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(A) :: A minha filha longe de mim

A minha filha longe de mim

Nem me passa pela cabeça fingir que sou um pai equilibrado. Claro que desejo que todos os meus filhos se tornem autónomos, livres, adultos. Mas quando esse processo exige mais de mim, ressinto-me.

Tiago de Oliveira Cavaco
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Doeu-me um pouco a alegria da minha filha mais velha a viver longe de nós. Ela foi para a Holanda terminar em Erasmus a sua licenciatura e o tempo, que deveria ser de um semestre, esticou-se. Ela foi em Setembro e foi ficando. Arranjou um emprego e quis mais daquela experiência de independência.

Eu notei quando ela em Dezembro veio a Portugal por causa de um casamentos de amigos. Sim, a nossa filha estava contente por estar connosco mas não estava tão contente assim. Conheço-a e percebi que, por ela, esticaria o seu tempo longe de nós. Fiz por me mentalizar, sem grande sucesso.

Logo, o plano foi-se alterando: em vez de regressar a Portugal no final do semestre, a Maria quis experimentar arranjar um emprego e tornar indefinida a duração da sua estadia na Holanda. Nós, pais, preferíamos tê-la de volta mas compreendemos. Nada de errado havia na vontade dela. Pelo contrário, até.

Nem me passa pela cabeça fingir que sou um pai equilibrado. Claro que desejo que todos os meus filhos se tornem autónomos, livres, adultos. Mas quando esse processo exige mais de mim, ressinto-me. Fico feito num pai latino, sem vontade de ver os meus miúdos longe, agarrado ao passado.

Porque sou pastor evangélico, faço parte de uma comunidade com culturas diferentes. Há portugueses, há sul-americanos, há norte-americanos, há africanos, há outros europeus. Esse convívio com outras maneiras de viver confronta tendências em nós que nos parecem universais.

Nas palavras de José Gil no seu “Portugal, o medo de existir”: “o português habita numa espécie de bola de afecto. (…) O ser pequeno é a estratégia portuguesa de permanecer inocente”. É como as nossas ronhas familiares se manifestam: tendemos a julgar que amar melhor é amar nas fronteiras apertadas do nosso território.

Entretanto, a nossa Maria acaba de regressar. Não sabemos durante quanto tempo porque, vamos ser justos, nem deveremos saber. Mas sabe tão bem. Hoje, 3 de Maio, é o aniversário dela. A nossa filha mais velha está connosco, mudada pela aventura de ser adulta lá longe de nós. É a mesma e já não é.

No Velho Testamento há uma bênção que os pais passam aos filhos: “o Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz” (Números 6:24-26). Tenho encontrado o rosto da minha Maria com mais brilho porque ela tem encontrado o Pai mais importante até quando está longe deste.