Há um fenómeno curioso quando se colocam os 87 títulos do FC Porto no futebol a seguirem uma timeline em comparação com os 87 do rival Benfica. A certa altura, ali para os finais da década de 70, a diferença que existia entre ambos era tão grande que a barra azul e branca quase se deixava de ver. Depois, chegou Pinto da Costa. Depois, toda a história mudou. Depois, nada voltou a ser o mesmo. Mas se a influência do antigo líder dos dragões teve o condão de virar do avesso o paradigma vigente na realidade nacional, a base desse sucesso foi enraizada com uma marcante passagem de José Maria Pedroto pelo comando técnico. Foi ali que ficou definida a identidade FC Porto. Foi ali que foram erguidos os alicerces que sustentam as vitórias do clube. Foi ali que se escreveu o mapa para ganhar num contexto distinto de todos os outros. Foi há 50 anos.
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Daí para cá, vários treinadores conseguiram vencer. Como Artur Jorge. Como Bobby Robson. Como António Oliveira. Como José Mourinho. Como o próprio André Villas-Boas. Ainda assim, apenas um foi construindo uma era muito à luz do que foram os ensinamentos do legado de Pedroto: Sérgio Conceição. Agora, a nova versão de um Villas-Boas encontrou o “seu” Sérgio Conceição. Em grande medida, aquele que foi o técnico de sucesso de Pinto da Costa em 2010/11 encontrou o seu paralelo na presidência com Francesco Farioli. Pode um técnico de apenas 37 anos, italiano, sem títulos e que ainda agora não arrisca o português em público ter a capacidade de ganhar assumindo a identidade do clube? Pode. Pode tanto que conseguiu. Pode de tal forma que, em alguns momentos, encarnava o que era a defesa do FC Porto como Pedroto fazia há 50 anos.
“Tentaremos trazer de volta a mentalidade para representar uma região. É isso que me faz sentir que este é o sítio certo e a fase certa para mim. Queremos devolver o FC Porto ao seu lugar”, apontou ainda antes do arranque das competições oficiais, mostrando que não precisava de conselhos ou PowerPoints para saber onde acabara de chegar. Nos meses que se seguiram, foi distinguindo a região e as pessoas do Norte de todas as outras, recuperou ideias de um futebol que não consegue fugir ao centralismo e defendeu a todos os níveis o clube e os seus responsáveis sem perder a oportunidade de visar os rivais (sobretudo o Sporting). Exemplo prático: poderia o técnico italiano saber a história de Inocêncio Calabote no longínquo ano de 1959 quando FC Porto e Benfica discutiam o título na última jornada pela diferença de golos e os encarnados tiveram um desconto de dez minutos de tempo extra? Pouco provável. Mas, após os 12 minutos para assinalar um penálti a favor do Sporting frente ao Santa Clara na Taça de Portugal, Farioli não teve pejo de recordar esses tempos.
No Porto, o transalpino foi sempre mais do que portista e portuense. No Porto, ganhou um lugar na história do clube, no imaginário dos portistas e no coração dos portuenses por ser aquilo que apenas André Villas-Boas imaginava que podia acontecer: tornar-se mais do que um técnico, ser um técnico do FC Porto. Houve também dois episódios no primeiro mês da nova realidade que tiveram o condão de estreitar a ligação de Farioli ao clube, à identidade dos azuis e brancos e ao próprio presidente. Dois episódios trágicos que marcaram os dragões, marcaram o futebol nacional e marcaram o próprio italiano apesar de estar no início.

Por um lado, a onda que se levantou no País e no Porto após a trágica morte de Diogo Jota e do irmão, André Silva, num acidente de viação em Espanha. Farioli tinha acabado de aterrar com a família na Invicta, já com todos vestidos a rigor e de cachecol dos azuis e brancos ao pescoço, quando a atualidade era dominada pelo desaparecimento precoce de um antigo jogador dos dragões que era indiscutível na Seleção e no Liverpool. Ali, o técnico teve um contacto direto com a forma como as “suas” gentes se tratavam, cuidavam e protegiam, nos bons e sobretudo nos maus momentos. Já de contrato assinado, a conhecer todas as instalações não só no Estádio como no Olival, Farioli não demorou a sentir-se parte de uma “família”, a “famiglia portista“. “Hoje foi um dia de emoções. Tudo o que aconteceu na apresentação, o momento em que nos levantámos pelo Diogo [Jota] e pelo irmão, o jogo, os resultados positivos. O que estou a aprender desde que estou aqui é que o FC Porto é um clube especial, pela fé e pela crença”, assumiu após a apresentação com o Atl. Madrid.
