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Júlio Resende: "Tocava piano todos os dias e jogava futebol todos os dias. Eventualmente, tive de escolher"

Passou a infância com uma bola nos pés e chegou a jogar no Olhanense. Estudou Filosofia, juntou jazz e fado de forma inédita e assina a música do podcast "Os Ficheiros do Carlos Castro".

Andreia Costa
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Tomás Silva
photography

Quando o convite surgiu, chegou a perguntar se não daria para mudar o tema. Se há coisa de que Júlio Resende não gosta mesmo nada é de crimes. “Não ouço coisas sobre crimes e praticamente não vejo notícias, mas compro jornais”, diz ao Observador.

Porém, ao perceber que criar a banda sonora para Os Ficheiros do Caso Carlos Castroo novo Podcast Plus do Observador sobre os bastidores da investigação que ajudou a polícia norte-americana a desvendar a forma como Renato Seabra assassinou o cronista social português em Nova Iorque — seria um desafio totalmente diferente do que tinha feito até aqui, aceitou. “Percebi que era esse o desafio: ter de enfrentar uma história de crime e criar uma espécie de banda sonora para um filme de terror.”

Lembrou-se de Shining e de Stanley Kubrick e deixou-se levar por esse universo. “Interessou-me procurar vários picos e vários momentos de repouso.”

Delineou então o tema central e o resto da composição surgiu juntamente com a narração, da atriz Joana Santos. “Inspira-me ter esse retorno com os sons envolvidos, os silêncios, as sirenes, os walkie talkies da polícia, etc.”

Percebe agora, depois de já ter ouvido um pouco dos episódios, porque é que o piano se encaixa tão bem na história, mas confessa que nunca conseguirá render-se ao true crime.

[o trailer de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro”:]

https://www.youtube.com/watch?v=1GNnA8lp0mA&list=PLyhlfxnJTtZUFk19T3bsBWmedeMgJ2FBb&index=6

Nasceu em Faro a 10 de junho de 1982, mas cresceu em Olhão, onde a família ainda vive toda. Tem uma irmã mais nova que, tal como ele, cresceu rodeada de música — hoje continua a cantar e a dar aulas a crianças.

“O meu pai é de Angola e a minha família africana adora música. Por isso, sempre tiveram um gosto por música e acharam que era uma boa ideia oferecer a uma criança um instrumento musical”, recorda.

Foi por isso que, certo dia, Júlio recebeu do pai um teclado para brincar. Tinha quatro anos e nunca mais o largou. Explorou-o até à exaustão, inventando melodias e tentando copiar aquilo de que gostava. “Recomendo vivamente a todas as pessoas que ofereçam instrumentos musicais às crianças como brinquedos. Para poderem brincar com os sons, brincar com o corpo, tocar de ouvido.”

Aos oito anos começou a ter aulas e aí já estava completamente rendido. Do piano clássico, no Conservatório de Faro, passou para o jazz, que lhe dava mais liberdade, mas ouvia muito mais do que isso: de Beatles a Bryan Adams, passando por Duo Ouro Negro e Amália Rodrigues. Aos 11 anos, o Duo Olhanense — ou seja, Júlio e a irmã — já tocava em bares e festas no verão. “A música foi, e continua a ser, uma espécie de irmã para mim.”

As mãos no teclado e uma bola nos pés

Se havia sempre alguma canção no ar, também havia uma bola a rolar. O pai, José Resende, chegou a ser atleta profissional de atletismo, mas era o futebol que roubava toda a atenção a Júlio — talvez influenciado pelo tio, Tony Resende, que treinou vários clubes da II Divisão B, como o Quarteirense. “Jogava futebol todos os dias, assim como tocava piano todos os dias. Eventualmente, tive de escolher.”

Foi defesa central, médio e ponta de lança. Jogou no Olhanense, no Marítimo Olhanense e no Império Olhanense até abdicar por completo. Não gostava do lado irracional da modalidade e isso acabou por afastá-lo, mas questiona-se até onde poderia ter ido. Atualmente, continua a jogar com amigos futebol de cinco ou sete duas vezes por semana.

Com a carreira de futebolista arrumada, chegou o momento de escolher um curso superior: Filosofia. “A ideia de a música ser um canudo nunca foi um objetivo para mim. A música é aquilo que mais gosto de fazer, é aquilo que fazer sempre, independentemente do que quer que seja.”

