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"Michael": um filme da terra do nunca

Michael Jackson continua a ser uma das maiores estrelas pop de sempre. E a possibilidade de ver o seu espectáculo acontecer explica o sucesso de um biopic questionável, escreve João Bonifácio.

João Bonifácio
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Podemos perdoar o meu filho por, ao ouvir-me dizer que ia ver Michael, o biopic de Michael Jackson realizado por Antoine Fuqua, perguntar: “Mas porque é que alguém haveria de querer ver um filme sobre Michael Jackson?” Ele tem 16 anos e escassa noção da grandeza que Jackson alcançou enquanto estrela pop. Para ele, Jackson é o tipo que escreveu Billie Jean e foi acusado de pedofilia.

Mas, ao mesmo tempo, a pergunta faz sentido, mesmo para aqueles que acompanharam o trajeto de Michael Jackson – aqueles que o viram ser uma criança adorável, um jovem a ascender ao estrelato, aqueles que acompanharam as polémicas (o nariz, a cor de pele a ficar cada vez mais branca, o estranhíssimo Neverland, um mega-lar de repleto de animais e crianças).

Estas polémicas eram inicialmente vistas como manias inocentes de uma estrela que, enfim, lá teria os seus problemas, as suas taras, as suas inseguranças. Uma estrela que não teve outra hipótese a não ser tornar-se uma estrela, com todas as consequências que tal atitude pode gerar — e gerou. E atenção: nada disto impediu que ele fosse visto como o Rei da Pop e, até, como uma espécie de filantropo, entre constantes doações de dinheiro para hospitais pediátricos e quejandos.

[o trailer de “Michael”:]

https://www.youtube.com/watch?v=3zOLzsbOleM

Durante anos foi esse o lugar que ele ocupou na nossa cultura: o de Rei da Pop – éramos tão ingénuos nos anos 80 em relação ao estrelato pop que milhões de pais pelo mundo fora partilhavam com os filhos a sua adoração por Jackson. É um facto que Jackson tinha um sentido de espectáculo avant la lettre – desde o uso de vídeos para publicitar a sua música, passando por toda a pirotecnia visual que ilustrava os seus espectáculos ao vivo. Não que ele tenha inventado tais artifícios, mas levou-os a um ponto que, até então, era desconhecido do grande público.

Muito do discurso acerca de Michael Jackson pertencia — tal como acontecia com outras figuras da época, como Madonna ou Mick Jagger — mais ao reino da proeza atlética do que ao reino musical: as pessoas admiravam a quantidade de quilómetros percorridos por Michael em palco, as suas piruetas, o famoso Moonwalking. Não faltavam miúdos a querer usar uma luva como a da estrela e a imitar a sua indumentária.

É fácil, é justo e é inevitável admitir que nos anos 80 o lugar que Jackson ocupava na cultura era, efetivamente, o de Rei da Pop – qualquer digressão ou concerto dele enchia noticiários, era capa de todas as revistas e, convenhamos, projetava um universo com mais magia do que, por exemplo, Phil Collins, um indivíduo que consegue ter menos sex-appeal do que o meu contabilista, mas que alcançou um nível de celebridade estratosférico naqueles mesmos anos. Para facilitar a vida dos pais, Jackson era estranhamente assexuado, ao contrário de algumas figuras marcantes da cultura popular da época, como Madonna, Tina Turner, Mick Jagger ou David Bowie.

Jackson tinha um sentido de espectáculo "avant la lettre" – desde o uso de vídeos para publicitar a sua música, passando por toda a pirotecnia visual que ilustrava os seus espectáculos ao vivo. Não que ele tenha inventado tais artifícios, mas levou-os a um ponto que, até então, era desconhecido do grande público.

O discurso começou a mudar quando Jackson foi acusado de abuso sexual de uma criança – foi absolvido em 2005, mas por essa altura já as dúvidas sobre se ele tinha ou não um comportamento desviante se tinham adensado. Para mais, o próprio admitiu que regularmente partilhava o quarto com crianças. O seu lugar na cultura tornou-se no mínimo indefinido, para muitos obscuro; não sabemos que lugar seria o de hoje se Jackson não tivesse morrido em 2009, com 50 anos.

Jackson sempre foi, aliás, visto como uma criança grande, sem grande noção do mundo real, alguém que oferecia fantasia porque vivia num mundo de fantasia. De certo modo, Michael, o filme — que na primeira semana nas salas norte-americanas fez mais de 200 milhões de dólares de bilheteira — tenta reposicionar Jackson como a maior estrela pop de sempre, oferecendo-nos a versão benévola e desprovida de qualquer polémica da biografia do cantor: desde o início ele é apresentado como um miúdo super-talentoso, abusado por um pai que lhe batia sem piedade, um miúdo que, talvez para escapar a essa dor, se dava mais com animais do que com crianças da sua idade, um miúdo exposto desde muito cedo ao mundo do espectáculo e que não teve oportunidade de desenvolver uma personalidade — tudo o que sabia ser era aquela pessoa que atuava e encantava os outros.

