Era a noite de consagração de uma ideia, de uma aposta e de um projeto. Este sábado, no segundo dia de maio, o FC Porto só precisava de mais três pontos, de mais uma vitória, para voltar a ser campeão nacional. Em pleno Estádio do Dragão, num cidade que já respirava alegria desde as primeiras horas da manhã, os dragões estavam prestes a confirmar o sucesso de um clube que teve de bater no fundo para voltar a ganhar.
Depois da espécie de ano zero que foi a temporada passada, com André Villas-Boas a falhar nas escolhas de Vítor Bruno e Martín Anselmi, a saída de Andoni Zubizarreta marcou um antes e um depois no FC Porto. Francesco Farioli chegou, acompanhado pela liderança de Bednarek, o talento de Gabri Veiga e a juventude de Victor Froholdt, e não foi preciso esperar muito para perceber que os dragões dificilmente iriam escorregar ao ponto de perderem o Campeonato para alguém.
Ficha de jogo
FC Porto-Alverca, 1-0
32.ª jornada da Primeira Liga
Estádio do Dragão, no Porto
Árbitro: David Silva (AF Porto)
FC Porto: Diogo Costa, Alberto Costa, Bednarek, Kiwior (Alan Varela, 45′), Zaidu (Martim Fernandes, 45′), Victor Froholdt, Pablo Rosario, Gabri Veiga (Seko Fofana, 74′), Pepê (Rodrigo Mora, 86′), Deniz Gül, Oskar Pietuszewski (Borja Sainz, 63′)
Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Thiago Silva, William Gomes
Treinador: Francesco Farioli
Alverca: Matheus Mendes, Naves (Cédric Nuozzi, 90′), Sergi Gómez, Bastien Meupiyou, Nabil Touaizi, Lincoln, Rhaldney (Zakaria Kessary, 90′), Isaac James, Figueiredo (Marezi, 77′), Sandro Lima (Diogo Spencer, 90′), Chiquinho (Davy Gui, 77′)
Suplentes não utilizados: Mateus Mendes, Steven Baseya, Vasco Moreira, Stéphane Diarra
Treinador: Custódio Castro
Golos: Bednarek (40′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Chiquinho (38′), a Kiwior (38′), a Sergi Gómez (52′), a Sandro Lima (74′), a Figueiredo (77′)
Este sábado, o clube que há um ano parecia perdido, sem referências ou pontos de orientação, tinha a possibilidade de voltar a ser campeão nacional — quatro anos depois da última vez e com ainda duas jornadas por disputar. Contra o Alverca, que não queria ajudar à festa mas sabia que não era o protagonista do fim de semana, Francesco Farioli garantia que a concentração era a de todas as semanas até aqui. Uma certeza que, aliás, é o exemplo paradigmático da postura do treinador italiano ao longo de toda a época.
“A semana decorreu com a abordagem correta, foram sessões exigentes. Preparámos o jogo com muita atenção, dando crédito ao Alverca. Estamos conscientes do que o jogo pode significar, mas estamos focados, sem tempo para pensar em festejos. O que aprendemos é que só está fechado quando está fechado. Quando começámos, há 11 meses, não estávamos a olhar tão longe. Olhámos para o presente. Construímos a nossa identidade aos poucos, a nossa forma de competir. Tivemos muito trabalho, muita planificação no dia a dia, tivemos de ter organização. Há muitas outras coisas que nos rodeiam, falámos muitas vezes sobre o treino invisível, o trabalho feito pelo departamento médico. Todas estas coisas fazem com que fiques mais perto ou não do objetivo. Temos de tomar certas decisões, pensar na saúde dos atletas, foi o que fizemos e o grupo aceitou bem. Estas decisões levaram-nos até onde estamos hoje”, explicou o técnico dos dragões na antevisão da partida.
Assim, no Dragão e no que poderia ser o verdadeiro jogo do título, Francesco Farioli lançava Pablo Rosario com Victor Froholdt e Gabri Veiga no meio-campo, deixando Alan Varela no banco, enquanto que Zaidu aparecia na esquerda da defesa, sendo que Martim Fernandes era suplente e Francisco Moura nem sequer estava na ficha de jogo. Do outro lado, num Alverca que já sabe que vai manter-se na Primeira Liga na próxima temporada, Custódio Castro apostava em Chiquinho, Sandro Lima e Figueiredo no ataque.
