Celebramos o 1.º de Maio como um marco de conquista. E é. Porém, celebramo-lo, demasiadas vezes, como se o tempo tivesse parado nesse primeiro grito coletivo por dignidade. Como se o trabalho fosse hoje o mesmo campo de batalha de há mais de um século. Não é.
O problema não está na memória. Está na forma como a usamos. Em vez de a honrarmos como ponto de partida, cristalizámo-la como ponto de chegada. Nesse processo, fomos perdendo a capacidade de fazer uma pergunta essencial: se o trabalho evoluiu tanto, porque continua o seu enquadramento preso ao passado?
A resposta não é confortável. O trabalhador de hoje poderia viver significativamente melhor se a lei do trabalho tivesse acompanhado, com coragem, a evolução das empresas, da economia, da própria natureza do trabalho.
Há mais conhecimento, mais tecnologia, mais capacidade produtiva, mais ferramentas para criar valor. Há também mais rigidez, mais desconfiança estrutural, demasiadas normas pensadas para um mundo que já não existe.
Aqui reside o paradoxo.
Em vez de ajustarmos as regras a uma realidade em mudança, insistimos em proteger o presente com instrumentos do passado. Ao fazê-lo, limitamos o futuro. Limitamos a capacidade das empresas crescerem, inovarem, pagarem melhor. Limitamos, no essencial, o potencial de melhoria real da vida dos trabalhadores.
O trabalho mudou. Profundamente.
Hoje, o trabalhador não é apenas mão de obra. É conhecimento, criatividade, decisão. Exige propósito, equilíbrio, flexibilidade. E bem. Esta transformação obriga a repensar o outro lado da equação: empresas mais ágeis, economias mais competitivas, modelos mais sustentáveis.
Persistir numa leitura ideológica do trabalho, ancorada no século passado, é negar esta realidade. É recusar discutir produtividade, mérito, inovação, criação de valor como pilares centrais da dignidade laboral. No limite, condena-nos a um debate estéril, onde se reivindica muito, constrói-se pouco.
Portugal vive este dilema com particular intensidade. Quer melhores salários, evita discutir produtividade com seriedade. Procura mais proteção, adia reformas estruturais. Ambiciona mais futuro, continua a olhar para o trabalho com categorias do passado.
O 1.º de Maio deveria ser, por isso, menos um ritual, mais um exercício de lucidez.
Celebrar conquistas, sim. Reconhecer o que ficou por fazer, também. Sobretudo, ter a coragem de perguntar: que reformas faltam para que o trabalhador viva, de facto, melhor?
A dignidade do trabalho não está apenas na memória das lutas. Está na coragem de atualizar as regras do jogo.