Por outro, o desaparecimento de Jorge Costa, peça fulcral no futebol dos dragões que ganhou ainda maior peso depois da saída de Andoni Zubizarreta, antigo diretor desportivo que entrara nessa troika definida por Villas-Boas para o futebol após vencer as eleições com quase 80% dos votos. Da paragem cardiorrespiratória no centro de estágios do Olival até à morte declarada no Hospital de São João, tudo nesse dia 5 de agosto foi marcante para todos os que fazem parte do universo portista – incluindo Farioli, claro. “Têm sido dias muito difíceis para todos, não é fácil lidar com este tipo de emoções. A única coisa que depende de nós, e que queremos fazer, é honrar a memória e o legado do Jorge. Sempre que treinarmos no relvado do Olival, recordaremos a imagem dele ali sentado. Sinto que o Jorge vai estar sempre connosco”, apontou antes da estreia no Campeonato, frente ao V. Guimarães, num encontro que foi adiado 48 horas pelo sucedido.
As cartolinas com o número 2 em todos os lugares das bancadas, as lágrimas durante o minuto de silêncio e a forma como Pepê levantou a camisola 2 azul e branca após inaugurar o marcador reforçaram esse papel de lenda do Bicho. Farioli, que privou pouco mais de um mês com o então diretor do futebol, não esqueceu tudo o que aprendeu nesse período. “Todos sabemos quem foi, é e será o Jorge na história do FC Porto. Sentimos a sua presença em todos os momentos, o seu legado sempre estará aqui, não só na camisola número 2 mas no modo de ser e de estar. As homenagens dizem muito sobre a lenda e o eterno capitão que ele foi. No último dia do ano, estava em casa. Como disse, temos o canal YouTube do FC Porto sempre aberto. Meti a dar o vídeo da minha apresentação, que começa na viagem desde Amesterdão, e estava em quase todas as imagens, a tentar ajudar-me a transmitir o que é o FC Porto e o que representa”, contou depois à SportTV.
“O Jorge falou-me sobre a mentalidade trabalhadora, sobre o espírito, sobre a ligação à cidade, sobre essa obrigação de suar a camisola, que era algo inegociável. Estava connosco todos os dias, assistia aos treinos, apreciava os jogadores e via-os sofrer, às vezes quase vomitando. Depois do jogo com o Atl. Madrid, ele disse ao Tiago [Madureira] e ao Henrique [Monteiro]: ‘Voltámos a ter uma equipa’. Esse é o mote para a nossa época, temos o compromisso e a responsabilidade de honrar a memória do Jorge. No Dragão está hasteada uma bandeira que o mantém sempre por perto. Vamos lutar por ele, pela sua família e pela família portista”, acrescentou, numa das confidências que foi fazendo sobre esse mês em que privou com o antigo capitão. Em momentos críticos, entre discursos marcantes como o de Eustáquio antes do seu último jogo (Gil Vicente) ou palavras para quem ficou privado de ajudar os companheiros por lesão, o Bicho esteve presente. Ainda mais presente. E foi quase com um sentimento de missão que o italiano quis encarnar todas essas aprendizagens.
Essas primeiras semanas no FC Porto marcaram Francesco Farioli e adensaram a ligação do técnico ao clube, ao projeto e ao resgate de uma identidade que andou perdida no ano 1 de Villas-Boas no comando dos azuis e brancos (que, na verdade, foi mais um ano 0 do que outra coisa). A partir daí, o que se seguiu foi sempre a consequência na defesa de uma “causa”. Nos discursos para dentro, nas palavras deixadas para fora. Sempre em inglês mesmo percebendo perguntas em português, para garantir que não falhava na mensagem.
