Omar Al Hayali acompanhou a enchente de portugueses que se reuniu no Largo do Carmo na véspera do 25 de Abril, para celebrar a liberdade num dos locais mais simbólicos da revolução portuguesa. O refugiado iraquiano tinha motivos acrescidos para festejar: além de ser a véspera do aniversário do fim da ditadura do país que o acolheu, aquele dia também marca os sete anos desde que chegou, sozinho, a Portugal. A festa “foi bonita”, lembra ao Observador.
Mas quando passava, de bicicleta, pela Avenida Almirante Reis, o estudante de 27 anos ouviu vários insultos vindos de um grupo de dezenas de jovens, com muitos rapazes e algumas raparigas. Ao início, ignorou. “Afastei-me quase 15 metros. Cheguei à paragem do autocarro, parei ali e olhei para trás para tentar perceber a situação”, recorda ao Observador. Segundo relata o refugiado, o grupo parou e começou a regressar até ao iraquiano quando ele os encarou. “Perguntei porque me estavam a insultar.”
Sem que nada o fizesse prever, a tensão escalou e Omar começou a ser agredido. Ainda se tentou defender, mas o grupo que o cercava era bem mais numeroso. Quando os jovens pararam as agressões, foi atrás deles com a sua câmara de vídeo para gravar as caras dos supostos atacantes. O vídeo terá ajudado as autoridades a identificá-los.
Menos de uma semana depois, a PSP conseguiu identificar pelo menos 11 jovens entre os 16 e os 17 anos, incluindo uma rapariga. Três dos suspeitos foram constituídos arguidos por ofensas à integridade física, avançou o Público. “Surpreende-me muito serem tão jovens. Se estes jovens têm tanto ódio, como é que eles vão ser daqui a cinco anos ou no futuro? Como é que vão contribuir para este país?”, questiona o iraquiano. Quando tinha a idade deles, Omar vivia sozinho na Turquia, depois de ter sido baleado no seu país natal e de ter visto o pai ser sequestrado.

Omar saiu do Iraque quando ainda era menor. “Comecei a aprender português porque a língua pode abrir muitas portas”
Segundo o relato de Omar, com poucos anos de vida já tinha vivido de tudo. “Saí do meu país em 2014 [aos 15 anos] por dois motivos: em 2006 o meu pai foi sequestrado e em 2013 fui baleado.” Seguiu para a vizinha Turquia, onde esteve durante cinco anos, sempre sozinho e longe da família, que ainda hoje não voltou a ver.
“Durante três anos vivi num centro de acolhimento infantil. Vivia triste por estar sozinho e tive uma trombose cerebral”, recorda o iraquiano, em bom português. Quando saiu do centro começou a trabalhar como tradutor e, nessa altura, inscreveu-se no ACNUR — o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (a agência da ONU dedicada a proteger refugiados).
Quase cinco anos depois de ter chegado à Turquia, surgiu a oportunidade de vir para um país que não sabia onde ficava, apenas sabia quem era a sua maior figura no panorama futebolístico. “O ACNUR tinha um programa com vários países, incluindo Portugal. Eu não tinha informações sobre Portugal, só conhecia o Cristiano Ronaldo”.
Mas arriscou e a 24 de abril de 2019 — depois de ter passado por cidades turcas — aterrou em Lisboa. “Cheguei através deste programa, que apoia refugiados durante um ano e meio.” Nos primeiros tempos, foi viver para o Centro de Acolhimento de Refugiados, na Bobadela, que fica a cargo do Conselho Português para os Refugiados.
Em condições normais, a adaptação a um novo país seria sempre complicada, mas, menos de um ano depois de ter chegado a Portugal, tudo piorou com a pandemia de Covid-19. “Tentei trabalhar, mas não consegui encontrar um emprego, as lojas e as empresas estavam todas fechadas.”
“No início, a integração em Portugal não foi fácil. Como era a altura da Covid, todos estavam em casa. Eu estava sozinho, não tinha amigos portugueses, não conhecia ninguém. Nos primeiros anos foi muito difícil. Depois comecei a aprender algumas coisas em português. Quando consegui entrar num estágio profissional e conseguir arranjar um quarto, as coisas começaram a melhorar.”
