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O carpinteiro de Nazaré e a festa dos camaradas

A questão que ficou por responder, a que nem o marxismo nem a social-democracia alguma vez responderam com seriedade, é a questão do sentido. Para quê trabalhar?

João A. B. Da Silva
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Há uma batalha que a maioria dos portugueses trava sem saber que a está a travar. Acontece todos os anos, no mesmo dia, com bandeiras vermelhas de um lado e o calendário litúrgico do outro. O 1 de Maio não é apenas um feriado. É um campo de batalha cultural com mais de um século, e a maior parte de quem desfila, descansa ou simplesmente dorme até tarde não o reconhece como tal.

Comecemos pelo princípio, que neste caso é mais antigo do que os mártires de Chicago. Antes de 1886, antes da greve geral, antes do Haymarket e dos seus mortos, o 1 de Maio já era celebrado em muitos países da Europa como o início da primavera, uma festa popular sem conotação política nem ideológica. Foi o movimento comunista internacional que a capturou, a rebaptizou e a transformou num instrumento de mobilização. A Segunda Internacional, reunida em Paris em 1889, decretou que a data seria daí em diante o Dia dos Trabalhadores. A União Soviética adoptou-a três décadas depois como feriado nacional. E foi assim que uma festa de flores e estações do ano se converteu no maior desfile anual do internacionalismo marxista, com paradas militares em Moscovo, Pequim e, claro, Havana, além de comícios sindicais de Lisboa a Caracas.

Hoje a data é feriado em mais de oitenta países. Na América do Sul, em quase toda a Europa Ocidental, na Rússia, na Índia, na China e em grande parte de África. Curiosamente, não nos Estados Unidos, onde tudo começou: em Washington escolheram o Labour Day de Setembro em parte para evitar a associação com os movimentos mais radicais. Não no Japão, onde o equivalente se celebra em Novembro. Não no Reino Unido, onde cai na primeira segunda-feira de Maio. O mundo não é tão unânime quanto os discursos do 1 de Maio sugerem, e a unanimidade que existe foi, em boa parte, construída pela propaganda soviética.

A Igreja Católica não ficou calada. Em 1955, o Papa Pio XII dirigiu-se aos trabalhadores e anunciou-lhes um presente: a partir daquele dia, o 1 de Maio seria também a festa litúrgica de São José Operário. A escolha não foi acidental. Foi uma resposta directa, deliberada e teologicamente fundamentada à apropriação comunista da data. Pio XII sabia o que estava a fazer, e disse-o sem rodeios: o humilde carpinteiro de Nazaré personificava a dignidade do trabalhador de uma maneira que nenhum manifesto de Marx alguma vez conseguiu, porque o fazia sem mentir sobre a natureza humana, sem prometer paraísos impossíveis e sem precisar de Gulags para garantir a adesão dos indecisos.

São José não é um patrono conveniente ditado pelo calendário. É o exacto oposto do trabalhador marxista, e a oposição não é acidental: é doutrinal. Para Marx, o trabalho aliena, separa o homem do fruto das suas mãos e reduz-o a peça de um mecanismo que só a revolução poderia redimir. O Génesis ensina o contrário desde o início, quando coloca o homem no jardim para o cultivar e guardar, antes da queda, antes do suor e do espinho, revelando que o trabalho não é punição nem alienação, mas participação na obra de Deus. Cristo confirma-o com trinta anos de silêncio em Nazaré: não prega, não escreve, não convoca. Trabalha. E os Evangelhos não sentem necessidade de explicar porquê, porque nenhuma explicação é necessária. Trinta anos de carpintaria antes de três anos de pregação. A proporção não é acidental. É uma afirmação sobre o que Deus considerou digno do seu tempo, e portanto sobre o que deve ser digno do nosso.

São José vive nessa mesma ordem com uma inteireza que nenhum manifesto alguma vez produziu: sem palco, sem audiência, sem validação do Estado nem absolvição da História. Faz bem o que faz porque não concebe fazê-lo de outra maneira. A sua dignidade não lhe é concedida por nenhuma vanguarda nem aguarda nenhuma etapa final da dialéctica. É anterior, é constitutiva, é a dignidade de quem foi criado para cooperar com Deus e sabe disso, em silêncio, em Nazaré, com as mãos cheias de serradura. É isto que Pio XII viu em 1955 e que os discursos do 1 de Maio continuam sistematicamente a não ver.