“O registo individual não importa. Tudo o que estamos a fazer e tudo o que está a surgir é fruto do trabalho de toda a gente. É essa a nossa prioridade. O Porto é a cidade em que as pessoas se levantam muito cedo de manhã para trabalhar e chegam à noite para estar com a família. O que fazemos é representar a cidade. O registo não conta, depois no final da época vemos o que acontece. Senti fé, senti confiança no que podíamos fazer e, por isso, senti mais responsabilidade”, referiu antes do nulo frente ao Benfica no Dragão, no único encontro que não ganhou na primeira volta da Liga. “O Ajax tinha nove pontos de vantagem sobre o PSV, parecia feito e o telefone não parava de tocar. Um mês depois, o colapso na Liga tirou o meu número dessas agendas. A cultura Ajax é de um futebol posicional, frio e organizado, como uma religião. Acrescentei espírito de equipa e gosto pela batalha. A cultura do FC Porto é quase carnal: sacrifício, carrinhos, público em chamas. Estou a introduzir jogadas codificadas para tornar o espetáculo mais aberto e completo. Trabalho sobre contrastes, tento preencher as lacunas. A melhor identidade é não ter uma identidade imutável”.

A certeza que Villas-Boas tinha, “mentalidade” e a colocação de Samu nos cantos
A história entre Farioli e o FC Porto, mais concretamente André Villas-Boas, começou há 16 e não há dez meses. Quando a opção Vítor Bruno caiu da pior forma, numa aposta que nasceu torta por toda a novela que envolveu com o antigo número 1 da sua equipa técnica, Sérgio Conceição, e nunca se endireitou, o presidente dos dragões não teve dúvidas em apostar numa solução “fora da caixa”. Só assim, pensava e comentava com os mais próximos, poderia cortar de vez com o passado – apesar de seguir vários técnicos portugueses, alguns dos quais com quem priva ou privou. Martín Anselmi foi o escolhido, Francesco Farioli foi o plano A mas que tinha um problema: liderava o líder da Eredivisie, estava próximo de sagrar-se campeão (como não chegou a acontecer) e tinha uma cláusula proibitiva de dez milhões de euros. Não foi aí, foi meio ano depois.
A passagem (muito) falhada do argentino, que chegou com fama de next big thing pelo trabalho que fizera no México, deixou marcas no Dragão, algo percetível num plano interno quando chegou a hora de encontrar um sucessor. Para alguns, a opção teria de passar por alguém que conhecesse a realidade nacional, que tivesse uma identificação instintiva com aquilo que é o FC Porto e, provavelmente, que fosse português. Mas, esses mesmos, admitiam que, se Villas-Boas defendia tanto a aposta em Farioli, era porque via nele alguém que olhava para o futebol de forma diferente. O presidente dos dragões, que chamou a si a decisão como faz com tudo o que seja medidas estruturais para a SAD, não tinha dúvidas: o italiano podia ser tudo isso mesmo não conhecendo de forma profunda a realidade nacional. Porquê? “Conhecia” Farioli.
A partir dos contactos exploratórios com os representantes do técnico, tudo se tornou fácil. Não havia uma cláusula de rescisão para pagar depois da saída dos neerlandeses do Ajax, não havia problemas com a parte salarial, não havia dúvidas em relação à necessidade de ganhar. Tudo o resto, chegou de forma natural. Em qualquer língua, em qualquer assunto, em qualquer realidade. A empatia que emanou logo nos primeiros encontros entre ambos, o à vontade com que Villas-Boas falava de aspetos técnicos ligados ao futebol sem que Farioli considerasse isso como uma intromissão (pelo contrário, ainda hoje vê como uma aprendizagem) e o espaço que o italiano também foi ganhando para apontar o que necessitava de ser melhorado em termos estruturais nos dragões foram um dos maiores segredos para a temporada de sucesso do FC Porto, numa relação que ficou ainda mais estreita depois do desaparecimento de Jorge Costa no arranque da época.

