A propósito do último atentado contra Trump, as televisões e os jornais têm-se enchido de “debates” sobre o recrudescimento da violência na política democrática em Portugal e no Ocidente. Deixando de fora a liturgia oficial que algum dos interlocutores desses “debates” repete acefalamente, o outro momento invariável ocorre quando alguém insiste até ao raiar da demência que não há violência da extrema-esquerda.
É verdade que o optimista podia notar que aqui já há uma evolução no nível de sobriedade do “debate” público nacional: até há pouco tempo não se podia dizer sequer que a extrema-esquerda existia nem em Portugal, nem na Europa, nem tampouco – Deus nos livre – nos EUA. Em todo o caso, convém recordar que a negação dos factos elementares, da realidade mais crua, que formam o presente contemporâneo da política portuguesa e Ocidental nos últimos 100 anos, é sintoma de sectarismo fanático e, como se descobre pela argumentação, de vontade de violência também. Afinal, os que teimam pelo contrário em descrever os factos com palavras, dizendo sem rodeios o que é, só podem ser facínoras políticos, mentirosos patológicos, defensores do fascismo ou das classes dominantes, que merecem algo de ruim.
A consciência liberal que nos últimos 400 anos gradualmente conseguiu fazer triunfar um regime de liberdades individuais, e de transição pacífica do poder entre partidos divergentes, formou-se em grande medida contra a perpetuação da violência na política. O estado de coisas que o liberalismo queria mudar radicalmente pressupunha um uso perpétuo da violência por duas vias. Primeiro, a hegemonia de uma opinião (de uma religião, da virtude de quem exercia do poder e, mais tarde, de uma ideologia política) fazia-se sempre através da repressão política da divergência e da dissidência. Segundo, a diferença de opiniões (na religião, nas concepções de justiça, na moral e nas concepções de felicidade) entre indivíduos degenerava em violência e anarquia. Em grande medida, o poder pré-liberal justificava a violência da primeira via como único remédio para evitar a desordem e, com ela, a violência da segunda.
Os liberais defenderam que a violência do primeiro tipo era um abuso de poder que afogava a humanidade na ignorância, na miséria e no sofrimento generalizado para gáudio de meia-dúzia de oportunistas e de fanáticos. E, para evitar que o segundo tipo de violência justificasse eternamente o uso do primeiro, defenderam os direitos da consciência, da livre expressão, de associação, de crítica da religião e da moral, desde que praticados em determinadas condições: a aceitação da existência política do outro e a preservação dos seus direitos iguais, a par da renúncia definitiva a querer usar meios violentos de expressão pessoal ou política, deixando à pura troca de argumentos verbais, racionais e razoáveis, o monopólio do exercício da acção política.
Daqui nasceram dois princípios liberais inabaláveis de edificação da sociedade política pacífica e ordeira. Princípios partilhados por todos os participantes que renunciavam à prática da violência política, excepto na execução policial do direito e da legítima autoridade do governo. Primeiro, a maioria provisória que vencesse eleições livres e não violentas adquiria o direito de se ver reconhecida pela minoria provisória como governo temporário do Estado. Sujeitava-se à sua futura destituição em igualdade de circunstâncias, e aceitava não usar o poder adquirido para esmagar os adversários políticos – condicionando-os pela intimidação violenta ou, pior, exterminando-os. Segundo, a ordem do direito democrático era para valer. A sujeição à lei e à acção governativa legítima valia para todos sem excepções, e não se aceitavam quaisquer motivos para subvertê-la, salvo em casos de abusos do poder muito graves e evidentes à saciedade. Nesta ordem política, jurídica e moral estavam à cabeça os direitos iguais de todos à sua imunidade como agentes morais e como interlocutores políticos presumíveis contestários aos conteúdos da lei e à acção do governo temporário.
A filosofia da ordem liberal parecia simples. Parecia que seria instantaneamente aceite por todos os seres humanos de boa-vontade. Mas, desde o primeiro momento do assalto liberal ao Antigo Regime, a realidade histórica encarregar-se-ia de mostrar que os adeptos de outros tipos de sociedade assentes na violência abundariam – e que odiariam o liberalismo e as suas promessas para sempre. Claro que na extrema-direita e na extrema-esquerda a aceitação e a glorificação do uso da violência visavam sempre num distante futuro histórico a edificação de uma sociedade sem violência – sem qualquer vestígio de violência, nem sequer aquela violência difusa e camuflada que os inimigos do liberalismo vislumbrariam no regime de liberdades.
Desde o início da revolução liberal, disse eu, que as alternativas violentas ao liberalismo se foram formando. A Revolução francesa faria nascer a extrema-esquerda dos tempos modernos e com ela a explosão de um novo rosto de violência política, massiva, sistemática, metódica, avassaladora – um instrumento revolucionário indispensável ao serviço de uma ideologia universalista (inclusiva, como hoje se diz no nosso ridículo vocabulário político), que por essa mesma razão não podia tolerar qualquer dissidência a esse universalismo. Foi aí que se fundou a teoria política do Terror, constitutiva da extrema-esquerda, e que a extrema-direita, após a Iª Guerra Mundial se apressaria a copiar. De Robespierre a Trotsky, o que não faltaram foram teorizadores e profetas do Terror como primeiro instrumento de política. Em breve, nasceria o outro inimigo mortal do projecto liberal não violento na extrema-direita.
Com o seu próprio projecto revolucionário, com o seu próprio ódio à ordem liberal, com a sua própria guerra declarada à figura caricatural do burguês como o tipo de alma produzido pelo liberalismo, a extrema-direita competiria taco a taco com a extrema-esquerda no uso e glorificação da violência. Para catástrofe do mundo, tornar-se-iam peritas no seu uso e inseparáveis dele.
Os herdeiros actuais na extrema-direita e na extrema-esquerda que nos ameaçam não são diferentes. Apenas se encontram provisoriamente numa condição de impotência e impopularidade. É fácil perceber as suas intenções íntimas. E é sobretudo fácil percorrer o plano gizado pelos seus deuses intelectuais que o deixaram bem patente nas obras que escreveram e que os herdeiros admiram. Estes aguardam as circunstâncias históricas propícias, como os seus antepassados fizeram.
Mas a complacência tardo-moderna europeia não nos deixa tranquilos. Tendemos a julgar que com palavras gastas, propaganda oca e muitos gestos ritualizados de indignação temos o trabalho feito. Não temos. A tarefa das forças políticas herdeiras da ordem liberal moderada e não violenta continua a ser a confrontação política sem tibiezas da ameaça da extrema-direita e da extrema-esquerda. Para nada dizer daqueles que querem arrastar a Europa para novos e velhos conflitos religiosos, étnicos e raciais. Quando aparecem os negacionistas do costume, tapando os nossos olhos para o que não querem que vejamos e saibamos, é bom que não rendamos a verdade às platitudes mediáticas do dia. Essa é uma forma de traição imperdoável aos valores da liberdade e da política sem violência.