Convém então recordar que este não é um biopic comum – o papel de Michael Jackson é interpretado por Jaafar Jackson, que é filho de Jermaine Jackson, ou seja, sobrinho direto de Michael. A família esteve intensamente envolvida não só na produção (o que lhes deve render uns valentes milhões, ao ritmo a que as pessoas estão a ir ao cinema), como – e esta é a parte principal – no controlo criativo da escrita do guião.

Não há a mínima dúvida que Michael procura recolocar Jackson como super-estrela pop, atormentada pelo abuso de que foi alvo, o homem que se refugiou num mundo infantil e mágico, que tinha uma relação especial com as crianças (são inúmeras as cenas em que ele visita crianças nos hospitais), que nunca cresceu.

Ou seja: Michael vende-nos a exata mesma história que o séquito de Jackson nos vendeu durante décadas, sem nunca abordar o elefante na sala. O que nos leva à pergunta: porque é que as pessoas vão ver o filme? Porque não acreditam nas acusações de pedofilia que foram feitas ao longo dos anos? Porque ouviram falar nessas mesmas acusações mas não se informaram por aí além, de modo que isso não alterou a imagem que tinham da estrela? Por nostalgia? Porque é a oportunidade de ver, possivelmente pela última vez, algo relacionado com a estrela com que se relacionaram em miúdos?

O que o sucesso do filme nos diz é que pouco importa que dúvidas rodeiam a vida de uma pessoa com esta capacidade de influência e este poder mediático. Há sempre uma forma de dar um spin a uma história, de estabelecer uma narrativa, de maquilhar as borbulhas na cara.

Tal como Jackson foi ficando, com a idade, cada vez mais branco, também Michael evita o que quer que seja de escuro – e o filme acaba em 1988, tinha Jackson 30 anos; estranhamente, o ecrã fica escuro e depois lê-se “A história continua”. Sim, continua, e essa talvez fosse a que valeria a pena contar ou sobre a qual tentar indagar. Ainda assim, ficamos a pensar se haverá um Michael 2 e, a haver, como vão resolver a questão que nesta narrativa ficou totalmente silenciada.

Tenho de admitir que a minha relação com Michael Jackson é diferente: acho Don’t Stop ‘Till You Get Enough e Billie Jean duas obras-primas, gosto de mais meia-dúzia de canções, mas nunca me ocorreria que Jackson fosse outra coisa a não ser um produto da indústria; nunca tive interesse nas suas danças, como não tenho qualquer interesse em ver qualquer cantor dançar: quando vou a um concerto quero ouvir música, não quero coreografias que só me desconcentram da – como dizer? – música. E por favor não me falem em espectáculo – se eu quiser espectáculo vejo Victor Wembanyama a jogar basquete.

Também por tudo isto não sei ao certo o que as pessoas procuram em Michael. Talvez simplesmente Jackson tenha sido a música que ouviram numa certa idade, talvez tenham passado ao lado do trabalho que Quincy Jones e de uma série de compositores que compuseram e produziram os discos em que Jackson cantava, talvez simplesmente queiram olhar para o ecrã e dizer: “Ah, sim senhor, lembro-me disto”.

Uma certeza: Michael Jackson tem muitos fãs. E muitos não se incomodam com acusações, documentários ou qualquer outra coisa que possa levantar questões e dúvidas sobre o carácter do homem. Alguns destes seguidores são mais recentes, conquistados entre gerações mais novas, filhos que cresceram com as cantigas ouvidas pelos pais, vídeos do Youtube e do Tik Tok, imitações em programas de talentos. A maior parte só quer ver a sua estrela favorita (ou aquilo que de mais próximo existe) e ouvir as canções. É nostalgia, saudade de um lugar que conhecem ou fascínio por um tempo que não viveram. E nesta equação, as interrogações são apenas isso, interrogações, facilmente colocadas de lado, até porque a morte ajuda a reseolver esse dilema: “Michael Jackson está morto, nada mais haverá a fazer, sigamos em frente com a arte que resta”.

Por outro lado, muitos serão os que, em consciência, estão dispostos a colocar de parte as reservas que têm face ao homem e à política de lucro selvagem do filme, nem que seja penas durante a duração do mesmo. Em certa medida, as estrelas pop pertencem ao mundo da ficção, como se não fosse possível ter tal nível de popularidade e pertencer ao reino dos seres humanos normais. Neste campeonato, Michael Jackson está no topo de tal tipo de figuras. E a verdade é que é possível viver com todas as dimensões de uma personagem de ficção, venerada e julgada ao mesmo tempo, na mesma medida.

O que o sucesso do filme nos diz é que pouco importa que dúvidas rodeiam a vida de uma pessoa com esta capacidade de influência e este poder mediático. Há sempre uma forma de dar um spin a uma história, de estabelecer uma narrativa, de maquilhar as borbulhas na cara. O que o sucesso do filme nos diz é que talvez – mas só talvez – não vivamos em era de cancelamento alguma e talvez as pessoas se estejam a borrifar para tudo isso desde que obtenham as suas duas horas de, digamos, espectáculo. Mesmo que o espectáculo seja, como Michael o é, indigente até à náusea. No fundo, o espectáculo nunca pode parar e há dinheiro a ser feito. Estamos todos de parabéns.