O julgamento do chamado “Caso Koldo”, o processo de corrupção que está a abalar o governo espanhol e que envolveu pela primeira vez o topo da esfera política de Madrid, entrou esta semana na fase crítica com o depoimento do empresário que está no centro do esquema a lançar suspeitas concretas sobre o próprio presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez.
O caso começou em março de 2022, quando o Partido Popular (PP), da oposição, denunciou às autoridades espanholas um conjunto de irregularidades relacionadas com contratos para a compra de máscaras de proteção durante a pandemia da Covid-19, a um preço muito mais elevado do que o preço de mercado daqueles produtos, o que podia ter lesado o estado espanhol em vários milhões de euros.
https://observador.pt/2026/04/05/ex-ministro-de-sanchez-comeca-a-ser-julgado-por-corrupcao/
No centro do esquema estão, essencialmente, três pessoas: o empresário Víctor de Aldama, antigo presidente do Zamora Club de Fútbol, que teria sido a parte ativa deste esquema de corrupção; o então ministro dos Transportes do governo de Sánchez, José Luis Ábalos, que teria sido subornado por Aldama com dinheiro e com casas em troca de adjudicações de contratos públicos; e finalmente o ex-assessor do ministro, Koldo García (que dá nome ao caso), que era considerado o mais influente conselheiro de Ábalos e que terá sido o intermediário destes contactos.
Com o objetivo de evitar uma pesada pena de prisão, o empresário Víctor de Aldama decidiu, em novembro de 2024, assumir a culpa, colaborar com as autoridades e incriminar Ábalos e García, revelando os detalhes do caso.
Na ocasião, Aldama revelou à polícia que procurou entrar em contacto com Koldo García em 2018, através do seu irmão, Ruben de Aldama, que era próximo de García (ambos tinham sido guarda-costas no passado e conheciam-se bem). Foi a partir desse primeiro contacto que Víctor de Aldama começou a estar em contacto próximo com a cúpula do Ministério dos Transportes. A dada altura, o empresário já circulava livremente nas instalações do ministério, entrando regularmente na zona privada do ministro.

Aldama revelou também um conjunto de detalhes do esquema que acabou por montar, incluindo um pagamento mensal de cerca de 10 mil euros a Koldo García, com o objetivo de comprar a influência junto do gabinete ministerial, a compra de casas para o ministro e para a sua companheira e o pagamento de comissões com o objetivo de manipular a adjudicação de diferentes contratos. Rapidamente se percebeu que o caso ia além dos contratos relacionados com as máscaras, envolvendo também a tentativa por parte de Aldama de influenciar um resgate estatal da Air Europa após a pandemia ou a intenção de facilitar uma licença para uma empresa de um sócio.
Mas os contratos relacionados com as máscaras para a Covid-19 terão mesmo sido o pico do caso: só com eles, o empresário terá conseguido lucrar mais de seis milhões de euros.
O relatório da Unidade Central Operativa da Guarda Civil, que investigou o caso, não deixava margem para dúvidas de que o ministro dos Transportes, o seu assessor e o empresário constituíam uma rede criminosa que lesou o estado espanhol para beneficiar diretamente os interesses particulares dos envolvidos e de vários empresários que ficaram com os contratos. Em resposta, Pedro Sánchez, presidente do governo e líder do PSOE, garantiu que não haveria impunidade. Ábalos, que já havia sido substituído no governo em 2021, enfrentaria um processo interno de expulsão do partido — e, numa tentativa de contenção dos danos para o governo e para os socialistas, Sánchez procurou que apenas Ábalos e García fossem incriminados.
Quando, no final de 2024, o El Mundo publicou uma fotografia de Pedro Sánchez e Víctor de Aldama, o caso adensou-se — e começaram a surgir questões sobre o verdadeiro grau de conhecimento que Sánchez teria daquela rede de corrupção. A revelação fez com que se avolumassem as suspeitas sobre Sánchez, já manchado por outros casos (particularmente aquele que envolve a sua mulher, Begoña Gómez).

O caso Koldo chegou à fase de julgamento no início de abril. Perante o Supremo Tribunal (aquele que tem a capacidade para julgar um antigo ministro por crimes praticados durante o mandato), foram ouvidas mais de 70 testemunhas e perto de 20 peritos — mas a grande expectativa estava no que aconteceria nos últimos dias, quando finalmente fossem ouvidos os três protagonistas da história.
