Na primeira parte desta história, analisada no artigo anterior, conhecemos o início da história de Laura, uma mãe alienada afastada do filho num processo marcado por dor, conflitos e ausência. Nesta segunda parte, seguimos o caminho que se prolonga no tempo, as marcas que ficam, o crescimento do filho no meio do conflito e a resistência silenciosa de um amor que não desaparece, mesmo quando a distância se instala.
Com o passar do tempo, as decisões formais não trouxeram a tranquilidade que Laura esperava. Aquilo que parecia, à partida, uma solução equilibrada acabou por se revelar difícil de viver no dia a dia. Como nos testemunhou: “Finalmente chegou setembro e com a abertura dos tribunais foi possível então definir a guarda partilhada do José. A guarda partilhada parece fazer sentido, nenhum dos dois se opôs, no entanto como se pode partilhar a guarda de uma criança quando não existe respeito e os pais não estão sintonizados enquanto casal parental”. Na prática, sem diálogo e sem respeito entre os pais, aquilo que deveria proteger a criança acaba por se transformar numa nova fonte de tensão. Torna-se quase impossível garantir estabilidade, deixando a criança no meio de um conflito que parece não ter fim.
Ao mesmo tempo, Laura sentiu que, ao longo de todo o processo, foi sendo construída uma imagem negativa sobre si, como se a sua forma de ser mãe estivesse constantemente a ser posta em causa: “Tentaram de tudo…desde construir a imagem de que era uma pessoa agressiva, que era ausente, que não tinha rede de apoio, que trabalhava de forma excessiva, que não fazia atividades com o José”. Situações como esta magoam profundamente, porque não afetam apenas a relação com o filho — atingem também a identidade da mãe e a forma como passa a ser vista pelos outros.
Houve momentos ainda mais difíceis, que Laura recordou como especialmente graves e assustadores. Como relatou: “Tentaram até raptar o José…aproveitando a debilidade da minha mãe (doente com limitações decorrentes de um AVC) e a minha ausência durante um turno. Esperaram que o meu pai saísse de casa para tocarem a campainha, a minha mãe abriu a porta e de imediato pegaram no José e saíram para as escadas, felizmente o meu pai chegou logo e impediu o pior. Mas não deixou de ser um episódio terrível que deixou marcas em todos, sobretudo no José”. Este episódio trouxe o medo e um sentimento de insegurança que nenhuma mãe e filho deveriam ter que viver.
À medida que o José foi crescendo, o conflito nunca deixou de estar presente, nem mesmo nos momentos que deveriam ser de alegria: “O José entrou na escola e foi crescendo, houve sempre momentos muito tensos! Os momentos que deveriam ser de felicidade como o início do ano, as festas de aniversário, a festa do colégio, eram sempre vividos com muita tensão”. O que devia ser leve e feliz acabava por ser vivido com ansiedade, mostrando como o conflito se foi infiltrando no dia a dia da criança.
Perante tudo isto, Laura escolheu muitas vezes o silêncio. Evitou confrontos, mesmo quando isso lhe custava, na tentativa de proteger o filho de mais tensão. Como admitiu:
“Quantos abraços não recebi, quantos beijos ficaram por dar. Optei sempre por ser passiva para não aumentar ainda mais a tensão”. Foi a forma que encontrou para tentar manter alguma paz, ainda que isso significasse guardar para si a dor e a saudade.
Mesmo quando existiam regras definidas, Laura sentiu que, muitas vezes, não eram respeitadas. Como referiu: “As regras estavam definidas no acordo de parentalidade mas houve sempre muitos atropelos… dias da mãe negados, férias esticadas por dias que já nem faziam parte, festas que se esticavam por um almoço, depois o lanche… o jantar, a pernoita”. Com o tempo, estas situações foram-se acumulando, aumentando a sensação de injustiça e o desgaste emocional.
Ao longo de todo este percurso, Laura sentiu, muitas vezes, que não encontrou nas instituições o apoio de que precisava. Para ela, os processos são lentos, complexos e nem sempre dão resposta às situações com a urgência que estas exigem. Como desabafa:
“os tribunais não são a solução, porque há sempre situações de outras crianças, mais importantes e mais relevantes”. Esta perceção de que o seu caso não é prioritário fez com que se sentisse esquecida e sem proteção. A falta de respostas rápidas e eficazes aumentou o sentimento de desamparo, como se estivesse a enfrentar tudo sozinha, numa luta difícil e desgastante.
Com o passar do tempo, tudo o que aconteceu foi deixando marcas difíceis de apagar. Como Laura reconheceu: “Recorrer a advogados é dispendioso acrescer esta vivência a uma criança é em si demasiado violento… A soma de todos estes acontecimentos foi deixando marcas”. São feridas que se acumulam em silêncio, moldando emoções, memórias e a forma como vive esta relação — marcas que ficam para além do tempo.
A situação tornou-se ainda mais difícil quando Laura começou a sentir o afastamento emocional do filho. Como nos contou: “O afastamento do José por mim chegou com grande intensidade depois do José ter um irmão do lado do pai. A angústia com que se dirigiu à psicóloga da escola porque tinha um segredo muito grande, que guardou durante meses e que nem a mãe podia saber”. Este momento trouxe ainda mais dor, porque revelou sinais de conflito interno na criança. A existência de segredos que não conseguiam partilhar, mostra o peso emocional que também ele carregava. Como se percebe nas suas palavras: “…tinha um segredo muito grande…” que corresponde a um silêncio que fala por si, um sinal de sofrimento que nem sempre é visível, mas que está profundamente presente.
Perante todas estas dificuldades, a família procurou ajuda junto de vários profissionais, numa tentativa de encontrar respostas e apoio. Laura partilhou-nos que: “Desde então vivemos entre psicólogos, terapeutas familiares, psiquiatras, pediatras e professores”. Foi um caminho feito de procura constante, na esperança de compreender e aliviar o impacto de uma situação tão complexa.
Hoje, Laura descreve o José como um jovem equilibrado em muitos aspetos, com qualidades reconhecidas por quem o acompanha. Ainda assim, existe uma dor difícil de conciliar – a sua recusa em estar com a mãe: “Tem sido um caminho íngreme e cheio de encruzilhadas. O José é atualmente um adolescente doce, companheiro e excelente aluno. Afirma veementemente que não quer estar comigo… nesta fase é o que acha que faz sentido”. Esta realidade revela a complexidade da situação, um jovem que parece estar bem em vários aspetos da sua vida, mas que mantém uma distância emocional profunda da mãe, deixando um vazio difícil de preencher.
Apesar de tudo, Laura mantém-se firme no seu papel e no amor que sente pelo filho. Mesmo perante a distância, não desiste do lugar de mãe. Como afirmou: “Sabe e pode ter a certeza que sou a sua única mãe quem o vai amar sempre e que estará sempre disponível para o apoiar e proteger mesmo quando ele não quer”. É um amor que permanece constante, paciente e incondicional mesmo na ausência de relação.
A história de Laura, mãe alienada, não termina aqui. Como tantas outras, permanece em aberto. Neste Dia da Mãe, o seu testemunho lembra-nos que há mães que amam à distância, que esperam em silêncio, e que resistem, mesmo quando o colo está vazio. Porque há vínculos que não desaparecem, apenas ficam à espera de um dia poderem ser reencontrados.