Ainda assim, a inscrição na FCSH (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa) tinha outro objetivo subentendido: estar perto do Hot Clube de Portugal, o único clube de jazz da cidade no início dos anos 2000. “Para mim, a música não precisava de ser academizada. Todo o conhecimento que eu procurava, podia ir buscá-lo ali.”

O plano era terminar o curso em Lisboa e voltar para Olhão, mas isso deixou de ser opção rapidamente. “Percebi que a vida musical, não só ir ver concertos, como também depois quando comecei a ser concertista, só podia ser por aqui.”

Numa noite ganhou coragem, apesar dos nervos descontrolados, e foi a uma jam session no Hot Clube para tentar conhecer pessoas e entrar no meio. “É uma espécie de jogo de futebol. A malta vai para um campo, está lá alguém a jogar e tu dizes: ‘Também posso jogar’? É mais ou menos isso e depois logo se vê se te chamam para o jogo seguinte.”

Chamaram para o seguinte e para muitos mais, mas primeiro houve uma passagem por Paris, onde esteve seis meses a fazer Erasmus na Université de St. Denis. Aí, abriu-se à volta dele um mundo de uma dimensão que nem sabia ser possível. “Eu escolhi Paris por causa do jazz, novamente, assim como escolhi Lisboa por causa do jazz. Tinha de ir através do curso de Filosofia, mas em Paris só fiz cadeiras de música. Foi uma espécie de minor em jazz.”

Se Lisboa tinha um clube de jazz, Paris tinha centenas, além de outras tantas bibliotecas. “Podias trazer 40 CD para casa por semana e podias copiá-los. A dimensão da informação que estava lá era incalculável.”

“A ideia de a música ser um canudo nunca foi um objetivo para mim. A música é aquilo que eu mais gosto de fazer, é aquilo que eu vou fazer independentemente do que quer que seja.”

Quando terminou o curso de Filosofia, começou a dar aulas — não de Filosofia, mas de música. Passou pelo JBJazz Clube e deu aulas particulares. Os concertos foram-se multiplicando e em 2008 gravou o primeiro disco, Da Alma. Um ano mais tarde lançou Assim Falava Jazzatustra. You Taste Like a Song (2011) foi editado enquanto trio e Amália por Júlio Resende ganhou forma em 2013, uma junção inédita de fado e jazz. Fê-lo com receio, não nega. “Tive medo de poder ser apedrejado por alguma das fações, quer a jazzística, quer a fadística.”

Pediu para ir buscar a voz de Amália Rodrigues a um dos temas e a editora disse-lhe que não. Insistiu e a Valentim de Carvalho chegou a um compromisso: tinha luz verde para tentar mas, se a editora não gostasse, o tema não ficaria no disco. Mais uma vez, a aposta foi ganha e chama-se Medo, faixa número 11, dueto com Amália Rodrigues.

Júlio Resende demorou muito tempo a perceber que a música podia pagar contas. “Aliás, não percebi, foi a vida que isso que eu desejava podia ser possível. Depois do quarto disco as coisas cresceram até o ponto onde eu consegui abdicar de dar aulas. Não que não gostasse de dar aulas, mas queria mesmo concentrar-me ao máximo em aprender.”

Em 2015 continuou a trabalhar o fado no disco Fado & Further. 2020 trouxe Júlio Resende — Fado Jazz Ensemble, com a guitarra portuguesa a juntar-se ao piano, contrabaixo e bateria, e em 2023 foi editado Filhos da Revolução. Pelo meio houve espaço para universos completamente diferentes, como o de Alexander Search (2017), um projeto de indie pop/rock no qual se juntou a Salvador Sobral — que conheceu no Hot Clube e de quem se tornou colaborador e amigo — para transportar a poesia em inglês de Fernando Pessoa para a música.

A cabeça nunca para, assume. “Sou um investigador, tenho uma grande voracidade por cultura e por arte, pela leitura e pelo mundo das ideias. Enquanto artista, acho que a minha missão é sempre tentar fazer mais e diferente e tentar fazer algo que tenha a ver comigo. Quando comecei a ler a poesia inglesa do Fernando Pessoa, descobri que tinha aí um disco de rock.”

2018 trouxe experiências com piano, contrabaixo e eletrónica em Cinderella Cyborg e um convite da RTP para ser um dos compositores do Festival da Canção. Catarina Miranda interpretou Para Sorrir eu Não Preciso de Nada, com música do pianista e letra de Camila Ferraro. Mas houve mais: Poesia Homónima por Júlio Resende & Júlio Machado Vaz, um álbum no qual poemas de Eugénio de Andrade e Gonçalo M. Tavares são interpretados pela leitura de Vaz e o piano de Resende.

