Volti dei Vangeli é um programa do Dicastério para a Comunicação do Vaticano de 2022, em que o Papa Francisco vai comentando brevemente e de viva-voz rostos dos Evangelhos, que passam diante de nós vistos e ilustrados ao longo dos séculos por grandes pintores ou anónimos copistas.
É um desfile que nos alerta para uma evidência: não há noticiário ou reportagem que se lhe aproxime, até em actualidade; nada que nos dê tão sucintamente o mundo e a natureza humana na paz e na guerra.
Todos nos vamos reconhecendo e reconhecendo este mundo e os rostos que o habitam nos pequenos tratados da condição humana que são as parábolas: o pobre Lázaro e o rico sem nome; o filho pródigo, o irmão mais velho e o Pai; o homem assaltado, o sacerdote, o levita e o bom samaritano.
Dir-nos-á alguma coisa o abismo sulcado pelo rico que “se vestia elegantemente e vivia todos os dias no prazer e no luxo”, sensível a todos os requintes e subtilezas, mas insensível a Lázaro que, “deitado à sua porta, desejava comer ao menos as sobras da sua mesa”; um abismo tornado intransponível e que, consequentemente, assim continua quando, depois da morte, as posições se invertem (Lucas 16:19-31). Ou o homem assaltado por ladrões que fica no chão, meio-morto, ante a indiferença dos que passam, até do sacerdote e do levita, membros e símbolos da religião e da solidária ideologia oficial, e que só encontra o seu verdadeiro próximo no samaritano, no marginal excluído da boa sociedade, que cuida dele, o carrega até uma hospedaria e zela pela sua cura (Lucas 10, 25-37). Ou como o Pai que recebe o filho devasso e perdulário, ante o escândalo e o ressentimento do filho mais velho, o correcto, o cumpridor (Lucas 15, 11-32).
Entre os rostos do Evangelho que o Papa vai percorrendo, estão também os rostos reais de S. Pedro, inseparável do galo que apregoa a sua repetida traição, e de S. José, santo que, tal como nós mas mais notoriamente, vive lado a lado com o mistério e com a aceitação do mistério e de que Francisco se diz particularmente devoto (tinha na mesa de cabeceira uma imagem de S. José dormindo e, quando tinha alguma dúvida, escrevia-lhe um bilhete e punha-o debaixo da imagem).
Cristo prevê a traição de Pedro, tal como prevê a traição de Judas, porém a liberdade de cada um leva-os por caminhos diferentes.
Pilatos e Judas
E há também o rosto de Pilatos, num dos momentos cruciais dos Evangelhos: a paixão e a morte de Cristo. E quanto a Pilatos, o Papa Francisco não tem dúvidas: o governador da Judeia, homem inteligente e até sensível, condena Cristo para não comprometer a carreira. Pilatos ocupa, assim, o 14º episódio dos Volti dei Vangeli, que Francisco intitula “schiavo del carreirismo”, “escravo do carreirismo”.
Pilatos e Judas – e com eles o mistério do Mal, o lavar de mãos, a traição por trinta dinheiros – são dos rostos mais perturbadores do Evangelho e dos mais presentes na arte e na cultura ao longo dos séculos.
O diálogo entre Jesus e Pilatos, relatado pelos quatro evangelistas, é dos textos mais intrigantes e fascinantes da Bíblia. Pôncio Pilatos é o poder político, o poder de Roma e do seu império, a autoridade máxima na Judeia. É a Pilatos que os judeus recorrem para neutralizar Cristo, usando o ardil de um delito que sabem punível pela lei romana e de que Cristo seria réu: o crime de lesa-majestade de se intitular “rei dos judeus”, elevando-se acima de César.
A figura de Pilatos, que devia ser ali o decisor “schmittiano”, mas que se recusa a sê-lo, é objecto de juízos variados e opostos ao longo da História. Nietzsche, no Anticristo (1895), vê-o como um “aristocrata romano” entre judeus primitivos e fanáticos. Ao seu modo radical, vai mesmo classificar o governador da Judeia como “a única figura nobre” do Novo Testamento, na sua distância e recusa em se envolver nas querelas dos locais. E no famoso “O que é a verdade?” de Pôncio Pilatos, vê, naturalmente, uma sentença céptica e até irónica. Para Nietzsche, uma religião em que Deus, o Filho de Deus, morre voluntariamente numa cruz, é uma patética apologia da fraqueza e da renúncia ao poder, uma negação da verdade, a origem do Mal (já que o Bem, conforme o define no Anticristo, é tudo o que é susceptível de aumentar “a vontade de poder” e o próprio poder no homem).
Bem oposta a esta imagem de Pilatos como nobre governador romano é a de Mikhail Bulgakov, em O Mestre e Margarida. O Pilatos de Bulgakov é um homem inteligente e a figura e o pensamento de Yeshua Ha-Nozri fascinam-no; mas hesita em salvá-Lo e recua, perante o risco que representa para a sua carreira de alto funcionário imperial. Bulgakov imagina também um destino e uma punição para Pilatos, pondo o Procurador, na sua humanidade medrosa e cautelosa, a mandar punir Judas Iscariotes por ter vendido Cristo.
Se Pilatos tivesse tido a coragem de não condenar Jesus, como se consumaria a Paixão? E se Judas, o traidor, não tivesse traído e entregado Cristo, como se consumaria o que “estava escrito” e a Salvação? São mistérios da presciência divina e da liberdade humana, da conflituosa coexistência do Mal e do Bem, da providência divina e do livre-arbítrio com que, consciente ou inconscientemente, nos confrontamos diariamente.
Dante põe Judas na Judecca, o pior lugar do Inferno, o Nono Círculo gelado, onde o traidor é pessoalmente atormentado pelo próprio Lúcifer; e em Shakespeare, em tragédias como Othello e Macbeth, Judas é também o traidor por excelência. Já Jorge Luis Borges, no conto “Tres versiones de Judas”, de 1944, escreve uma imaginativa e imaginária justificação de Judas, narrando em jeito de nota ou de opúsculo académico a história de Nils Runeberg, um teólogo sueco fictício, que, no livro Kristus och Judas, seguindo Thomas De Quincey, sustenta que Judas entrega Cristo para O obrigar a assumir a Sua divindade, instigando uma revolta nacional judaica contra Roma.
Há muitas outras explicações para a traição de Judas, assistidas por razões racionais ou até éticas. Eu, que cresci nos primeiros anos cinquenta, nos tempos pré-conciliares de Pio XII, aprendi que só havia uma pessoa que, garantidamente, estaria no Inferno: Judas Iscariotes. Mas, disse-nos Bento XVI, parece que nem isso é certo; que “no Seu misterioso projecto de salvação”, Deus assumia “o gesto indesculpável de Judas como ocasião do dom total do Filho pela salvação do mundo”, e, quem sabe, na Sua infinita misericórdia, não tivesse até perdoado o discípulo traidor, que devolveu os 30 dinheiros antes de, no desespero, se suicidar.