“É uma escolha ambiciosa, um treinador no qual acreditamos muito. Tem um percurso explosivo no futebol europeu, com rendimento, sucesso e visão. Escolhemos o Francesco para atacar as próximas duas temporadas, especialmente a primeira. Da parte do FC Porto, iremos colocar à disposição todos os meios necessários, esse é um compromisso que assumimos. Iremos continuar a fazer alterações profundas, renovar o nosso plantel. Temos a demonstração do que é uma equipa à FC Porto. Razões para a aposta? Não só o carisma mas o entusiasmo, a visão e a determinação de um treinador jovem mas ambicioso. Discutimos muito sobre o que serão mudanças na infraestrutura, mas também do estilo de jogo do FC Porto que irá imprimir com o tempo. Tudo isto ajudou a chegar a acordo para este corpo comum de ideias e a noção de um sentido de rigor, exigência e determinação que é necessário”, referiu Villas-Boas na apresentação. E cumpriu.
“No FC Porto temos um compromisso com a vitória que não se pode adiar mais. Somos um clube vencedor, queremos vencer, temos sede de vencer. Para atingir o sucesso, serão necessários os meios. Discutimos isso amplamente e agora cabe ao FC Porto garantir esses meios ao treinador para que atinja sucesso. O FC Porto foi obrigado a operar o mercado de janeiro de determinada forma para se manter viável enquanto instituição e organização. Há uma parte de compromisso desportivo que perdemos por conta da sustentabilidade financeira do FC Porto e a sua sobrevivência enquanto clube e instituição. Agora temos a facilidade de operar no mercado, porque podemos amortizar todos os investimentos que vamos fazer num longo prazo e porque temos muita crença no trabalho que estamos a fazer a nível de organizativo. Isso vai permitir outro nível de investimento que nunca tivemos. Poderemos estar perante o maior mercado de sempre da história do FC Porto”, acrescentou ainda o presidente no mesmo momento. E também cumpriu, neste caso com um investimento recorde acima dos 100 milhões da equipa equilibrado com algumas saídas.
“O clube representa muito em termos de mentalidade, espírito. Estive aqui há três anos a ver um jogo da Champions com o Inter [2023] e recordo-me dos últimos minutos em que encurralaram o Inter, conseguiram dar a volta. É isso que nós queremos. Ainda não me conhecem bem mas sou muito apaixonado, quero representar uma equipa com esta mentalidade e este espírito. Os treinos terão padrões claros e elevados. Não temos tempo para perder nada, queremos ganhar e ter sucesso. Sou muito apaixonado, gosto de ser alguém muito ativo no banco. Com uma mentalidade forte, com níveis altos de intensidade porque pagamos o preço de tudo o que fazemos a este nível e não podemos deixar nada para trás. Há uma palavra portuguesa que é mentalidade, temos de ter isso. Ao olhar para o futuro é preciso estar muito bem conectado com o presidente. Não posso esquecer os passos que dei, os clubes onde trabalhei, que representam muito mas estar aqui e representar esta cidade e estas cores significa muito”, disse também em julho Farioli. E cumpriu.
“Estou consciente de tudo, antes de ir a qualquer entrevista para um clube faço questão de estudar os clubes. O presidente foi bastante claro desde a primeira reunião, deu-me uma análise profunda, foi duro com a época que terminou, nessa parte conectámos rapidamente sobre o que fazer. Temos um grande alinhamento entre nós. Não quero chegar com julgamentos prévios, quero ser honesto na avaliação. É normal que quando abordamos um nova época haja o desejo de ver coisas novas, uma nova forma de jogar. Cada treinador representa uma forma de pensar. Foi a primeira vez que não mostrei um único vídeo sobre a forma de fazer as coisas porque o presidente já sabia. Acredito que a equipa deve ter posse, controlar. Uma das melhores partes da vida de treinador é ter uma ideia clara. Mais do que impor a ideia, é fazer com que os jogadores acreditem no que queremos fazer”, completou o técnico na apresentação. E também cumpriu, às vezes com medidas mais “impopulares” como a menor utilização de Rodrigo Mora em prol do coletivo.
