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(A) :: A Banda é a Alma da Festa 

A Banda é a Alma da Festa 

Continuo a guardar na memória os arraiais com a banda a tocar à noite, à luz dos candeeiros a petróleo ou das fracas lâmpadas elétricas alimentadas por gerador.

Nuno Pires
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Na nossa região em particular e no país em geral, quando a primavera se faz sentir e o calor a aproximar-se, começam os acontecimentos festivos que animam as nossas comunidades, quer no meio urbano, quer no meio rural. Mas na aldeia a festa anual merece sempre uma referência e um espírito de entusiasmo e identidade, muito particular.

O dia de festa, numa aldeia, é o maior acontecimento social do ano. Potencia entusiasmo e dinamismo como nada mais. A mobilização é geral, com efeitos especiais tanto na terra como nas localidades vizinhas. Vive-se e sente-se. Reflete a união de uma comunidade em torno do mesmo objetivo, em respeito pelas tradições locais e religiosas.

Uma das tradições que mais ambiente potencia é, na minha opinião, a presença de uma banda filarmónica. Na minha aldeia, a festa não acontece sem ela.
Recordo-me de acordar, ainda criança, na manhã da festa ao som melodioso da banda a percorrer as ruas, com o estoirar dos foguetes. O encantamento da música e a euforia da pólvora davam uma animação singular à povoação. A imagem dos mordomos à frente da banda e a garotada atrás ainda perdura na minha memória, como perdurará na de muitos “jovens” do meu tempo.

Para mim, a banda é o símbolo da identidade de uma festa de aldeia, ou vila rural. Pelo menos no meio onde cresci. Recordo um dos anos em que fui responsável pela festa e, por lapso, ficou uma casa sem músico atribuído. Era, e continua a ser, tradição um agregado familiar hospedar pelo menos um músico. A reação não foi positiva. O chefe da família fez questão de mostrar o descontentamento. O prestígio de uma casa passa também por hospedar um músico no dia da festa. Desde logo, para “matar-o-bicho” pela manhã.

Depois, a Procissão sem a solenidade de uma filarmónica não é a mesma coisa. A presença da banda confere outra dignidade ao ato religioso. Ajuda a promover a concentração dos fiéis que, muitas vezes, sem algo que os motive, perdem a noção do contexto e o respeito pelo sagrado. O silêncio deve imperar religiosamente na manifestação de fé de uma Procissão.

Após as celebrações, que devem ser a parte mais importante das festividades, é tão agradável ouvir, junto à capela ou ao adro da igreja, umas “penadas” da banda, como o meu pai dizia, com frequência. Até dá a ideia que o som prolonga o bem-estar da Eucaristia.

Não pode ser esquecida a cerimónia da Entrega da Festa aos novos mordomos, com a banda a percorrer, de novo, as ruas do burgo, como que a jeito de despedida. Um cenário de pura tradição rural, sem igual, que promove a interação positiva e a harmonia.

Percebo que os tempos mudam e as vontades são outras, mas continuo a guardar na memória os arraiais com a banda a tocar à noite, à luz dos candeeiros a petróleo ou das fracas lâmpadas elétricas alimentadas por gerador, cujo motor por vezes avariava. Foram tempos que não voltam. Mas espero e desejo que a banda filarmónica volte todos os anos à festa da minha aldeia, tal como eu pretendo voltar enquanto puder. Até agora, marquei sempre presença com alegria e bem-estar.

Para terminar, deixo os meus parabéns a todas as pessoas que contribuem para manter vivas as nossas bandas filarmónicas e a todas as comissões de festas que apostam na sua contratação. Assim se faz o desenvolvimento cultural da nossa região.