Os argumentos mais frequentes a favor dos transportes colectivos são pouco persuasivos: o trânsito, o estacionamento, as reservas de combustível e sobretudo o futuro da humanidade não interessam a quase ninguém. Parece difícil acreditar que sabendo do facto ainda haja quem use esses argumentos. A explicação é talvez a de que quem os usa não usa suficientemente os transportes colectivos; porque para usar um argumento a favor dos transportes colectivos é preciso chegar a horas ao local onde o argumento pode ser usado; e a melhor maneira de chegar a horas não é de transportes colectivos.
Parece por outro lado que a maior parte das pessoas que usam os transportes colectivos o fazem porque por alguma razão não os podem usar individuais. Terão razões económicas para não o fazer, e para se deslocar de transatlântico em vez de simplesmente na sua gôndola, ou em aviões alheios por falta de aviões próprios. Mas essas razões económicas não são realmente razões: são constrangimentos; e os constrangimentos podem ser desculpas mas não são justificações, e sobretudo não são justificações para coisas que preferiríamos não ter de fazer.
Deixados às luzes naturais e ao bom senso, as nossas inclinações favorecem por isso a trotinete mais pequena em detrimento do paquete capaz ou do avião de carreira. Numa trotinete, com efeito, dependemos quase só de nós próprios. Só quem nunca se precipitou rua abaixo embalado pelo seu livre-arbítrio é que pode contemplar com expectativa a perspectiva de passar quinze dias a jogar loto com onze mil virgens, ou seis horas seguidas a ver filmes. Mais vale um motor a dois tempos que seja nosso do que a propriedade colectiva dos meios de produção.
Não há porém razões para desespero moral. Com efeito, aos transportes colectivos assistem vantagens em que normalmente não se pensa. As deslocações do ponto A para o ponto B tendem apesar de tudo a verificar-se como tínhamos imaginado; e há benefícios nos contactos humanos que têm poucas probabilidades de voltar a ocorrer (é talvez por essa razão que chamamos ‘passageiros’ aos passageiros). Mas a vantagem maior provém de formas características de interacção entre os transportados durante o transporte colectivo: de interacções que só podem ocorrer em transportes colectivos.
Essas interacções têm o aspecto de cálculos mudos sobre a vida alheia. Não podemos abrir as cabeças aos passageiros; mas imputamos-lhes vidas, pormenores e mistérios. E, não podendo abrir a nossa cabeça, os passageiros entreter-se-ão com probabilidade a fazer-nos o mesmo. Ao contrário dos transportes individuais, onde por falta de passageiros os transportados só conseguem fazer cálculos sobre si próprios, os transportes colectivos são na realidade uma feira de cognição extraordinária. Ao darem azo a considerar outras pessoas passageiramente, estimulam-nos na ideia correcta de que é possível reconstruir vidas alheias em muito pouco tempo; o que, mesmo com inconvenientes, é uma vantagem.