Há vários exemplos menos conhecidos de como funciona essa relação empática entre líder e treinador no FC Porto. Um foi quando Villas-Boas, do alto de quem teve uma grande carreira também como técnico, abordou o posicionamento de Samu ao primeiro poste nos cantos em que havia marcação à zona. Outro foi o perfil dos jogadores contratados no mercado de inverno, seguindo a linha de Pablo Rosario com o italiano a ter outro “peso” em decisões como a de Seko Fofana ou Moffi, depois de ter recebido jogadores no plantel que tinham tudo o que era necessário em termos de características mas que não conhecia, como foi o caso de Froholdt. Entre os conselhos que vinham das conversas com o presidente, os contributos do departamento de scouting e o trabalho desenvolvido por toda a equipa técnica, Farioli só tinha de ir juntando todas as peças.
“A renovação de Francesco Farioli representa muito mais do que a continuidade de um treinador. Representa a continuidade de um método. De uma forma de estar. De uma cultura de trabalho que encaixa no que somos. Desde o primeiro dia, Farioli compreendeu que o FC Porto não vive de atalhos nem de facilidades: vive de rigor, de trabalho, de ética, de simplicidade e de uma obsessão saudável pelo detalhe (…) Renovar é acreditar. Renovar é dar estabilidade a um projeto que pretende devolver o FC Porto, de forma sustentada, ao lugar natural onde sempre esteve: o lugar dos títulos. Também aqui Francesco Farioli percebeu a essência. Quem lidera o FC Porto tem de entender que este clube não vive apenas dentro das quatro linhas. Vive de símbolos, de cultura, de pertença. Vive daquilo que nos une e nos distingue. E quanto mais o nosso treinador e a nossa equipa compreenderem essa dimensão, mais fortes seremos como projeto desportivo, mas também como instituição”, escreveu André Villas-Boas no habitual editorial da revista Dragões após a renovação.
“Renovar na Livraria Lello é uma simbiose perfeita de união do FC Porto com os seus adeptos, com a sua massa associativa, que vem muito fruto da mensagem do treinador, da convicção das suas mensagens, que se alastra evidentemente ao grupo mas também à massa associativa e também vem simbolizada neste próprio espaço de união da cidade. Temos um líder forte, determinado, que percebe o que é que é o FC Porto, os seus valores, os seus princípios, percebe o que é que é a cidade e o que é que as pessoas desejam. Quando se obtém esta união, os resultados ficam à vista. Queremos estender no tempo esta renovação, trazendo para a equipa este local histórico da cidade do Porto, esta magnífica Livraria Lello. Adaptação rápida? É fruto da sua maneira de ser, da sua jovialidade, da sua vontade de conquistar o mundo e de conquistar títulos também, de conquistar o coração da cidade, o coração das pessoas”, destacara no anúncio oficial desse novo contrato.

Do partido político à tese “A filosofia do jogo. A estética do futebol e o papel do guarda-redes”
O “namoro” com Farioli começou há 16 meses, a carreira do treinador começou há quase 16 anos. Um dia, naquela que podia ser apenas mais uma conversa de treinador para guarda-redes, a realidade ficou exposta com um “mas”: não era suficientemente bom de luvas nas mãos, podia ser mais do que bom noutras funções sem sair do futebol. Acatou o conselho, assumiu-o como repto, mudou a conceção que tinha do seu papel no jogo. Como admitiu em entrevista, não deixou o futebol cedo por lesão como outros nomes grandes (dando o exemplo de Julian Nagelsmann ou Thomas Tuchel) mas apenas por convicção. Aprender era uma das suas maiores virtudes, saber mais era o seu principal desejo. Dez anos depois de ter deixado a baliza do modesto Margine Coperta, foi ali que começou a carreira então como técnico de guarda-redes, função que iria ter depois no Fortis Juventus e no Lucchese. Queria mais, procurou mais e acabou a rumar ao Qatar.