Koldo García, José Luis Ábalos e Víctor de Aldama chegaram ao tribunal acusados de uma série de crimes (suborno, tráfico de influências, desvio de dinheiro público, integração em organização criminosa, uso e aproveitamento de informação privilegiada, falsificação e prevaricação), mas em situações bastante diferentes: o ex-ministro e o seu ex-assessor continuam em prisão preventiva e enfrentam penas em torno dos 20 anos de prisão; já o empresário, por ter colaborado com as autoridades, encontra-se em liberdade e enfrenta a possibilidade de uma pena menor, de até sete anos.
A estratégia de Aldama, que passou por incriminar Ábalos e García, gerou forte tensão entre as defesas (os três arguidos, apesar de sentados no mesmo banco, tiveram de ser separados por um agente da polícia) e aumentou a expectativa sobre o que poderia acontecer na quarta-feira, quando Aldama se sentou no banco dos réus para depor.
Uma mochila com 250 mil euros
O empresário que denunciou o esquema para fugir a uma pena mais pesada falou durante oito horas e adensou ainda mais a controvérsia, envolvendo diretamente Pedro Sánchez no esquema e garantindo que uma grande parte do dinheiro que chegou ilicitamente ao ministro e ao assessor tinha como objetivo financiar o PSOE.
“Se existe uma hierarquia, e eu obviamente faço parte do grupo organizado, o presidente [do governo] está no topo; o sr. Ábalos na base; o sr. Koldo García na base; e eu na base”, disse o empresário no arranque do seu longo depoimento, no qual confirmou que agilizou o pagamento de múltiplos subornos ao ex-ministro e ao ex-assessor com origem em empresários.
Aldama confirmou que conheceu Sánchez em 2019, num comício onde esteve a convite de Ábalos e García. Quando se cumprimentaram, Sánchez terá dito a Aldama: “Muito obrigado, sei de tudo o que está a fazer.” A revelação desta interação causou espanto no tribunal. Aldama já conhecia o ministro e o assessor desde o ano anterior e, garante, foi por eles arrastado para uma “roleta russa” de comissões e subornos. Só entre 2019 e 2022 terá feito chegar ao governante quase 4 milhões de euros.
https://observador.pt/especiais/milhoes-de-euros-em-mascaras-e-as-ligacoes-a-portugal-nove-respostas-sobre-koldo-o-caso-que-mancha-a-imagem-do-governo-de-sanchez/
Ao tribunal, Aldama disse que foi Koldo García quem lhe pediu que servisse de intermediário, fazendo chegar ao ministério a “comissão” que os empresários estavam dispostos a pagar em troca da adjudicação de um contrato. “Entendo que não é uma relação típica”, admitiu o empresário em tribunal, citado pelo El País. “Não me sinto totalmente à vontade, mas também não me sinto desconfortável. Sou um empresário e coloquei todos os meus contactos à disposição.”
Esta intermediação seguia sempre o mesmo esquema, revelou Aldama. As empresas de construção deviam escolher os concursos em que queriam participar. “Deviam escolher três projetos. Para um apresentavam uma proposta anormalmente baixa; para outro, uma proposta abaixo do valor estabelecido; e para o terceiro uma proposta acima, para que ganhassem a licitação“, explicou o empresário.
A contrapartida era entregue em dinheiro no ministério ou na casa do ministro, muitas vezes pelo próprio Aldama — que chegou a levar uma mochila com 250 mil euros em notas para o ministério.

De acordo com o empresário, o ministro e o assessor sempre lhe disseram “que parte do dinheiro era para o partido“. Aldama diz que perguntou a Koldo e se o próprio Pedro Sánchez estava a par. “Ele disse-me que o presidente do Governo estava plenamente ciente de tudo o que fazíamos”, sublinhou. Só entre 2019 e 2020 seguiram para o PSOE mais de 1,8 milhões de euros, de acordo com Aldama.
O empresário fez questão de salientar que Koldo García era o responsável por todos estes contactos dentro do governo — e que tinha uma grande familiariade com Pedro Sánchez, a quem chamava simplesmente “Pedro”.