Além de tudo isso, ainda mantém uma ligação à FCSH. Foi lá que fez uma residência artística no ano passado e faz atualmente parte de uma comunidade de residentes artísticos. “Tenho um atelier e, ao longo do ano, faço master classes sobre improvisação.”

Com uma carreira mais do que estabelecida, Júlio Resende garante que continua a gostar mais de aprender do que de ensinar e destaca vários encontros felizes que o enriqueceram pessoal e profissionalmente ao longo dos anos.

Zé Eduardo, “um dos grandes pedagogos da história do jazz em Portugal” é um nome que nunca esquece e com quem conseguiu ter duas ou três aulas em Faro, quando tinha 18 anos. Foi ele que lhe deu o contacto de outros pianistas que podiam fazer a diferença na carreira de Júlio Resende. Conheceu Rodrigo Gonçalves, Bernardo Sassetti e Mário Laginha. Nuno Nabais, responsável pela Fábrica Braço de Prata — centro de cultura em Marvila com salas de espetáculos, exposições e livraria —, tornou-se parceiro e amigo. “Juntamente com ele, sou uma espécie de fundador da parte musical do Braço de Prata. Passados alguns meses de a fábrica estar aberta, conheci a Vânia Conde, uma fadista enfermeira, neste caso uma enfermeira que também canta, com a qual constituí uma parceria musical. Ensinou-me muito sobre o fado e foi isso que me levou, oito anos depois, a querer fazer o Amália por Júlio Resende.”

Fazer dois concertos iguais está “fora de questão”

Quem o vê atuar no Braço de Prata — continua a tocar lá todas as sextas-feiras quando não tem outros concertos —, sabe que nenhuma atuação se repete porque o improviso é que comanda as mãos de Júlio Resende nas teclas do piano. Mas se o improviso pode ser algo incrível e irrepetível, também tem o reverso da medalha: algo muito bom que jamais poderá ser partilhado. Para o pianista é aí que está o fascínio. “No outro dia vi uma figura científica e também pianística que se chama Nuno Maulide dizer numa entrevista que um dia estava a tocar e sentiu que estava num estado a que chamou flow. Ou seja, as coisas estavam a fluir sem ele pensar muito. Com muita humildade, posso dizer que todo o trabalho que fiz, desde sempre, foi tentar chegar a esse sítio. Ou seja, eu não estive sempre nesse sítio, mas neste momento já há muito tempo que não me lembro de fazer um concerto em que eu não esteja nesse sítio.”

“Repetir-me? Está fora de questão.” O improviso obriga Júlio Resende a estar sempre presente naquele momento. A única desvantagem é o desgaste. “Estar nesse estado de catarse, e ao mesmo tempo também de imersão, é também desgastante.”

No entanto, nunca foi capaz de dizer que um concerto seu tivesse sido perfeito. Interpreta os aplausos como uma espécie de reciprocidade. “Não consigo aceitar.” Mas, enquanto espectador, já assistiu a concertos perfeitos? “Sim, é mais fácil enquanto ouvinte dizer isso a outra pessoa. Posso apenas dizer que sinto que todos os concertos são algo onde nós estamos totalmente entregues à música e ao diálogo connosco e com o público.”

Apesar de, na teoria, ser um processo mais rígido, não considera que gravar um disco seja doloroso — até porque não repete nada, garante. “Não gosto de ter headphones e não gosto de gravar em cabines. A Amália também não gravava, era com todos ao mesmo tempo.”

Piano Português Namora Guitarra Portuguesa, o mais recente trabalho (2025), foi criado como se fosse um concerto. “Gravámos [com Bruno Chaveiro] em simultâneo. Ninguém tinha headphones e pronto — o técnico de som é que não gostou muito.”

É esse disco que pode agora ser ouvido ao vivo — enquanto não chega o próximo, em trio, lá para outubro. A 6 de junho há concerto no Festival de Música dos Capuchos, em Almada, e a 10 de julho no Teatro Municipal Constantino Nery, em Matosinhos. Antes disso, a 8 de 10 de maio, toca sozinho no Museu do Oriente, em Lisboa. Mas, embora goste de fazer concertos a solo, prefere tocar em grupo. “Puxamos uns pelos outros, há diálogo e gargalhadas. No fundo, é uma espécie de equipa de futebol.”