Há uma ironia histórica no facto de o Acordo Mercosul–União Europeia ter entrado em vigor a 1.º de maio de 2026 — precisamente no momento em que os aeroportos de Milão racionam querosene, a Alemanha paga o gás natural a preços de emergência e os europeus enchem o carrinho do supermercado com cada visita a custar mais. Durante 26 anos, a Europa negociou com o Brasil como quem negoceia com um fornecedor inconveniente — alguém de quem se precisa, mas que não se quer à mesa. O acordo que agora finalmente começa a vigorar deveria levar a Europa a perguntar-se: quanto custaram estes 26 anos de arrogância proteccionista?
Como brasileiro que viveu em Portugal durante o doutoramento em Contabilidade na Universidade do Minho e na Universidade de Aveiro, e que trabalha há anos na estruturação financeira internacional, conheço os dois lados desta equação. E posso dizê-lo com a clareza que os números permitem: a Europa atrasou um acordo de que precisava muito mais do que imaginava.
O celeiro que a Europa subestimou
Quando os agricultores franceses bloqueiam estradas com tractores e exigem protecção contra a «concorrência desleal» do Brasil, estão a invocar um fantasma que não corresponde à realidade. O Brasil de 2026 não é o país de agricultura extensiva e predadora que o imaginário europeu retrata. É uma potência agrícola de alta tecnologia que, com apenas 8% do seu território ocupado por cultivos — menos do que os 14% da Argentina, os 18% dos Estados Unidos ou os 58% da França —, conseguiu produzir uma colheita recorde de 352,2 milhões de toneladas de cereais e oleaginosas em 2025, um incremento de 17% face ao ciclo anterior.
Os números são vertiginosos. O agronegócio brasileiro gerou 169,2 mil milhões de dólares em exportações em 2025, representando 48,5% de tudo o que o país vendeu ao exterior. O Brasil é hoje o maior exportador mundial de soja — com 56% das exportações globais —, de açúcar (44%), de sumo de laranja (76%), de café (27%), liderando igualmente nas carnes de bovino e de frango. Com pouco mais de 200 milhões de habitantes, o país produz alimentos suficientes para as necessidades calóricas de aproximadamente 900 milhões de pessoas. A União Europeia, por seu lado, continua a importar a maior parte da sua energia e enfrenta uma crise agrícola crónica em países como a França, onde 58% do território está cultivado e os agricultores, mesmo assim, não conseguem competir em preço sem os subsídios massivos da PAC.
A produtividade agrícola brasileira cresceu 58% desde o ano 2000 — mais do que os 37% dos países emergentes e os 32% das economias avançadas no mesmo período. Este número não é resultado de exploração predadora; é o resultado de décadas de investimento em inovação agrícola, liderado pela Embrapa — Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária —, uma instituição de investigação aplicada que desenvolveu variedades adaptadas ao clima tropical, sistemas de produção de baixo carbono e tecnologias de precisão que são hoje referência mundial. O Brasil não é apenas um produtor; é um laboratório de agricultura de alta performance em latitude tropical — algo que a Europa, com o seu clima temperado, simplesmente não consegue replicar.
A indústria que Bruxelas não viu
Mas reduzir o Brasil a um exportador de matérias-primas agrícolas é um erro analítico que os negociadores europeus cometeram durante um quarto de século. Há uma indústria brasileira de alta tecnologia que a Europa tem ignorado — e que este acordo começa, finalmente, a colocar no radar correcto.
A Embraer é o exemplo mais eloquente. Terceira maior fabricante mundial de aviões civis, a seguir apenas à Boeing e à Airbus, a empresa brasileira entregou já mais de 9.000 aeronaves a mais de 100 países, possui uma carteira de encomendas avaliada em 21,1 mil milhões de dólares e detém mais de 800 patentes activas. Quando a Europa discute a crise do querosene e a transição para a aviação sustentável, convém recordar que a Embraer certificou, já em 2004, o primeiro avião do mundo a voar a etanol — e que desenvolve hoje a Eve, uma plataforma de mobilidade aérea urbana eléctrica que compete com os melhores projectos norte-americanos e europeus do sector.
E, por falar em etanol: o Brasil é o país com a mais longa e testada experiência mundial em biocombustíveis. O programa Pró-Álcool, lançado em 1975, não foi um projecto académico — foi uma política industrial que durante 50 anos aperfeiçoou a tecnologia de produção de etanol a um custo e a uma escala que nenhum outro país atingiu. Num momento em que a Europa enfrenta uma crise grave de abastecimento de combustível sustentável de aviação (SAF) — com o próprio Director-Geral da IATA a declarar impossível a meta de 10% até 2030 —, o Brasil é o único país com capacidade industrial instalada e tecnologia madura para fornecer SAF de base biológica à escala de que a Europa necessita. Estimativas do BCG apontam para que a procura europeia de biocombustíveis de segunda geração possa crescer entre 10 e 20 milhões de toneladas só nesta década — uma oportunidade de 15 a 30 mil milhões de dólares. O Brasil está posicionado para capturar parte substancial desse mercado.
O acordo que convinha a todos — menos aos proteccionistas
O que entrou em vigor a 1.º de maio é uma das maiores zonas de livre comércio da história: 31 países, 720 milhões de habitantes, cerca de 22 biliões de dólares em PIB combinado. A União Europeia eliminará tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul, no valor de 61 mil milhões de dólares, e concederá acesso preferencial a outros 7,5%. Em contrapartida, o Mercosul zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus num prazo de até 15 anos.
Para Portugal, o acordo tem uma dimensão estratégica que transcende o simples comércio. O Brasil é já o maior fornecedor de energia de Portugal, com 17,8% do total importado em 2023. O acordo abre a possibilidade de aprofundar esta relação energética — incluindo, potencialmente, o fornecimento de biocombustíveis brasileiros para a aviação portuguesa —, ao mesmo tempo que facilita o acesso das empresas portuguesas ao mercado brasileiro de 215 milhões de consumidores, historicamente protegido por tarifas elevadíssimas.
Os que resistiram a este acordo — sobretudo a França, com o apoio da Polónia, Irlanda e Áustria — fizeram-no em nome da protecção de sectores agrícolas que, sem subsídios europeus massivos, já não seriam competitivos no mercado global. O proteccionismo tem sempre um custo, e esse custo é pago, como sempre, pelo consumidor final: no preço dos alimentos, na factura da energia e nas tarifas aéreas.
Durante 26 anos, a Europa escolheu pagar esse custo. Agora que o acordo finalmente existe, é tempo de perceber o que esteve a pagar — e o que pode ganhar.
O Brasil não precisa de piedade nem de paternalismo europeu. Precisa do que qualquer economia competitiva exige: regras claras, acesso a mercados e respeito pela qualidade daquilo que produz. O acordo Mercosul–UE dá exactamente isso. Com 26 anos de atraso, mas dá.