No depoimento, Aldama também confirmou o pagamento fixo de 10 mil euros a Koldo García com o objetivo de cobrir despesas do ministro, bem como as casas que a organização colocou à disposição do ministro e da sua ex-companheira, Jéssica Rodríguez. Como recorda o El País, os contratos relacionados com as máscaras, apesar de terem sido o gatilho do caso, acabaram por ocupar apenas meia hora do depoimento de Aldama, que admitiu que a proximidade que conseguiu estabelecer com o gabinete do ministro o levou a beneficiar financeiramente naquele caso.
Koldo admite atuação “proativa”
No dia seguinte, quinta-feira, foi a vez de Koldo García falar em tribunal, num dos depoimentos mais esperados do julgamento. A expectativa era grande sobre se as defesas do ex-ministro e do ex-assessor usariam uma estratégia concertada para se defender das acusações lançadas não só pelo Ministério Público, mas também pelo empresário Víctor de Aldama.
Novamente, o depoimento durou todo o dia — foram sete horas e meia — e o antigo assessor de Ábalos procurou defender-se apresentando-se como um mero funcionário do ministro, evidenciando a sua lealdade profissional e rejeitando qualquer atividade ilícita. Logo no arranque, o homem que a polícia considera estar no centro de todo o esquema garantiu que mais não era do que um ajudante do ministro: “O sr. Ábalos era um homem com muito trabalho e eu tratava das coisas mundanas para que ele se pudesse dedicar ao que era importante.”

Assegurando que nunca procurou interceder por interesses particulares, García negou a acusação lançada no dia anterior de que houvesse comissões a serem entregues ao ministério com o objetivo de financiar o PSOE — e procurou dar respostas a todas as acusações de que foi alvo a partir da ideia de que nunca teve qualquer poder efetivo para tomar decisões.
“Eu não tinha qualquer poder de decisão. Não tomo decisões. Transmito aquilo de que cada empresa precisa e elas decidem o que têm de fazer. Como é que eu poderia decidir sobre a compra de máscaras? Eu transmito as necessidades de cada indivíduo, sim, isso foi o que eu fiz”, declarou ainda Koldo García. Relativamente a outras acusações, como a de que o ministro recebeu uma casa para a sua ex-companheira, o antigo assessor disse apenas que um empresário alugou uma casa porque precisava de um lugar para fazer reuniões — e García achou que o imóvel podia servir, temporariamente, para hospedar a mulher.
Numa tentativa de proteger o antigo ministro, Koldo García assumiu a responsabilidade por uma atuação demasiado “proativa” em alguns momentos, assumindo por exemplo que foi ele quem facilitou algumas reuniões sem contactar previamente Ábalos.
García também assumiu a sua intervenção no processo das máscaras, mas garantiu que o fez sempre de forma legal e que recebeu inúmeros contactos com ofertas de máscaras, tendo aceitado todos. O antigo assessor foi mais longe e garantiu que usou os seus contactos, incluindo a amizade com Aldama, para maximizar o equipamento médico que Espanha conseguia obter — mas não sabia dos lucros de seis milhões de euros que o empresário recebeu.
Quanto ao facto de a investigação judicial ter encontrado grandes quantidades de dinheiro vivo com García, o antigo assessor justificou-se com o facto de ter recebido esse dinheiro diretamente do PSOE como contrapartida de despesas que adiantou durante campanhas eleitorais — algo que o partido veio, de imediato, desmentir.
O ex-assessor do ministro dos Transportes, no entanto, assumiu uma inclinação pessoal para “ajudar” qualquer pessoa que lhe fizesse um pedido, o que, diz, esteve por trás de ações como o pagamento da renda de um apartamento em Madrid para a antiga companheira do ministro ou do encaminhamento do currículo dela para entidades durante uma busca de emprego.
Uma vez que os depoimentos de García e Aldama demoraram várias horas, a audição do ex-ministro José Luis Ábalos foi adiada para a próxima segunda-feira, dia 4 de maio. O desfecho do caso — que no passado já levou o PP a exigir a demissão de Pedro Sánchez — poderá agora revelar-se decisivo para a liderança do PSOE, crescentemente cercado pela oposição na sequência da investigação.