A pequena biblioteca do gueto de Varsóvia, onde todas aquelas crianças, acompanhadas por dois bravos mestres, passariam as últimas horas da sua vida, era uma mistura de textos de iniciação à leitura e velhos tomos do Talmude. Situava-se numa cave escura e húmida, e era quase tão fria no verão como no inverno. Lá fora, no empedrado da rua, o general Jürgen Stroop, à frente dos sitiantes, passava a mão direita pela larga lapela do seu uniforme, já enfadado com tanta matança e incêndios, e intrigado com a feroz resistência judaica liderada por Mordechai Anielewicz. Enquanto o alemão pensava, com nostalgia, nos seus próprios filhos, tecendo loas à pátria na distante rectaguarda, centenas de criaturas encerradas no gueto oscilavam entre o terror e o desespero. O general Stroop não conseguia ouvir as vozes estridentes e os choros das crianças judias que mal conseguiam soletrar os salmos que os mestres, com a mão firme da fé, lhes propunham.
Para quê continuar a ler, a estudar, quando a opressão é mais do que insuportável e o fim inescapável? Porquê aqueles livros e não outros? Por que razão as figuras de Sansão e de Samuel, coloridas à mão pelas gerações anteriores, não bastariam às crianças? Porque se abatia o mal sobre todos eles?
– Lede, lede, e o tempo passará sem darmos por ele – diziam os mestres, enquanto distribuíam os poucos biscoitos secos que lhes restavam, pedacinhos de queijo rançoso, compota de laranja e falsas mensagens dos pais que, lá em cima, combatiam os nazis.
Essas pequenas notas, escritas à pressa, diziam: «Não temas, meu querido, em breve irei buscar-te»; «Porta-te bem, meu anjo, e estuda, estuda». Os mestres tinham ideado esse consolo, registado essas fidelidades, escrito essas poucas palavras, para lhes fazer ver que ninguém se tinha esquecido deles ali em baixo, encerrados na biblioteca. E muito menos os seus pais e avós, que, evidentemente, os tutores conheciam. Algumas, muito poucas, crianças concentradas conseguiam soletrar os seus nomes, mas a maioria erguia a cabeça para o tecto ao ouvir tiros e passos apressados, pancadas secas e móveis a arrastar-se. Um dos mestres esboçava um sorriso forçado e trauteava a canção da floresta na primavera, quando ainda há neve nos telhados das casas altas e as vacas soltam um vapor quente pelas ventas.
– Lede, lede – dizia o outro –, e a morte afastar-se-á de nós. Estamos inscritos no Livro da Vida, e as palavras são folhas que não caem, frutos cuja doçura não se esgota, flores que sustentam as ideias e os pensamentos.
Era preciso distraí-los, abraçá-los, imaginar à pressa jogos espontâneos que puxassem a sua atenção para o território da segurança e do amor. Era preciso limpar-lhes o ranho, secar-lhes as lágrimas, apertar-lhes os cachecóis e puxar-lhes para cima as remendadas meias de lã. Era preciso nomeá-los em voz alta para que se convencessem de que ainda estavam ali. Os mestres iam às estantes buscar mais livros enquanto os tiros ressoavam e um alarido próximo arranhava os vidros das janelas. Porquê e para quê aquele desprezo constante, aquela perseguição recorrente? As meninas concentravam-se melhor na leitura do que os meninos. Os meninos montavam puzzles coloridos mais depressa do que as meninas.
– Lede, lede – repetiam, folheando um manual de orações, os mestres.
Esforçavam-se por não fixar o olhar nos olhos infantis, para que os pequenos não percebessem que, com aquelas suas lágrimas, lhes estavam a dizer adeus; faziam sentar os que se levantavam e levantavam os que, como bichinhos da conta, se enroscavam no chão, transformados em novelos de pavor. A leitura era um refúgio irrisório; as melodias que mal conseguiam articular sustentavam-se apenas por breves instantes.
A tragédia iminente rompia como uma negra onda de fúria assassina contra as casas e contra os muros.
– Deus do Universo – sussurrou um dos mestres –, concede-lhes uma morte rápida e indolor.
– Ámen – disse o outro.
E o fogo das armas fez o resto, e os sitiantes do gueto vomitaram o seu rancor de pólvora, e as horas devoraram-se umas às outras, e o silêncio espesso do ódio fermentou aqueles inomináveis sorrisos glabros que fedem a ranço e cebola, até que o fumo escureceu por igual os rostos dos mortos e as cabeças dos vivos.
No fundo dessa cave, onde o frio parecia respirar com as próprias paredes, a leitura erguia-se como um gesto frágil e absoluto, uma chama quase invisível que recusava extinguir-se. Não era fuga – para onde? – nem consolo – que palavra poderia suspender o passo do que se aproximava? Mas um modo de permanecer inteiro quando tudo conspirava para a ruína. Cada palavra soletrada era um passo suspenso sobre o abismo, uma recusa silenciosa em ceder ao caos, como se, no ritmo incerto das sílabas, ainda fosse possível desenhar um tempo outro, um tempo interior, que não obedecesse às ordens do medo nem ao burocrático calendário da morte. Ler, ali, era um acto de resistência íntima: não contra a morte que se aproximava, mas contra o esvaziamento do sentido, contra a noite total que ameaça apagar não apenas os corpos, mas a memória do que fomos. E assim, entre o tremor das mãos e o rumor distante da destruição, aquelas vozes frágeis sustentavam um mundo inteiro – um mundo que já não existia, mas que persistia, teimosamente, na respiração das palavras.
E enquanto Jürgen Stroop batia no empedrado os seus tacões de autoridade e infâmia, prisioneiro de uma indiferença sem escuta, e a chama breve da resistência de Mordechai Anielewicz ardia nas ruínas como último gesto de afirmação humana, a leitura tornava-se um abrigo sem paredes, uma casa erguida no interior do próprio instante. Não protegia do fim, mas preservava algo anterior e mais fundo do que a sobrevivência: a possibilidade de ainda nomear, ainda reconhecer, ainda amar através das palavras.
Na semana em que se assinalaram oitenta anos sobre o esmagamento do Levantamento do Gueto de Varsóvia, permanece esse sussurro obstinado – “Lede, lede” – não como ingenuidade, mas como um gesto de lucidez extrema, como quem sabe que ler não salva o corpo, mas impede a vitória total do mal. Porque cada leitura, por mais breve, por mais trémula, é uma pequena insurreição contra o esquecimento, um acto de fidelidade ao que ainda pode ser lembrado. E enquanto houver alguém que leia, mesmo à beira do silêncio final, mesmo quando o mundo parece já ter fechado todas as portas, haverá ainda um resto de luz, um clarão mínimo e irredutível, que nenhuma escuridão – por mais vasta, por mais feroz – conseguirá consumir por inteiro.