Com muito tempo livre, Omar dedicou-se a aprender a língua portuguesa, porque sabia que facilitaria a sua integração. “Comecei a aprender português porque a língua pode abrir muitas portas, no ensino ou no emprego. Tive aulas no Centro de Refugiados, na Universidade Nova e no ISCTE”.
Quando já tinha algum conhecimento de português, e aproveitando a natural fluência em árabe, começou a fazer trabalhos de interpretação e tradução, que conciliava com alguns trabalhos na Associação Crescer. Como Omar esperava, o domínio da língua abriu-lhe mais portas e, depois de terminar o ensino secundário, entrou, em 2024, para o curso de Psicologia no ISCTE, em Lisboa.
“Eu gosto desta área, acho a saúde mental uma área muito importante. E acho que pode contribuir para todos os seres humanos.” Se a renda do quarto era difícil de pagar quando só recebia do estágio profissional, as condições ficaram ligeiramente melhores quando arranjou trabalho na Associação Crescer.
Entre trabalho, faculdade e estudar em casa, Omar arranja algum tempo para ajudar em “várias associações”, mas confessa alguma pena por não conviver com os poucos compatriotas que vivem em Lisboa. Volta a reforçar a importância da “língua” na integração na faculdade, que lhe valeu algumas amizades.
Depois de ouvir “Grândola, Vila Morena”, Omar regressou a casa de bicicleta. “Eles estavam a gritar insultos e a chamar-me nomes”
Foi com um amigo que o iraquiano decidiu seguir, a 24 de abril, para o Largo do Carmo. “Era um dia normal, mas um dia especial porque celebra a minha chegada a Portugal, em 2019”. Por isso, depois de ter passado parte do dia a estudar, foi com um colega português da faculdade que seguiu para o local onde, há 52 anos, se rendeu Marcello Caetano, então Chefe do Governo.
“Estivemos lá a cantar a música Grândola [Vila Morena]”, recorda. Já depois da meia-noite, Omar utilizou um serviço de aluguer de bicicletas para ir até casa. “Quando cheguei perto da Alameda [Dom Afonso Henriques] encontrei este grupo de jovens. Começaram a insultar-me não sei porquê”.
O refugiado lembra-se de serem “30 pessoas”, ou “quase”. Para escapar às “bocas” dos jovens, afastou-se, enquanto questionava para si o que tinha acabado de acontecer. Parou, 15 metros à frente, para processar tudo, junto de uma paragem de autocarro. “Parei só para tentar perceber aquilo, porque eles estavam a gritar insultos e a chamar-me nomes.”
Quando o grupo percebeu que Omar os estava a observar, voltou atrás e dirigiu-se ao iraquiano. ”Quando um deles se aproximou de mim, perguntei-lhe porque me estavam a insultar.” Mas os jovens não terão reagido bem à pergunta e, segundo o relato do iraquiano, intensificaram os insultos e roubaram a sua bicicleta.
Para se defender, o iraquiano tirou da mochila um ‘selfie stick’ e alguns dos jovens retiraram-se, com medo. “Um deles continuava perto de mim e tentei afastá-lo. Ele tinha na mão uma garrafa de cerveja, perdeu o equilíbrio e caiu no chão.”
Assim que viu o jovem no chão, Omar pensou que não queria escalar o conflito e guardou o ‘selfie stick’. Mas, nesse momento, os jovens voltaram a rodeá-lo e atacaram-no, como mostram os vários vídeos que começaram a circular nas redes sociais e que foram captados pelas várias pessoas que ainda estavam na rua pela 1h00.
“A primeira pessoa tentou bater-me com um murro, ele começou a bater-me, eu defendi-me e ele caiu no chão. Os outros estavam a bater-me e a mesma pessoa que tinha caído ao chão apanhou uma pedra e voltou a bater-me com a pedra na cabeça”. Durante os confrontos, Omar chegou a ser atingido com um pedaço de vidro que se tinha partido quando um dos jovens caiu ao chão. Assim que o iraquiano começou a sangrar, os jovens aperceberam-se que tinham ido longe de mais e começaram a fugir.
“Eu, nesse momento, tirei a [pequena câmara de ação] GoPro e fui a correr atrás deles, para filmá-los”. Frustrado e cansado, o refugiado de 27 anos voltou a sentar-se na paragem de autocarro e chamou a polícia, que chegou ao mesmo tempo que a ambulância, passados 20 minutos.
