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(A) :: Ainda vivemos na idade do ferro

Ainda vivemos na idade do ferro

Somos mais fortes como parte da UE, seríamos ainda mais fortes como partes de um Ocidente global com países com valores e interesses convergentes.

Bruno Cardoso Reis
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Na era do wifi e da inteligência artificial, em que a economia é cada vez mais dominada por serviços como turismo e em que a indústria pesada pesa cada vez menos, é fácil acreditar no mito da desmaterialização da economia e das nossas vidas. Mas é realmente um mito, alimentado por modas ambientalistas ou por tecnodeslumbrados. A nossa economia da informação não está, nem estará isenta de limitações e necessidades materiais e energéticas. É natural. Nenhum ser vivo consegue sobreviver sem ir buscar energia e recursos ao meio ambiente e ter algum impacto nele. Qualquer caminho realista para a transição energética não dispensa grandes investimentos em inovação, em infraestruturas críticas e na sua proteção, e numa gestão estratégica de acesso a matérias-primas críticas.

A energia como arma

O projeto de investigação em que tive a oportunidade de participar nestes últimos dois anos foca-se nos vários desafios, inclusive geoestratégicos, da transição energética na Europa. Foi uma parceria pioneira da Fundação Francisco Manuel dos Santos e da Brookings Institution, baseada em Washington D.C. (em que, a partir desta semana, serei investigador sénior não-residente), o tipo de internacionalização de que precisamos. Todos podem ler os estudos que daí resultaram e tirar conclusões mais informadas, se tiverem a coragem moral para enfrentar alguns factos inconvenientes. Partilho aqui algumas das conclusões que eu tirei, com particular atenção às implicações geopolíticas a que dou prioridade nesta coluna.

Um dos desafios fundamentais que enfrentamos na Europa é a nossa dependência energética e em matérias-primas críticas ter sido instrumentalizada por adversários, da Rússia até ao Irão. Mas também corremos o risco de isso acontecer entre aliados cada vez menos alinhados. A opção da Europa pelo gás dos EUA em detrimento do gás russo explicava-se por uma maior segurança de abastecimento, sem coerção política indevida. Será que podemos estar seguros disso com um Donald Trump que deixa claro que não quer saber de alianças? Isto também significa que não só as energias renováveis, mas também o petróleo e o gás podem representar um risco para a segurança do abastecimento, neste caso sobretudo um risco geopolítico, como vemos agora de forma dramática com o duplo bloqueio do estreito de Ormuz cada vez mais a estrangular as nossas bolsas.

Para gerir riscos, diversificar

É fundamental diversificar fontes de abastecimento de energia para reduzir todo o tipo de riscos. O investimento em energias renováveis faz sentido não apenas em termos de reduzir poluição e atenuar a crise climática, mas também para aumentar a autonomia estratégica da Europa, oferecendo mais alternativas, reduzindo a dependência da importação de hidrocarbonetos do exterior. Mas o vento não gera energia sem turbinas e o sol não o faz sem painéis fotovoltaicos, a maior parte fabricados na China a custos imbatíveis. Uma maior dependência da eletricidade cria riscos que é preciso gerir. Isso exigirá não só mais, mas também melhores redes elétricas, mais resilientes e seguras, bem como maior capacidade de armazenamento. As matérias-primas que isso requere não estão livres de riscos geopolíticos, pelo contrário. Como já aqui escrevemos, as terras raras cruciais para estas novas tecnologias da informação ou da energia estão ainda mais concentradas do que o petróleo. Os 5 maiores produtores de petróleo representam pouco mais de 50% da produção. O primeiro produtor de petróleo – os EUA, a Arábia Saudita é a segunda, embora seja a maior exportadora – representa pouco mais de 20%. No caso das terras raras, os 5 maiores produtores representam 90% da produção, mas o principal produtor e exportador, a China, concentra quase 70% da produção e ainda mais da refinação. Isto representa um risco enorme, que só grandes e rápidos investimentos e uma verdadeira visão estratégica podem atenuar. Não podemos continuar a demorar 20 anos a iniciar produção de uma mina na Europa, Portugal não deve desperdiçar as maiores reservas de lítio do continente, apostando numa exploração responsável, mas também na oportunidade para desenvolver indústria de ponta, por exemplo, de baterias, e reconquistar alguma relevância geoestratégica global e regional.

