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Simplesmente ser

A arte vale por si, fala por si, e merece ter espaço para respirar, longe da instrumentalização e da captura ideológica.

António Pedro Barreiro
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Para que serve a arte? Que papel lhe é devido no grande esquema das coisas? Estas perguntas espreitam, hesitantes, à soleira de todas as épocas históricas. E no nosso tempo, em que tudo parece medir-se segundo o crivo da utilidade e da eficiência, mordem-nos com mais afinco.

Assisti há dias a uma reveladora entrevista da fadista Carminho, concedida a propósito do seu novo álbum Eu vou morrer de amor ou resistir.

Carminho alcançou, aos 41 anos, uma carreira de invulgar qualidade. Nascida no berço do fado, filha da fadista Teresa Siqueira, levou a música nacional aos cinco continentes. Não há nome prestigiado da música brasileira que não tenha partilhado palco com ela. Em 2023, na esplanada do Parque Tejo, cantou diante do Deus vivo, exposto em adoração eucarística, e trouxe na voz as preces de mais de um milhão de jovens e do Papa Francisco, que assistiam, em silêncio, à sua oração. No ano seguinte, gravou um álbum em Chicago, co-produzido por Steve Albini. Contracenou com Emma Stone em Poor Things, do realizador Yorgos Lanthimos, e fez Hollywood render-se à força do fado. Já neste ano, ofereceu à espanhola Rosalía a música Memória, que ambas cantam em dueto. Um fado com uma história antiga e curiosa, aquibem contada por Francisco Guimarães.

Os factos que refiro não lhe esgotam a carreira, mas bastariam certamente para preencher uma breve entrevista numa televisão nacional. Só que, para a jornalista, não bastaram.

Com pedagógica condescendência, passou longos minutos a tentar convencer Carminho a pronunciar-se sobre o estado do mundo. Procurava uma palavra sábia sobre a crise da democracia, um grito de alerta contra a cavalgada fascista, um lamento nobre sobre Gaza ou as calotes polares. Por fim, nada conseguindo, pediu que a entrevistada comentasse, ao menos, as polémicas sobre o Festival da Canção.

“Está a insistir”, dizia Carminho. E estava mesmo. Só que a insistência não era inocente. Trazia consigo uma censura implícita. Essa ideia, hoje tão disseminada, de que a arte e a cultura constituem lugares de fala e de que os artistas, alcandorados ao estatuto da fama, têm de servir-se do estrelato como plataforma para denúncias várias.

É uma ideia perigosa. Parte do princípio de que a arte, em si mesma, pouco vale. É uma espécie de excentricidade frívola, uma produção esteticamente agradável, que encanta os sentidos, mas só ganha verdadeiro valor social quando é pespegada a uma qualquer sinalização de virtude.

Ora, a boa música é mais do que a banda sonora da manifestação dos virtuosos. A pintura de qualidade é mais do que um panfleto ilustrativo da indignação mais recente da moral pública. A arte vale por si, fala por si e merece ter espaço para respirar, longe da instrumentalização e da captura ideológica seja de quem for.

Carminho não nos deve nada. Construiu, nestas décadas de carreira, uma presença única no panorama da música nacional. Uma síntese entre o antigo e o novo, entre a tradição e o talento. Uniu melodias antigas, nascidas em vielas e botecos, a poemas de Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Vasco Graça Moura e David Mourão-Ferreira. Herdou e criou, arriscou e venceu.

Continua assim o meticuloso trabalho de Amália, cosendo com afinco a alta poesia e a música popular, o povo e as elites, o fado e os outros estilos musicais, o país e o mundo, os ambientes mais castiços e o vanguardismo cosmopolita. Canta as desventuras do Homem, os meandros do coração e do espírito, os encontros e desencontros da vida, a família e a comunidade, a saudade e o amor. Canta a política na sua acepção mais nobre e profunda, que não se confunde com indignações avulsas, mas cresce no fundo das almas e na natureza gregária da pessoa humana.

Que alguém com este percurso recuse deixar-se afogar na espuma dos dias é, para todos nós, um excelente e promissor sinal. Sinal de uma arte livre, que não faz favores, nem precisa de parecer. Basta-lhe mesmo, mesmo, simplesmente ser.