Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
…
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
A genialidade do nosso maior poeta revela-se na modernidade desta reflexão, que deveria ser referência obrigatória para quem hoje decide e intervém.
Camões recorda-nos que a mudança é estrutural: o mundo transforma-se independentemente da nossa vontade ou consciência. Mas adverte-nos também para algo mais profundo: o verdadeiro espanto não nasce do facto de o mundo mudar, mas de o mundo já não mudar como aprendemos a esperar.
É precisamente nesse espaço – entre a transformação e a perda de referências – que se instala a crise geoeconómica e geopolítica atual. Não se trata de um simples desvio a um equilíbrio que se restabelecerá, como ocorreu noutras circunstâncias, mas da expressão de uma rutura estrutural profunda, que deixa de obedecer às formas habituais de recuperação e exige um novo sistema de referências para compreender as transformações em curso e reconstruir confiança sistémica.
É aqui que entra o que designamos de terceiro choque petrolífero – a atual crise energética provocada pela guerra do Médio Oriente. Diferentemente dos choques dos anos 70 e 80, este novo choque petrolífero não introduz apenas transformações num mundo essencialmente idêntico, mas sinaliza a passagem para outra configuração histórica, em que a própria forma da mudança se altera.
Este terceiro choque energético, em curso, produzirá maiores ou menores impactos na economia global, consoante a extensão e duração dos fatores que lhe deram origem. Mas é já visível o seu enorme potencial de fragmentação geoeconómica e geopolítica, existindo risco elevado de uma nova recessão da economia global, como assinalam as mais recentes projeções do FMI e de outras instituições internacionais.
Ainda assim, importa reconhecer que não estamos simplesmente no limiar de uma nova recessão da economia global, mas perante um fenómeno mais profundo: uma catalisação das mudanças de natureza geoeconómica e geopolítica que resultam da perda relativa da centralidade europeia e, sobretudo, da emergência da China como potência global desafiante da hegemonia económica e política dos Estados Unidos – algo de que os europeus estão plenamente conscientes, como sublinhado nos relatórios Letta e Draghi de 2024.
O primeiro e o segundo choques petrolíferos produziram fortes impulsos na autonomia económica da Europa, com o aprofundamento da integração económica e monetária: o novo Sistema Monetário europeu, em 1979, o Ato Único Europeu em 1987, criação da União Europeia em 1993, culminando com a criação do euro em 1999. Este terá sido o último passo significativo no desenvolvimento do processo de integração da Europa, num contexto de colapso das referências geopolíticas, com o derrube do muro de Berlim e da implosão da União Soviética. Seguiu-se a reunificação da Alemanha e uma profunda alteração da relação de forças no seio da União, com o reforço da hegemonia alemã na definição das políticas europeias, a viragem para o centro e leste da Europa, e a reorientação estratégica da integração em direção ao alargamento.
Esta viragem produziu alterações qualitativas importantes no funcionamento da União Europeia e da Zona Euro, com consequências negativas na resposta à crise económica e financeira de 2008-2009 – uma crise de que a Europa não mais recuperaria verdadeiramente, não obstante a inflexão introduzida por Mario Draghi no BCE, a partir de novembro de 2011, com a política monetária não convencional.
A persistência, em contraponto, de uma política orçamental ortodoxa, de matriz germânica impediu uma resposta estrutural à crise, acentuando o diferencial de dinamismo face aos Estados Unidos, em particular no domínio da transformação tecnológica. A própria Alemanha – principal beneficiária do ajustamento assimétrico no seio da zona euro, que se refletiu numa recuperação forte em 2010-2011, assente na indústria exportadora – perdeu progressivamente capacidade de adaptação estrutural, entrando em perda a partir de 2012, até cair em estagnação a partir da crise pandémica de 2020.
O grande desafio que se coloca agora à Europa é saber se é capaz, à semelhança do que ocorreu nos choques anteriores, de transformar este terceiro choque numa oportunidade para reforçar a sua autonomia estratégica, aprofundar a integração económica e política, ajustar a sua arquitetura institucional e redefinir objetivos e prioridades, afirmando-se, simultaneamente, como polo de referência na construção de um novo sistema global de relações internacionais, assente na cooperação multilateral.