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(A) :: Tudo que é demais é moléstia

Tudo que é demais é moléstia

A Protecção Civil é muito eficaz a responder a ignições de baixo risco, mas não é capaz de gerir os fogos que se desenvolvem em condições meteorológicas extremas.

Henrique Pereira dos Santos
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Não tenho seguido com atenção as audições que estão a ocorrer na Assembleia da República sobre os negócios do fogo, mas vou ouvindo ecos aqui e ali.

Um destes dias foi ouvido o Comandante Nacional da Protecção Civil, um dos jornais da televisão passou um bocadinho, deitei as mãos à cabeça com o que ouvi, mas se escrevesse sempre que me irrito com o que ouço sobre a gestão do fogo, não fazia outra coisa. A minha intenção era deixar passar o assunto.

Mais tarde passou-me pelos olhos uma ligação para este artigo, e já de pé atrás com o que tinha ouvido, fui ler, com a esperança de encontrar algum bálsamo para a minha descrença nas políticas públicas de gestão do fogo. Li, reli e concluí: tudo o que é demais é moléstia, pelo que decidi citar entre aspas e em itálico, comentando no parágrafo seguinte:

O problema português, do ponto de vista dos incêndios rurais, não é uma questão de meios, de recursos. É uma questão de número de ocorrências e do tipo de paisagem que temos”.

Esta afirmação é semelhante a dizer que a rentabilidade de uma exploração agrícola não é uma questão de recursos e organização, a questão são os solos pobres e a falta de água. Ou dizer que o combate à sinistralidade rodoviária não é uma questão de recursos e organização, a questão é que existem condutores e automóveis. O número de ignições e a paisagem são dados do problema, o que seria normal é que a protecção civil soubesse isso e se preparasse para gerir a realidade que existe, em vez de se queixar que a realidade é a que existe. De resto, em Portugal, as ignições diminuíram para um terço, não diminuíram um terço, diminuíram para um terço, e isso não teve qualquer impacto na área ardida nem na gestão dos grandes incêndios. O maior incêndio registado no país, umas dezenas largas de hectares (65 mil), começa apenas com uma ignição, o relevante não é discutir se há muitas ou poucas ignições, a esmagadora maioria sem qualquer viabilidade de dar origem a um grande incêndio, o relevante está em perceber por que razões não foi possível travar esse fogo, acabando por afectar uma área descomunal.

Segundo o comandante nacional, o sistema responde e consegue ter uma eficácia de sucesso de 98%. “O que quer dizer que, do ponto de vista da coordenação, porque se assim não fosse, se nós não tivéssemos coordenação, recurso e capacidade para o fazer, não teríamos estas taxas tão elevadas de sucesso“.

Há anos que a protecção civil e os bombeiros usam este indicador de sucesso, e há anos que há quem explique, uma e outra e outra vez, que entre 2001 e 2025 (pode escolher-se outro intervalo de tempo, os resultados podem não ser exactamente os mesmos, mas são consistentes), 1,8% das ignições deram origem a 90% da área ardida, isto é, a Protecção Civil orgulha-se de ser eficaz em 98% dos casos, omitindo que esses 98% dos casos respondem por cerca de 10% da área ardida. A Protecção Civil é muito eficaz a responder a ignições de baixo risco (algumas que até seria muito útil deixar progredir, como é o caso de grande parte dos fogos de Outono, Inverno e Primavera), mas não é capaz de gerir os fogos que se desenvolvem em condições meteorológicas extremas. Os meios, a força bruta, os aviões, o número de operacionais projectados para o teatro de operações e etc., não substituem o conhecimento e capacidade de compreender o fogo que permite prever a sua evolução e preparar o terreno para matar à fome os fogos, em vez andar a correr atrás do fogo, de estrada em estrada, de aldeia em aldeia, para os tentar afogar com água, usando a feliz expressão de José Miguel Cardoso Pereira.

A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) tem vindo a verificar nos últimos anos que há um conjunto maior de ocorrências de incêndios nos dias de maior severidade meteorológica e durante a noite”.

Já faltava a conversa dos fogos nocturnos (era inevitável que os senhores deputados viessem com esta tolice) e da concentração de ignições nos dias de condições meteorológicas extremas. Isto está estudado e a Autoridade Nacional de Protecção Civil não pode estar a verificar uma coisa nos últimos anos quando sempre foi, e será, assim: o número de ignições registadas no sistema depende das condições de propagação do fogo, que são muito favoráveis à progresso do fogo nos dias de meteorologia extrema. É inevitável que haja muito mais ignições que progridem rapidamente ao ponto de ser registadas no sistema em dias de meteorologia extrema, e que tenham uma concentração regional (se estão confusos perguntem a Carlos da Câmara, que há anos estuda o clima relacionado com a ocorrência dos incêndios e todos os anos identifica, com alguns — poucos, dois ou três de maneira geral — dias de antecedência, e com grande precisão geográfica, onde vai arder no dia seguinte).

Importa sublinhar um dado operacional relevante. Apesar da diminuição do número total de incêndios ao longo do ano, verifica-se um aumento da concentração de ocorrências nos dias de maior severidade meteorológica, incluindo no período noturno. Em 2025, houve dias em que as ocorrências noturnas representaram cerca de 50% do total desse dia”.

É um dado operacional relevante, tal como é um dado operacional relevante saber que quando chove o terreno fica molhado. Quanto mais eficaz se é a eliminar os pequenos e médios fogos, mais se concentram os problemas dias de meteorologia extrema, é uma coisa relacionada com um conceito mais que conhecido e reconhecido, o paradoxo do fogo.

Bem sei que não é fácil ao Comandante Nacional da Protecção Civil responder racionalmente a questões colocadas por deputados que insistem em preconceitos e irrelevâncias (o próprio âmbito da comissão parlamentar é fruto dessa ideia do senso comum, mas a que falta um mínimo de bom senso, de que o padrão de fogo que existe em Portugal, e a ineficiência do combate, resultam de nebulosos negócios inconfessáveis), mas poderia começar por responder a perguntas que nem deputados, nem jornalistas lhe fazem, apesar da sua resposta ser uma responsabilidade que a lei lhe atribui: quanto custa o combate a cada incêndio?

É uma sugestão que faço, quando estiver a prestar declarações sobre incêndios que já estão dominados e coisas que tais, para além de falar dos carros, aviões, operacionais e etc., que é sempre referido, responda a esta pergunta: quanto custou esse combate em concreto?

Talvez assim nos deixemos desta política de atirar cada vez mais dinheiro para cima do problema dos incêndios, onde se tem verificado o resultado clássico de desaparecer o dinheiro ou o problema, mas até agora nunca calhou ser o problema.