Sozinhos não dá

Portugal, como qualquer país europeu por si só, não tem o poder, nem os meios para gerir estes riscos de forma eficaz e a um custo aceitável, política e economicamente sustentável. A maioria dos europeus percebe isso, como as sondagens deixam claro de forma consistente. Somos mais fortes como parte da UE, seríamos ainda mais fortes como partes de um Ocidente global com países com valores e interesses convergentes. Devemos continuar a reforçar parcerias com países com este perfil e ricos em recursos minerais como a Austrália, o Canadá, e talvez os EUA ou o Brasil. Mas só se formos minimamente coesos. A extrema polarização que despreza e ignora os factos é também uma ameaça nesta área. Isso torna difícil chegar a decisões rápidas e robustas mesmo “apenas” entre os 27 Estados membros da UE, que são necessárias para transformar uma crise, por exemplo energética, numa oportunidade. É por isso que, na energia como na defesa, esta é a era das coligações ad hoc e das geometrias variáveis, do minilateralismo, por exemplo da coligação (mercado) ibérico na energia. Mas há limites para o que pode ser alcançado (em termos de custo ou de segurança) por pequenas coligações de países.

A Europa precisa de menos declarações e mais investimento

O problema está identificado. Precisamos é de menos declarações e mais ações. Esta é uma área em que um investimento europeu maciço e realmente conjunto – Euro-Energy Bonds – faria todo o sentido. Esta deveria ser uma prioridade de ação de Portugal na Europa. Todos os europeus beneficiarão do investimento numa melhor infraestrutura energética para o século XXI, que será vital para a nossa segurança e prosperidade durante um período de muitas décadas, não faz sentido que apenas a geração atual pague esse preço. Nem todos beneficiarão da mesma maneira e instantaneamente, mas investir num sistema mais integrado à escala europeia, e mais resiliente face a qualquer tipo de choque, seria um seguro contra problemas de abastecimento. Todos percebemos com a experiência do último ano o que realmente significam apagões prolongados. Talvez venhamos, este ano, a enfrentar uma crise de abastecimento de combustíveis para transporte. Não vale a pena investir para reduzir estas vulnerabilidades?

Pensar estrategicamente pela nossa cabeça

Nesta semana tivemos uma visita a Lisboa do embaixador dos EUA junto da NATO, que falou na FLAD, e mais uma edição do Fórum de La Toja, reunindo, na Gulbenkian, altos responsáveis, passados e presentes, de Portugal e Espanha. A vinda do embaixador norte-americano parece fazer parte do pacote de agradecimento pelo apoio de Portugal aos EUA na campanha muito controversa contra o Irão. Não é uma visita de Marco Rubio, mas é alguma coisa na gestão de uma relação complicada. O embaixador Whitaker  aproveitou para pressionar Portugal no sentido de comprar os F-35 – isto numa semana em que os EUA suspenderam, indefinidamente, a entrega de munições encomendadas pelos países bálticos, por falta de capacidade de produção da sua indústria de defesa, no contexto atual. Pressionou também, genericamente, por um alinhamento automático de Portugal com os EUA. O Fórum de La Toja foi uma ocasião para sublinhar as muitas convergências de interesses entre Portugal e Espanha.

Há quem defenda que Portugal deve seguir Donald Trump. Há quem defenda que Portugal deve seguir Pedro Sánchez. Nenhum verdadeiro patriota defenderá que Portugal deve alinhar automaticamente seja com os EUA, seja com Espanha. Sim, são os nossos dois grandes vizinhos: os EUA no Atlântico, a Espanha no continente europeu. Sim, devemos procurar manter boas relações, independentemente de quem estiver no poder em Washington D.C. ou em Madrid. Sim, devemos evitar conflitos estéreis. Sim, devemos cooperar onde há convergência de interesses e benefícios mútuos. Mas devemos defender os nossos interesses e valores, devemos pensar autonomamente a nossa estratégica nacional. Mesmo que a conclusão seja que precisamos de nos juntar a outros para ser eficazes, por exemplo, no campo da energia ou da defesa, devemos saber em que sentido queremos ir em conjunto. Parece simples, mas é mais complicado do que parece, dá trabalho, e torna-se impossível se deixarmos as nossas simpatias ideológicas determinarem as nossas opções de política externa.