Neste artigo, o título tem duas palavras que podem intrigar o leitor: o Valete é, obviamente, uso da ironia no contraste entre Trump e o Rei Carlos. A inglesice/englishness deve-se à razão que motivou o texto.
Toco num assunto, o político, em que nunca, ou muito pouco, me aventuro. Nas conversas raramente me sai uma opinião – só se anedótica. Na escrita é a primeira vez. E nem sei se isto é político…
A inglesice tem a ver com o assunto em que me encontro presentemente imerso. Por estar em dívida para com um amigo, tinha de a honrar, e decidi abalançar-me a coisa que não estava predisposto, um quarto livro memorialista, que espero esteja pronto em breve e seja apresentado antes do final do ano. Trata do tema inglesice. Ou melhor, trata dessa questão na perspectiva da ascensão, esplendor e decadência da cultura britânica ao longo de oito décadas vividas tanto no Reino Unido como no Porto.
Bruscamente, bateram-me à porta as referências dessa cultura experimentadas com o seu marcante perfil, que ficou intacto até finais do século XX. Viram-se ressuscitadas em Washington com os dois notabilíssimos discursos de Carlos III no passado dia 28 de Abril.
Digo século XX, mas acrescento até hoje, pois testemunho, leio e converso sobre uma costela que o meu esqueleto físico e anímico transporta, a britânica. A “vistoria” é recorrente e feita com a leitura do The Times, do The Guardian, do Financial Times, etc., e com literatura de ficção e não ficção. Tudo isto é temperado com visitas uma ou duas vezes por ano a Londres, onde tenho assistido à evolução das coisas nos teatros do West End, nas exposições de grandes artistas, nos concertos, nos Clubs de Pall Mall e St James’s, na City, etc., etc.
Por isso pode-se perceber a razão pela qual emergiu do Rei Carlos III: um verdadeiro electro-choque infligido ao modelo cultural que tantos conheceram bem, e agora se encontra em fase agónica, necessitada de cuidados intensivos. Com apenas dois discursos de oportunidade, diplomacia, concisão, humor, ritmo e linguagem gestual tão eloquente quão discreta, etc., etc., etc., veio ressuscitar um pré-morto. Em tudo, o Rei utilizou o intraduzível understatement – a inimitável arte britânica de dizer menos para significar mais. É cultura de séculos consolidada.
Os Estados Unidos estão em festa em tudo quanto é cidade, vila ou aldeia, festa que vai ter o seu clímax no dia 4 de Julho, data da proclamação da Independência: são 250 anos.
Os aplausos, que fizeram levantar a Câmara inteira (Trump, no jantar de Estado por ele oferecido na Casa Branca ao Rei e à Raínha, nesse mesmo dia, acusou com humor o fenómeno) logo que Carlos entrou naquele enorme espaço do Congresso, prolongaram-se por uns minutos, sem que ainda o Rei tivesse aberto a boca. Quando o fez, foi interrompido várias vezes da mesma forma, com tudo em pé. Nunca visto.
O discurso no Congresso dos Estados Unidos em sessão conjunta ficou gravado nas paredes da democracia, uma masterclass imperecível. Foi o terceiro monarca britânico a fazê-lo na história e o primeiro em mais de três décadas.
O contexto é naturalmente complexo em múltiplas frentes, designadamente as que estão a abalar a very special relationship entre o Reino Unido e os EUA.
Os três discursos – dois do Rei (ao Congresso e no brinde do jantar) e o de Trump (no jantar de gala) – fizeram salivar a minha inglesice. E é sob a lente da inglesice – esse modo britânico particular de pensar, falar e habitar o mundo – que vale a pena lê-los lado a lado. Porque o que os discursos revelam, mais do que duas posições políticas, são duas culturas retóricas que se tocam sem, miraculosamente, tropeçarem uma na outra.
O discurso ao Congresso é uma peça de virtuosismo diplomático. Trinta minutos, longo para a concisão típica dos britânicos. Em quase nenhum ponto o Rei contrariou explicitamente o Presidente; em alguns, deu-lhe toques de cotovelo.
Quando Carlos diz “o Estado de Direito – a certeza de regras estáveis e acessíveis, um sistema judicial independente que resolve disputas e administra justiça imparcial”, está a falar de um princípio anglo-americano comum e, simultaneamente, a dar um certeiro toque a alguns.
A passagem mais frontal vem perto do fim: “rezo de todo o coração para que a nossa Aliança continue a defender os nossos valores partilhados, com os nossos parceiros na Europa e na Commonwealth, e por todo o mundo, e para que ignoremos os apelos clamorosos a tornarmo-nos cada vez mais voltados para dentro”. Os “apelos clamorosos” – clarion calls no original – são as palavras que toda a gente na sala soube identificar.