Mais do que o trabalho que teve com a equipa Sub-16 da Aspire Academy, foi aí que conheceu Roberto De Zerbi, italiano que já foi mais técnico da moda do que é hoje mas que se tornou a principal inspiração nessa nova vida fora das quatro linhas. “Nunca abandonou a vida académica e licenciou-se em Filosofia na Universidade de Florença. Adepto do desporto-rei e estudioso da ciência que aborda as questões fundamentais da existência, o italiano publicou uma tese sobre a estética do jogo e o papel dos guarda-redes, na qual defende que o futebol é um reflexo da vida e cita os mais reputados treinadores e pensadores para explicar que o foco de um líder tem de estar no melhor para a equipa”, destacou o FC Porto quando chegou. Foi ainda no Qatar que teve uma preleção que ainda hoje pode ser encontrada no Youtube sobre os grandes princípios que norteiam a forma de jogar de uma equipa. Aí, tal como nesta versão dos dragões que montou em 2025/26, sobram ideias comuns como identidade, modelo, adaptação, jogo em posse ou pressão alta.
A carreira do técnico de 37 anos nascido em Barga, na Toscânia, teve depois uma espécie de “estágio” nas equipas técnicas de Roberto De Zerbi, primeiro no Benevento e depois no Sassuolo, naquele que foi o projeto que lhe abriu várias portas das principais ligas internacionais. Em 2021, decidiu arriscar também a carreira a solo como técnico principal. Esteve nos turcos do Fatih Karagümrük, regressou depois ao Alanyaspor onde já tinha sido adjunto, chegou em 2023 aos franceses do Nice. Mais do que a quinta posição e consequente ia à Liga Europa na temporada seguinte, a forma de jogar no conjunto do sul de França foi uma marca que se transformou em cartão de apresentação para outros clubes. Aí, mais uma vez, apostou mais no projeto do que nos “nomes” e rumou a Amesterdão, para treinar o Ajax. Esteve perto de ganhar, acabou por perder tudo, nem por isso deixou de ser aposta para o FC Porto. Um pouco à semelhança do que aconteceu com o Bayern, que apostou em Vincent Kompany depois de descer com o Burnley, era a ideia que sobressaía.

Desde novo que a cabeça de Farioli tem de estar sempre a trabalhar. Fervilha de ideias. Quer apontar a novos patamares. Foi assim no futebol, foi assim por causa da filosofia, podia ter sido assim… na política. Quando acabou o secundário, o técnico do FC Porto pensou fundar um partido. Já tinha o nome, Direção Futuro, já tinha também o mote – todos juntos pelo bem comum. “Na eventualidade de haver um consenso inicialmente limitado, teria de fazer compromissos, perdendo o impulso inicial. Se compromisso é uma palavra feio? Não. A especulação é feia, o compromisso depende. Eu gosto de adaptação. Quem se adapta avança. Também é assim no futebol”, comentou numa entrevista aos italianos do Corriere della Sera.
Foi-se o sonho político, saiu reforçada a ligação à Filosofia e ao futebol. Há um trabalho que ficou conhecido por ter sido aquele que lhe abriu as portas para trabalhar com De Zerbi, quando colocou uma análise feita ao Foggia no Wyscout, a maior plataforma mundial de observação de jogadores. No entanto, o texto que melhor define aquilo que é o técnico dos azuis e brancos acaba por ser a tese de licenciatura, “A filosofia do jogo. A estética do futebol e o papel do guarda-redes”, que lhe valeu uma das notas mais altas do curso.
Foram várias as inspirações que Farioli, um confesso apreciador de Jean-Paul Sartre, encontrou na filosofia para refletir sobre o jogo de futebol. Para ele, não há frases que sejam só frases. Para ele, não há ideias que sejam só ideias. Citando o italiano Sergio Givone, defende que a vida é uma metáfora para o futebol porque “vivemos como jogamos, jogamos como vivemos e encontramos a beleza de tudo refletida no jogo”. Assume influências do neerlandês Johan Huizinga pelo lado formativo do futebol, vai buscar o russo Dostoievski para defender um regresso do futebol às suas origens, cita o argentino J.L. Borges dizendo que “cada vez que uma criança dá um chuto em algo na rua, a história do futebol renasce”, vai buscar o inglês Thomas Hobbes para apontar um dos mandamentos que gosta de ver: “Jogar em equipa obriga a aceitar um sistema de regras. As regras limitam a liberdade de um indivíduo mas garantem a sobrevivência do grupo”.
