À medida que se aproximam as eleições intercalares nos EUA — que podem ditar a perda do controlo do Congresso por parte dos republicanos — cada vez mais estados ‘vermelhos’ estão a alterar os círculos eleitorais. Esta quinta e sexta-feira, mais quatro estados controlados por republicanos tomaram medidas nesse sentido: a Flórida, o Louisiana, o Tennessee e o Alabama. E mais se podem seguir, depois de, na última quarta-feira, o Supremo Tribunal dos EUA ter esvaziado a Lei dos Direitos de Voto, anulando o princípio que norteava o desenho dos mapas eleitorais: a defesa das minorias.
Logo depois de ser conhecida a decisão do Supremo Tribunal, os governadores republicanos do Alabama, Kay Ivey, e do Tennessee, Bill Lee, convocaram sessões extraordinárias com o objetivo de redesenhar os mapas eleitorais dos respetivos estados, visando um ganho de lugares para o Partido Republicano no Congresso, nota o Washington Post.
Já antes, na quinta-feira, o governador do Louisiana, Jeff Laundry, suspendera as primárias para a Câmara dos Representantes dos EUA, que deveriam começar este sábado, para que o estado possa redesenhar o mapa eleitoral. Também nesse dia, a Florida aprovou um nova mapa. Os mais recentes desenvolvimentos são apenas mais um capítulo da guerra em torno da manipulação de distritos eleitorais, aberta no ano passado entre republicanos e democratas, e que não tem precedentes na história moderna norte-americana.
Republicanos detêm curta maioria na câmara baixa do Congresso
O eventual redesenho dos mapas eleitorais nestes quatro estados do sul poderá garantir ao Partido Republicano mais sete a nove lugares na Câmara dos Representantes, uma vez que distritos tradicionalmente democratas irão, previsivelmente, ser reformulados para eleger republicamos. O número de congressistas ‘ganhos’ pode não parecer elevado (tendo em conta a dimensão da câmara baixa do Congresso, que é composta por 435 congressistas) mas poderá revelar-se determinante para o controlo da câmara, que atualmente os republicanos dominam por uma estreita margem (218 contra 212, havendo cinco lugares vagos).
https://observador.pt/2025/08/26/com-medo-de-perder-controlo-do-congresso-trump-pede-aos-estados-republicanos-para-mudarem-circulos-eleitorais-democratas-retaliam/
No verão do ano passado, o Presidente dos EUA incentivou os republicanos do Texas a redesenharem os distritos da Câmara dos Representantes dos EUA para dar vantagem ao partido, o que acabou por acontecer, provocando uma resposta dos democratas da Califórnia, que fizeram o mesmo. Em seguida, pelo menos outros cinco estados também avançaram para a reconfiguração dos mapas, entre eles a Carolina do Norte, o Ohio e o Missouri (republicanos) e também o Utah e Virgínia (democratas). Trump tem receio de que as eleições intercalares — que irão ter lugar a meio do mandato, em novembro de 2026 — ditem a perda do controlo da Câmara dos Representantes, sendo que, historicamente, o partido que governa é sempre penalizado nas intercalares.
Na Flórida, a Assembleia Legislativa, controlada pelos republicanos, apressou-se a aprovar novos distritos para a Câmara dos Representantes, que podem ajudar o Partido Republicano a conquistar até quatro lugares adicionais nas intercalares, segundo a Associated Press. O novo mapa eleitoral remodela, por exemplo um distrito no sudeste da Flórida que, segundo o governador Ron DeSantis, foi criado para ajudar a eleger um representante negro, numa tentativa de cumprir a Lei Federal dos Direitos de Voto.
Esta lei — aprovada há mais de 60 anos, em agosto de 1965, por iniciativa do então presidente democrata Lyndon B. Johnson depois do ataque no ‘Domingo Sangrento’ no Alabama — destina-se a impedir a discriminação contra minorias nas urnas, tendo contribuído para eleger, ao longo das últimas décadas, milhares de representantes negros e hispânicos.
Neste momento, a Flórida tem uma representação de 20 republicanos e oito democratas na Câmara dos Representes, uma desproporção que se poderá vir a agravar a partir de novembro.
No caso do Alabama, o redesenho do mapa eleitoral pode atribuir aos republicanos mais um a dois mandatos da Câmara dos Representantes, reduzindo a zero os congressistas democratas eleitos. No entanto, o caminho até à alteração do mapa pode não ser fácil: em 2023, um tribunal federal ordenou a criação de um novo distrito quase maioritariamente negro no Alabama, resultando na eleição de um segundo representante negro para a Câmara dos Representantes dos EUA pelo estado (que, neste momento, tem cinco republicanos e dois democratas na câmara baixa do Congresso).
O Alabama está obrigado por ordem judicial a usar o novo mapa até depois até 2030, mas os legisladores estaduais, e nomeadamente a governadora Kay Ivey, querem reverter essa decisão de modo a favorecer o Partido Republicano.
Republicanos querem retirar representação democrata à cidade de Memphis
Já no Tennessee, os republicanos querem mudar a configuração do 9º distrito, tradicionalmente democrata, e que abrange a área urbana da cidade de Memphis, onde cerca de dois terços da população é negra. Há muito que os republicanos querem redesenhar o distrito, diluindo os eleitores por zonas mais conservadoras (de modo a retirar aos democratas o único representante pelo estado), mas têm sido impedido pelos tribunais.
Uma realidade que se pode ter alterado definitivamente com a decisão do Supremo Tribunal. “Devemos aos cidadãos do Tennessee garantir que nossos distritos eleitorais refletem com precisão a vontade dos eleitores do Tennessee”, disse o governador republicano Bill Lee. A confirmar-se, a cidade de Memphis, onde foi Martin Luther King foi assassinado em 1968, poderá ficar sem representação democrata em Washington.
No Louisiana, a decisão do governador Jeff Laundry de adiar as primárias no estado, para permitir o redesenho dos mapas eleitorais, já está a gerar polémica, tendo levado os democratas a apresentarem várias ações em tribunal para anular a decisão. Os democratas alegam que Landry não tem autoridade para suspender as primárias e lembram que que milhares de boletins de voto por correspondência já foram enviados, tendo um número substancial deles sido preenchido e devolvido. No entanto, o tribunal distrital da cidade de Baton Rouge, a capital estadual, recusaram os pedidos para anular a decisão do governador.
Em sentido contrário, o governador da Geórgia, outro estado republicano, anunciou que não irá proceder a qualquer mudança dos mapas eleitorais este ano, alegando que seria impossível fazê-lo a tempo das intercalares. Em comunicado, Brian Kemp avisou, no entanto, que o redesenho será colocado em marcha para ter efeitos nas eleições seguintes, em 2028. “A votação para as eleições de 2026 já está em andamento, mas é evidente que a decisão exige que a Geórgia adote novos mapas eleitorais antes do ciclo eleitoral de 2028”, sublinhou.
De acordo com o site especializado em projeções 270towin, que agrega várias sondagens, os democratas deverão assumir o controlo da Câmara dos Representantes a partir de novembro, elegendo 216 congressistas contra 202 republicanos, havendo ainda 17 lugares em distritos extremamente competitivos que podem ‘cair’ para qualquer um dos partidos.