Mas há uma deformação menos dramática e por isso mais persistente: a separação por indiferença. A religião fica para os domingos. O trabalho fica para os dias úteis. Os dois deixam de se falar, e cada um vive com a ilusão de estar a funcionar bem. O resultado é uma espiritualidade sem consequências práticas e um trabalho sem fundamento moral. O primeiro transforma-se em sentimento de pertença, conforto estético, cultura de tradição. O segundo torna-se maximização de resultado, instrumento de acumulação, performance mensurável. Ambos empobrecem. E a passagem de Mateus 22:21, escrita para separar esferas com responsabilidade em cada uma delas, passa a ser usada para justificar a sua incomunicabilidade permanente.

A tradição beneditina recusa esta separação há quinze séculos. Ora et Labora não é um slogan de produtividade medieval: é uma arquitectura de vida que insiste que o trabalho e a oração participam da mesma realidade. E a coerência exige que o trabalho seja feito bem, não por eficiência, mas porque o desleixo é uma forma de desrespeito pela ordem do mundo que é a ordem de Deus. É uma afirmação sobre a qualidade moral do trabalho quotidiano que nenhuma legislação laboral, por mais generosa que seja, consegue substituir.

A santificação do trabalho ordinário parte de uma premissa radical: que o lugar onde a fé se torna visível não é só no altar. É a rotina de segunda a sexta. Não é a procissão do 1 de Maio, é a reunião de segunda-feira conduzida com honestidade, sem subterfúgios, sem a pequena corrupção dos acordos implícitos e das verdades convenientes. O trabalho bem feito não é metáfora de algo maior. É a forma concreta de participar na ordem de um mundo criado e redimido. Esta não é uma teologia de consolação. É uma teologia de exigência.

E é por isso que o 1 de Maio, despido da retórica sindical e da nostalgia revolucionária, recupera uma dimensão que os discursos de comício raramente tocam. Os trabalhadores que os movimentos do século XIX defenderam tinham razões concretas e legítimas para a sua indignação: jornadas de dezasseis horas, acidentes sem compensação, crianças nas minas. Essas batalhas foram ganhas, com avanços reais que nenhuma celebração apaga. Mas a questão que ficou por responder, a que nem o marxismo nem a social-democracia alguma vez responderam com seriedade, é a questão do sentido. Para quê trabalhar, além do salário? O que confere dignidade ao trabalho que ninguém aplaude, na obscuridade de Nazaré, quando ninguém está a ver?

São José não tem resposta discursiva para isso. Tem uma vida. E vive-a sem hesitação, sem ressentimento e sem esperar que o Estado a reconheça. Trabalha, guarda silêncio. Ensina o Filho de Deus a fazer cadeiras. O Criador do universo aprendeu a trabalhar com um carpinteiro de uma província romana de segunda ordem. Isso diz qualquer coisa sobre o trabalho que nenhum congresso sindical alguma vez formulou com tanta precisão.

A dignidade do trabalho não vem da sua visibilidade, da sua remuneração, da sua aprovação social nem da sua utilidade mensurável. Vem de uma fonte mais profunda e mais resistente do que qualquer decreto, e tem um destino que nenhum decreto pode confiscar: os frutos do trabalho humano não desaparecem com o homem que os produziu. São matéria da criação que foi redimida e que será transfigurada. O marxismo prometeu o paraíso na terra e produziu o Gulag. A fé não promete nada na terra. Promete tudo depois dela, e é isso que torna o trabalho de hoje irredutivelmente sério.

É essa fonte que a festa de São José Operário recorda, há setenta anos, todos os dias 1 de Maio, não em concorrência com os direitos dos trabalhadores, mas em correcção da ilusão de que esses direitos chegam para responder à pergunta que importa. Neste 1 de Maio, haverá desfiles, discursos e punhos erguidos em algumas capitais. Haverá também, em milhares de igrejas, a memória de um carpinteiro que nunca fez um discurso na vida. A história não registou nenhuma palavra sua. Ficou apenas o trabalho, feito em silêncio, sem audiência, sem que nada ficasse de fora. A diferença entre uma oferenda e um holocausto é que no segundo não sobra nada. Não foi São José que não entrou para a história. A história é que não chegou para ele.