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Antes do apito inicial, a contas ficaram ainda mais simples: o Benfica empatou com o Famalicão, o que significava que o FC Porto nem sequer precisava de ganhar e podia apenas empatar com o Alverca e ser campeão nacional já este sábado na mesma. A primeira situação de perigo do jogo pertenceu aos dragões, com Alberto Costa a acelerar na direita para rematar por cima já na área (4′), mas o Alverca depressa mostrou que não tinha mesmo feito a viagem para ser o simples adjunto das celebrações.
Chiquinho deu o mote, com um remate rasteiro de fora de área que Diogo Costa encaixou e que foi o primeiro enquadrado do jogo (7′), e a equipa de Custódio não só conseguia manter-se bastante bem organizada defensivamente como soltava o contra-ataque com critério, contando sempre com a experiência do avançado para dar dores de cabeça a Bednarek e Kiwior. Gabri Veiga teve a melhor oportunidade até então ainda dentro do quarto de hora inicial, acertando na trave de canto direito no que seria um extraordinário canto olímpico (12′), e Kiwior chegou mesmo a colocar a bola no fundo da baliza — mas o golo foi anulado por mão na bola do central polaco, que apareceu na recarga a um pontapé de Victor Froholdt que também foi à barra (24′).
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Os dois momentos, porém, foram mesmo as únicas verdadeiras ocasiões de golo do FC Porto durante praticamente toda a primeira parte. Lincoln era o equilíbrio do Alverca e os ribatejanos conquistaram alguma confiança à medida que o tempo foi passando, subindo linhas e desenhando lances com finalização, com Sandro Lima (26′) e Nabil Touaizi (34′) a cabecearem ambos por cima da trave depois de cruzamentos na direita. Já perto do fim da primeira parte, contudo, o quase inevitável aconteceu.
Canto na direita e Bednarek, sem grande oposição, cabeceou certeiro para bater Matheus Mendes e abrir o marcador (40′), chegando ao quarto golo na atual temporada e igualando o ano mais goleador da carreira. O Estádio do Dragão explodiu e o FC Porto foi para o intervalo a vencer o Alverca e com a certeza de que só faltavam mesmo 45 minutos para carimbar o Campeonato, reconquistar o título e ser campeão nacional pela 31.ª vez.
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Francesco Farioli mexeu logo no início da segunda parte e trocou Kiwior e Zaidu por Martim Fernandes e Alan Varela, com o argentino a entrar para o meio-campo e Pablo Rosario a recuar para o eixo defensivo ao lado de Bednarek. Do outro lado, Custódio não fez alterações e o Alverca regressou dos balneários com a mesma atitude competitiva, com Sandro Lima a rematar ligeiramente ao lado de fora de área (46′) e a tentar um chapéu de muito longe logo nos instantes iniciais após o intervalo (52′).
A partida embrulhou-se quando o relógio se aproximou da hora de jogo, com muitas paragens e interrupções e poucas situações de verdadeiro perigo junto das balizas: o FC Porto parecia abdicar das posses de bola prolongadas, optando pela transição rápida e violenta, enquanto que o Alverca mantinha as linhas subidas e recusava-se a afundar no último terço. O treinador dos dragões voltou a mexer já dentro dos últimos 20 minutos, lançando Borja Sainz no lugar de Oskar Pietuszewski, e apesar de não estar a dominar ficava a ideia de que o FC Porto tinha a situação aparentemente controlada.
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Ainda assim, os ribatejanos mantinham a intenção de levar algo mais do que a derrota do Dragão e Figueiredo, o mais inconformado da segunda parte, ficou perto do empate com um remate forte na área que Diogo Costa defendeu (67′). Borja Sainz respondeu do outro lado, com um cabeceamento na área que Matheus Mendes só defendeu à segunda (73′), e Francesco Farioli fez a quarta substituição para colocar Seko Fofana, enquanto que Custódio fez as primeiras para lançar Marezi e Davy Gui em simultâneo.
Rodrigo Mora ainda entrou, os múltiplos engenhos pirotécnicos lançados nas bancadas obrigaram a interrupções e sete minutos de tempo extra, mas já nada mudou: o FC Porto venceu o Alverca no Dragão e sagrou-se campeão nacional pela 31.ª vez, conquistando o Campeonato com ainda duas jornadas por disputar. Numa temporada em que o coletivo foi sempre mais importante do que o individual, para Francesco Farioli e para todos os que fazem parte do universo dos dragões, quis o paradoxo que tivesse de ser a individualidade mais importante a dar a maior das alegrias à coletividade.
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