A defesa da Ucrânia é uma posição assumida pelo Rei e pelo Reino Unido face às posições do Presidente. E outras. Mas o que sustenta o conjunto é a profundidade temporal. Carlos não argumenta no horizonte cultural de quatro ou oito anos, mas sim de oito séculos. Desde a Magna Carta (1215) à Declaração de Direitos (1689), à Bill of Rights americana (1791)ou a Lincoln em Gettysburg. A história, dita assim, é o seu argumento principal. Quem fala em séculos não está preocupado com o momento que passa num ápice. Vê mais outros tantos séculos pela frente.
Mas o humor é o grande trunfo. Começou quando piscou o olho ao Presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Mike Johnson: “Como saberão, quando me dirijo ao meu próprio Parlamento em Westminster, ainda seguimos uma tradição antiga e tomamos um membro do Parlamento como ‘refém’, retendo-o no Palácio de Buckingham até ao meu regresso em segurança… Não sei, Senhor Presidente da Câmara, se houve algum voluntário hoje aqui para esse papel…?”. O gracejo da Magna Carta como o “anteontem” à escala britânica, e o “by Jove/por Júpiter, Mr. Speaker” é humor que vale o que pesa.
Se ao Congresso falou no registo institucional, no jantar Carlos passou ao registo pessoal. E é aqui que a piada se torna arma incontornável para qualquer ser dotado de inglesice.
A frase “se não fosse por nós, vocês estariam a falar francês…”. Num segundo, restaura-se uma simetria histórica que o Presidente quer ver centrada nos Estados Unidos.
A piada da East Wing é mais ousada: “Não posso deixar de notar os ‘reajustamentos’ à Ala Leste, Senhor Presidente. Lamento dizer que nós, britânicos, fizemos a nossa própria pequena tentativa de reconstrução imobiliária da Casa Branca em 1814”. De facto, os britânicos incendiaram a Casa Branca em 1814. Esta é uma piada ao Presidente que quer a remodelação do edifício com um polémico Ballroom. Toda a gente riu, claro. A subtileza é imbatível, e toda a gente a percebe.
A oferta do sino do submarino HMS Trump (1944) por Carlos III é uma atenção pessoal com Trump que deve ter deliciado a sua vanitas. E quando acrescentou “And should you ever need to get hold of us… well, just give us a ring”/“E, se alguma vez precisar de nos contactar… bem, dê-nos só um toque”, bateu tudo. A piada da Lua já ser parte da Commonwealth é resposta directa aos planos lunares que Trump anunciara dias antes; a observação de que o seu King’s Trust trabalha em comunidades americanas coloca o Rei numa posição filantrópica tão boa como a que é tradicional nos americanos. E é Real…
E há a referência shakespeariana no apelo à paz da peça Henrique V: “o meu discurso suplica que eu possa saber… porque é que a gentil Paz não… nos abençoa com as suas qualidades de outrora”. Citar a peça em que um rei inglês conquista a França é mais um movimento dentro da mesma estratégia: lembrar que quem tem oito séculos de estaleiro literário-político faz a diferença para quem tem “apenas” 250.
O contraste com o discurso de Trump é total. O britânico no seu máximo esplendor face a Hollywood, digamos. À parte já ninguém poder ouvir “Very, very special. Very special”, “Very, very dangerous”, “Tremendous skill. A lot of skill”, não houve da Parte do Presidente o modelo da retórica de Charles, mas uma sequência de momentos: pais fundadores, wild west, Antárctida, Lua, trincheiras da I Guerra, praias da Normandia, Coreia, Norte de África, Médio Oriente. Enumeração, sem brilho.
Mas dei 20 valores ao desvio de cerca de minuto e meio para falar do golfista Rory McIlroy, presente na sala, que duas semanas antes ganhara o dificílimo Masters de Augusta, envergando mais uma vez o glorioso casaco verde. “Onde está o Rory McIlroy? Pode levantar-se, Rory?”. E o Presidente interrompe o brinde ao Rei para dar os parabéns a McIlroy, antes de retomar onde tinha ficado: “Pronto, agora vou voltar ao meu discurso, Rory, OK?”. Puro Trump, pura desvinculação do Homem de Estado.
Depois foi diplomata, coisa pouco comum em Donald Trump, quando disse que o que distingue a América é a herança britânica. A combinação do patriotismo americano e do orgulho britânico é, segundo ele, “a força mais poderosa da história”. E o passo mais explícito: “Hoje, a maioria das antigas colónias da Grã-Bretanha não faz a menor ideia daquilo que verdadeiramente devem a este imponente legado de lei, liberdade e costume britânico que lhes foi dado”.
Os três discursos põem em diálogo, em duas horas, duas culturas – uma das quais estou agora a tentar dissecar noutra frente, não sei se bem.
A inglesice é uma economia de meios. É concisão. É humor. É cultura de séculos consolidada. Mas, claro,
E este texto remata com esta tirada magistral do Rei Carlos III, numa citação de Oscar Wilde: “we have really everything in common with America nowadays except, of course, language/ hoje em dia temos realmente tudo em comum com a América, excepto, é claro, a língua”.
Em suma: o Rei veio ressuscitar o modelo quase agonizante de uma cultura fortíssima.
Um electro-choque.