A teoria passa depois à prática de várias formas. “A minha forma de liderar o grupo é muito simples: baseia-se em elementos inegociáveis, os elementos que fizeram o FC Porto ser o FC Porto. A ligação entre mim, o clube e o grupo nasceu muito rapidamente. Sou uma pessoa direta, quando há algo de que não gosto, tento sempre corrigir e, se não for suficiente, procuro encontrar outras opções. Se houver uma relação baseada na honestidade e na transparência, mesmo que às vezes a verdade seja dura, os jogadores respeitam mais do que um sorriso ou uma palmada nas costas. Não significa que este seja o caminho certo mas é o caminho que me faz sentir confortável, porque é assim que eu sou”, explicou em entrevista à SportTV, onde admitiu também que fez questão de falar de tudo o que correra mal na época anterior para zerar o terreno.
Em paralelo com essa criação de uma identidade e da ligação próxima com os jogadores, a análise de vídeo é outros dos pontos chave para a equipa técnica liderada por Farioli que junta sete nacionalidades… sendo o único italiano: entre adjuntos, técnicos de guarda-redes, preparadores físicos e analistas há portugueses (Lino Godinho, André Castro, Diogo Almeida, Filipe Barata, José Carlos Monteiro e André Rafael Cardoso), neerlandeses (Dave Vos), argentinos (Lucho González), ingleses (Callum Walsh), espanhóis (Felipe Sánchez e Iñaki Ulloa) e turcos (Osman Kul). Todos falam depois a mesma língua numa sala de reuniões que se tornou um dos primeiros pedidos a André Villas-Boas – e que chegou a ser caracterizado pelo ex-jogador Eustáquio, que saiu para o Los Angeles FC, como o espaço onde eram feitas as séries… da Netflix.

Houve também um ponto comum aos últimos trabalhos e outro mais vincado no Dragão. Por um lado, no Nice, no Ajax e no FC Porto, a solidez defensiva foi uma condição inegociável para ficar mais perto daqueles que eram os objetivos delineados no início da temporada. Por outro, a vertente mais física do jogo ganhou outra expressão nos dragões, que correram mais do que os adversários em todos os encontros realizados tendo ou não um maior tempo de posse (algo que nem sempre aconteceu). “A preparação física é um dos principais elementos do trabalho que estamos a desenvolver, desde o perfil dos jogadores que temos de procurar ao desenvolvimento dos atletas. Sou paranóico com o lado físico do jogo e com a trajetória para onde o futebol está a caminhar. Não vamos descobrir nada, limitamo-nos a analisar as novas tendências e, a partir daí, tomamos certas decisões. É preciso estar fresco nas pernas e na mente, por isso valorizo toda a gente dentro do plantel, tento rodar os jogadores, tê-los sempre prontos e envolvidos. Dessa forma, os treinos são mais intensos e com dinâmicas diferentes, o que pode fazer uma diferença bastante relevante”, frisou.
Por fim mas não por último, o capítulo da ligação ao clube que, no caso de Farioli, chega à própria família, que já se descreve como “famiglia portista“. “No FC Porto não há contestatários nem os problemas se levantam porque nunca chegam a existir”, dizia José Maria Pedroto, técnico para quem o futebol era “muito fácil”: “É o pão numa mão e o chicote na outra. A virtude é nunca usar o chicote”. 50 anos depois da entrada do Zé do Boné, numa realidade e contexto completamente diferentes, o FC Porto voltou a ser o FC Porto que emergiu nas últimas cinco décadas com um técnico italiano que soube perceber o que é o ADN do clube desde o primeiro dia entre tragédias, ligação próxima ao presidente e uma filosofia muito própria. Após uma primeira volta de sonho, com 49 em 51 pontos possíveis, o título era uma questão de tempo e chegou após a receção ao Alverca, com o 31.º Campeonato a ser a coroação de uma ideia chamada Francesco Farioli.