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Um júri federal condenou, na sexta-feira, o ex-congressista e amigo de longa data do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, por conspiração e outros cinco crimes federais. David Rivera, da Florida, foi considerado culpado de liderar uma campanha secreta de lobbying, avaliada em 50 milhões de dólares (42,7 milhões de euros), em nome do Governo venezuelano durante a primeira administração Trump.
A revelação do esquema de pagamentos recebidos de Caracas entra em contradição com a imagem pública de Rivera: o republicano, que serviu no Congresso entre 2011 e 2013, construiu o seu percurso político como um fervoroso anticomunista. Após o veredito, ouvido por Rivera sem emoção, escreve a imprensa norte-americana, os promotores pediram a sua detenção imediata por risco de fuga. A defesa contestou a medida, sustentando que o ex-congressista não pretende fugir por ter dois filhos pequenos.
A acusação resumiu o caso como uma “verdade simples”: “Os réus venderam acesso e influência a um regime estrangeiro hostil em troca de dinheiro”. De acordo com o comunicado do procurador Jason Quiñones, Rivera e a sua associada, a consultora política Esther Nuhfer, aceitaram milhões de Maduro, ocultaram a ligação ao Governo norte-americano e traíram a confiança política para servir interesses venezuelanos.
Eles aceitaram milhões ligados ao regime de Maduro, ocultaram essa relação do governo dos Estados Unidos e usaram relacionamentos pessoais e políticos de confiança para promover secretamente os interesses do regime venezuelano. No sul da Florida, onde tantas famílias fugiram da opressão comunista, esse tipo de traição tem um peso real“, lê-se no comunicado assinado por Quiñones.
Ao longo das cinco semanas de julgamento em Miami, os promotores demonstraram que a petrolífera estatal venezuelana pagou 50 milhões de dólares (42,7 milhões de euros) à consultora de Rivera para garantir influência em Washington. O objetivo era forçar uma aproximação diplomática através da mediação de encontros entre figuras dos EUA e a cúpula do regime de Caracas, incluindo o próprio Nicolás Maduro e a atual Presidente interina Delcy Rodríguez. Segundo o procurador Quiñones, o esquema operava através de “mensagens codificadas”: “Recorrendo a mensagens codificadas e à lavagem de milhões de dólares para financiar estilos de vida luxuosos e campanhas políticas, estes arguidos pensavam que podiam agir nas sombras”.
O julgamento ganhou contornos mediáticos quando o atual secretário de Estado foi chamado a depor contra Rivera, seu amigo de longa data e antigo colega de casa em Tallahassee. Rubio, que à data dos factos era senador republicano pela Florida, confirmou em tribunal ter-se reunido duas vezes com o arguido durante o período do lobby clandestino. Todavia, assegurou sob juramento que desconhecia por completo a existência do contrato milionário com o regime venezuelano, não tendo sido implicado em qualquer irregularidade.
Rubio relatou ao júri que, em 2017, Rivera lhe apresentou um suposto plano para convencer Maduro a renunciar. Pouco depois, o atual secretário de Estado discursou no Senado garantindo que os EUA não retaliariam membros do regime que ajudassem a derrubar o ditador. “Ele deu-me frases-chave que os membros do regime queriam ouvir para saberem que a oferta era séria”, testemunhou Rubio: “Sem vingança, sem retaliação.”
A defesa apresentou uma versão oposta à da acusação: os advogados de Rivera garantiram que ele nunca trabalhou para Nicolás Maduro, mas que tentava, na verdade, derrubá-lo. Segundo a NBC News, a defesa alegou que o seu trabalho se focava em esforços comerciais legítimos, anticomunistas e de “promoção da democracia”. Sustentaram ainda que Rivera não tinha de se registar como agente estrangeiro porque o contrato foi assinado com a PDV USA — uma subsidiária americana — e não diretamente com o Estado venezuelano. “Tudo o que ele queria era remover Maduro”, afirmou o advogado Edward Shohat.
Contudo, os factos demonstraram que os fundos tiveram destinos pessoais: Rivera usou cerca de 600 mil dólares (512 mil euros) para financiar a sua campanha ao Congresso estadual, entre outros usos pessoais.
Com a leitura da sentença marcada para 20 de julho, Rivera arrisca uma pena máxima de 60 anos de prisão, condenado por conspiração e violação da FARA (sigla inglês para a Lei de Registo de Agentes Estrangeiros), branqueamento de capitais e transações com bens de origem criminosa. Os advogados já anunciaram que irão recorrer da decisão.