“Alguns estrangeiros ajudaram-me e ligaram para a ambulância com o meu telemóvel”. Quando a polícia chegou, prossegue, uma das pessoas que estavam a filmar tudo do outro lado da rua foi ter com Omar, que tinha sangue a escorrer na testa, para partilhar o vídeo.
O iraquiano acabou a noite no Hospital de São José, onde levou pontos na testa (onde tinha um corte de três centímetros), na bochecha e no topo da cabeça, como comprovam as fotografias que partilhou nas redes sociais e o relatório médico consultado pelo Observador.
Dois dias depois, recebeu em casa a visita da Embaixada do Iraque em Portugal, que levou flores ao refugiado. Antes disso, no 25 de Abril, Omar desceu a Avenida da Liberdade com um cravo na lapela e pensos a tapar os ferimentos da noite anterior.
Omar reconhece que estes atos “não representam a cultura portuguesa”, mas admite viver com mais medo
Apesar do risco, Omar decidiu correr atrás dos suspeitos das agressões porque não queria que o ataque passasse impune — segundo contou ao Observador, há poucos anos fez uma queixa por insultos racistas na polícia, mas o caso foi encerrado sem terem sido encontrados os suspeitos. “Desta vez não queria que isto acontecesse.”
Quando o iraquiano foi assistido e o cidadão que gravou as agressões disse que tinha captado tudo, as imagens foram prontamente partilhadas com a polícia. Ainda assim, Omar decidiu utilizar as redes sociais para ter ajuda a identificar as pessoas envolvidas e facilitar a apresentação da queixa — que aconteceu pouco depois.
“Foi útil partilhar nas redes sociais, porque muitas pessoas conseguiram dar informações que eu partilhei com os polícias. Assim, o processo avança mais rápido”. Apesar de já ter sido vítima de vários episódios racistas, o refugiado entende que esses atos, bem como as agressões de 24 de abril, “não representam a cultura, a educação e a sociedade portuguesa”. O estudante de 27 anos reconhece que não ouviu insultos racistas enquanto foi agredido pelo grupo, mas assume dúvidas quanto às intenções dos menores.
Com os contactos que foi estabelecendo nas redes sociais, Omar chegou aos nomes dos suspeitos, alguns já confirmados pela polícia. “Alguns deles estiveram a ver as minhas histórias no Instagram. Eles não sabem, mas eu sei quem eles são”. Segundo avançou o Público, os alunos pertencem todos ao Colégio Moderno, que reagiu ao caso com preocupação.

“O colégio é contra todas as agressões, e preocupa-nos. Somos todos contra toda a espécie de violência. Não é nada que nos diga respeito, foram situações de noite, mas faremos alguma coisa”, revelou Isabel Soares, diretora do colégio, ao Público. A direção promete tomar medidas, que serão ainda avaliadas.
A detenção de alguns elementos do grupo deixam Omar “aliviado”, mas ainda a sentir alguma insegurança. “Agora tenho algum medo, porque estou a receber algumas mensagens com insultos. Preocupa-me também a publicação do André Ventura [líder do Chega], porque muitas pessoas estão a mostrar algum ódio.”
“Se o iraquiano for o autor do crime, ocultam a nacionalidade para evitar racismos e xenofobias. Se for a vítima (e os autores forem portugueses) pode-se dizer a nacionalidade à vontade. Que raio de país que estamos a construir, sinceramente”, escreveu o líder partidário no Instagram.
“Pelos comentários que as pessoas estão a fazer, vê-se que há algum ódio”, reage Omar.
O episódio, para já, não o fez mudar de ideias quanto ao futuro, que continuará a passar por Portugal. “Já passei por vários países nos últimos anos — Iraque, Turquia e Portugal. Não gostaria de começar do zero outra vez, é um processo duro”.
Desde que saiu de casa, há 12 anos, Omar nunca mais voltou a ver a mãe e os três irmãos — uma irmã que estuda Direito, outro que estuda Medicina e um que se dedica ao YouTube. “Eles estão no Iraque. Eu falo com eles todos os dias, mas a família não se substitui, nada a pode compensar.”
Enquanto estiver a decorrer o processo para obter a nacionalidade portuguesa, o refugiado diz que não os conseguirá visitar. Por isso, em Portugal, promete continuar a marcar presença nos festejos do 25 de Abril. “É um dia muito importante para mim e para os portugueses, pode considerar-se como o meu primeiro dia em Portugal.”