Pedro Nuno Santos é como aquelas jovens promessas que venceram o Festival de Pequenos Cantores de Rimini, mas depois viram a carreira desabar logo que passaram pela mudança de voz. Todos eles, chegando à idade adulta, perceberam, com nostalgia e frustração, que tinham um grande futuro atrás deles.
Compreensivelmente, nem todas as pessoas se conformam com essas injustiças da vida. Nestes dias, tem-se percebido que vários ativistas entendem que, apesar das evidências eleitorais, Pedro Nuno Santos pode ainda ser o grande líder da esquerda em Portugal. Para isso, pelos vistos, bastar-lhe-á libertar-se do peso morto do PS e lançar, com força, fé e fezada, um novo movimento político agregador de todos os descontentamentos e radicalismos do novo jacobinismo. Na cabeça desses entusiastas, Pedro Nuno Santos deixaria o PS repetindo a frase do ilustrador e humorista brasileiro Millôr Fernandes quando se demitiu de um jornal depois de entrar em conflito com os chefes: “Sinto-me como um navio a abandonar os ratos”.
Segundo parece, até haverá um exemplo internacional que ajuda a iluminar o caminho: Pedro Nuno Santos seria o novo Jean-Luc Mélenchon, o homem que saiu do PS francês para baralhar a esquerda com o movimento França Insubmissa. Percebo o ponto, mas, a mim, Pedro Nuno Santos não faz lembrar Mélenchon — faz lembrar Tony Benn. Como explicou o historiador Dominic Sandbrook no livro Seasons in the Sun, os minoritários mas fervorosos admiradores de Benn viam-no, nos anos 60 e 70, como “o campeão do socialismo” e ele próprio “nunca duvidou de que falava em nome do povo, de que só ele tinha a solução para os problemas da Grã‑Bretanha e de que, um dia, conduziria o Partido Trabalhista para a terra prometida do socialismo”. Mas a maior parte dos camaradas de Tony Benn no Labour olhavam para ele de forma menos entusiasmada — sabiam que a impetuosidade era apenas um substituto para a notória falta de experiência de vida. Filho de um aristocrata, Benn herdou um título nobiliárquico (que depois viria a repudiar) e nunca teve de trabalhar sem ser como político, passando apenas muito brevemente pela BBC como produtor. Foi rapidamente eleito deputado, aos 25 anos. Sendo um privilegiado, tal como Pedro Nuno Santos, “não sabia rigorosamente nada sobre a forma como viviam e pensavam as pessoas da classe trabalhadora”. Mas, escreve Sandbrook, “isso só tornava mais fácil romantizá‑las”. Ele “venerava a classe trabalhadora, as suas tradições e instituições e, em especial, os sindicatos, como só alguém de origem aristocrática o pode fazer”. Não seria difícil imaginar Benn a proferir discursos arrebatadores sobre as gaspeadeiras.
Quando foi promovido a ministro, Tony Benn chegou a ter, vejam a coincidência, a pasta do desenvolvimento do avião Concorde, que ele defendeu entusiasticamente apesar de o projeto se ter tornado num desvairado sugadouro de dinheiros públicos. Mas ele não queria ser apenas um gestor burocrático de políticas públicas. Por isso, entrou rapidamente em ruptura com o resto do governo, com o primeiro-ministro — e até com os aliados de sempre. Um amigo comentou na época que “ninguém duvida da sinceridade com que ele se vê a si próprio como um Messias”. Uma seguidora desabafou que tanto ela como outros admiradores de Benn “começavam a fartar‑se da sua evidente determinação em assumir poses em público sempre que pode”. Comportando-se como “um pregador”, agia à margem do Conselho de Ministros para tentar mobilizar as massas para o socialismo. Inevitavelmente, caía no ridículo. Como notou Sandbrook, “quanto mais Benn se alimentava da sua própria retórica, mais se aproximava da auto‑paródia”. No momento difícil em que a Grã-Bretanha teve de pedir apoio ao FMI, os ministros riram-se quando o ouviram sugerir que uma alternativa credível a essa humilhação seria instituir no país uma “economia de cerco”, proibindo todas as importações.
A dada altura, fartos e cansados, dois ministros decidiram apelar ao chefe do governo para que acabasse com aquele espectáculo. Harold Wilson desvalorizou: “Não o levem a sério”. Mas os queixosos insistiram: “O Benn sabe exactamente o que está a fazer, trata‑se de uma campanha calculada para chegar à liderança”.
Era mesmo isso que estava em causa, mas o Labour nunca permitiu que um autoproclamado “Messias” tomasse conta do partido. De facto, os britânicos sempre tiveram mais juízo do que nós.