguém capaz de recuperar o sentido de bem maior de figuras da história recente do partido, como o actual Presidente da República, António José Seguro.

Um país com os problemas de produtividade, demografia e sustentabilidade que Portugal tem não pode fazer das questões laborais ocasião para tacticismos políticos. Os portugueses não têm disponibilidade para isso e têm-no demonstrado nas urnas. Num tempo de ansiedade tecnológica, tensão demográfica, dificuldades económicas reais, irresponsabilidade e indecisão, talvez São José pudesse mesmo dar uma ajuda. Não para substituir a política pela devoção, mas para lembrar que o trabalho começa sempre numa pessoa, numa família e num sentido de responsabilidade.