No seu discurso perante o Congresso norte-americano, Carlos III fez menção aos valores democráticos que os norte-americanos herdaram dos britânicos e que foram aplicados por “rebeldes audaciosos e engenhosos com uma causa”. Foi aplaudido de pé. Toda a viagem de Carlos aos EUA foi uma lição de classe e uma aula viva de como um chefe de Estado se deve comportar. Num discurso simpático e elogioso do espírito americano, Carlos puxou dos galões e fundamentou na tradição britânica a revolução democrática dos EUA. Valores congénitos, logo comuns e para sempre. Irmãos que podem ter desavenças, mas nunca deixam de ser o que são.
No dia seguinte ao discurso de Carlos III teve lugar em Lisboa mais uma edição do Fórum La Toja – Vínculo Atlântico. A quarta em Lisboa. As intenções deste espaço de reflexão e debate constam do seu manifesto e visam, em Lisboa e a par do que se faz na ilha de la Toja na Galiza, discutir um caminho europeu comum com o Atlântico no meio.
O ponto é interessante, quanto mais não seja porque não é frequente. A herança luso-espanhola é geralmente referida nos seus aspectos negativos, nomeadamente a escravatura, fruto de uma preponderância da historiografia anglo-saxónica e holandesa em detrimento da portuguesa e, essencialmente, da espanhola. A decadência dos povos peninsulares não se ficou pelo menor desenvolvimento económico, político e social. A história contada também foi outra. E o peso político que Portugal e Espanha poderiam tirar dessa outra forma de contar a história perdeu-se.
Mas pode ser recuperado como o comprovam os debates na última quarta-feira na Gulbenkian. A actual necessidade de reinventar o espaço atlântico é a mesma que levou à implementação do que temos hoje após a Segunda Guerra Mundial. Vitoriosos, EUA e Reino Unido criaram uma ordem mundial liderada pela língua inglesa e os resultados foram estrondosos. Ainda o são. Mas para que se mantenham será preciso algo mais e é nesse mais que Portugal e Espanha podem acrescentar algo. O quê? Acima de tudo, dimensão. O alargamento do vínculo atlântico para o sul abarcaria toda a América Latina, a África Austral e uma relação especial com um estado com uma localização estratégica fundamental que é Cabo Verde.
Nada disto é fácil menos ainda imediato. A aliança atlântica que conhecemos precisou de duas guerras mundiais, milhões de mortos e feridos, o fim de impérios (na Europa e nas colónais) e o derrube de monarquias centenárias para que fosse implementado. Nada disto é fácil, dizia, como também tem muitas especificidades. Uma delas é a relação entre Portugal e Espanha, que é excelente mas tem a sua história.
“O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio de independência dos territórios periféricos.” É com esta citação de Agostinho da Silva que José Medeiros Ferreira inicia o seu pequeno livro, escrito em 1989, sobre as relações entre Portugal e Espanha, “Um Século de Problemas – As relações luso-espanholas da União Ibérica à Comunidade Europeia”. Medeiros Ferreira disserta depois sobre uma série de episódios em que, desde 1864, a união com Espanha foi ponderada ou em que a independência do nosso país esteve em risco de se perder, mesmo que a maioria da população não se tivesse apercebido disso. É preciso não esquecer que a unificação da Alemanha e da Itália acabaram por ter alguma influência nas conclusões que alguns tiraram sobre o futuro da Península Ibérica: por que não nos juntamos nós também, portugueses e espanhóis? Por que razão não se unem Portugal e Espanha numa grande união ibérica que constitua outro novo motor da Europa? Tanta força teve essa discussão que só depois a Segunda Guerra Mundial a Espanha colocou de parte qualquer possibilidade em anexar Portugal.
Actualmente tudo isso é passado. Mesmo assim, foi curioso reparar no debate na Gulbenkian entre Mariano Rajoy e Paulo Portas, sobre os desafios políticos da Europa, que o antigo presidente do governo espanhol deu maior ênfase à necessidade de uma política externa comum europeia enquanto o ex-governante português se focou na política de defesa. E a razão é muito simples: a defesa de Portugal integrada na europeia (com o Reino Unido e, para nós portugueses obrigatoriamente com os EUA) implica assegurar a independência do nosso país. Já o mesmo não podemos dizer relativamente a uma política externa comum europeia que significaria a subalternização da relação especial que Portugal tem com o Brasil e África em detrimento da visão espanhola.
É de mencionar que o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, tocou nesse ponto quando distinguiu a posição da Espanha da de Portugal. A primeira como potência europeia que procura apoio Atlântico (Franco considerou isso mesmo nas conversações que teve com Hitler como forma de ter algum peso no eixo), enquanto o nosso é um país essencialmente atlântico e com pouco peso europeu. E isso não é de agora.
Ou seja, e regressando ao princípio, Portugal e Espanha devem fazer com os seus parceiros transatlânticos o que Carlos III fez nos EUA: salientar pontes que sustentem um futuro comum em benefício de todos. Mas isso também requer da nossa parte um cuidado acrescido para não pormos em causa o grande feito que é o de continuarmos a existir contra todas as probabilidades. No século XV Portugal descobriu no Atlântico o garante da sua independência. Enquanto navegávamos sozinhos não houve problemas. A partir do século XVII, quando as grandes potências seguiram as nossas rotas marítimas, o truque encontrado para não sermos engolidos pelos probelmas dos outros foi a neutralidade. Neutrais, neste canto da Europa não nos envolvíamos em guerras que não nos diziam respeito. Essa neutralidade deixou de ser possível depois de 1945 porque o mundo se tornou mais global e se dividiu em dois blocos. Foi só após o 25 de Abril com o fim do império e, de forma mais assumida, com o fim da Guerra Fria que Portugal pôde assumir uma estratégia de multilateralidade. Actualmente, e num momento em que se constrói um novo equilíbrio, o espaço talvez seja o de uma multilateralidade estratégica de quem está num bloco, mas tem ligações especiais (e não necessariamente militares) com outros estados de outros blocos. O tal princípio de independência dos territórios periféricos. A manutenção da nossa independência face à Espanha, no seio da Europa, e ligada a uma relação especial, profunda e de diálogo com outros estados de outras civilizações bem pode ser o novo desígnio que continue a justificar a nossa existência. E que nos permita continuar o nosso maior feito que é ser quem somos.