“É o nosso cofre, hoje está aberto”. Dentro do cofre está o “tesouro” da família Nabeiro. No novo armazém de café verde da Delta cabe o suficiente para garantir a produção por seis meses. São milhares de sacos de grãos por torrar, empilhados até ao tecto. “Está ali, literalmente, todo o nosso investimento”, diz ao Observador Rui Miguel Nabeiro, CEO da Delta Cafés. Em Campo Maior, onde começou com três pessoas e um moinho, o grupo fundado por Rui Nabeiro acabou de investir 20 milhões de euros com um objetivo: entrar no top 10 mundial de produtores de café.
“Quantos milhões de cafés por dia é que os senhores servem?”. À pergunta do primeiro-ministro, Luís Montenegro, a quem coube carregar no botão para inaugurar a nova linha de cápsulas Delta Q, Rui Miguel Nabeiro tem a resposta pronta: 14 milhões. Reza a lenda em Campo Maior que Rui Nabeiro, avô do atual CEO, quando fundou a Delta, tinha como objetivo ter a marca em todos os cafés da estrada que liga Badajoz a Madrid. Hoje, o triângulo vermelho que simboliza a marca está espalhado em 50 países.
É Adelino Cardoso, mestre cafeeiro que trabalha na Delta há quase 50 anos, quem guia a visita. “Como é que está o senhor café?”, cumprimenta Montenegro. Bata branca e touca elástica são obrigatórios e quem não cumpre o dress code fica à porta. Primeiro-ministro, ministro da Economia e o presidente da câmara de Campo Maior lideram a vasta comitiva da inauguração que a família Nabeiro, presente em peso, preparou para mostrar o resultado dos últimos seis anos de trabalho que culminaram em 20 milhões de investimento.
Entre os presentes, há um que salta à vista. O empresário Manuel Champalimaud, cujo grupo é “parceiro da Delta desde o início” do negócio das cápsulas através da empresa GLN, que fabrica peças plásticas para a indústria automóvel em Leiria, mas também produz as cápsulas dos cafés Delta. “1,3 milhões por dia”, revela, numa fábrica “só para a Delta”.
“É cru? Não sabe a nada”, nota Luís Montenegro durante a prova de um grão. Não dirá o mesmo da versão líquida, das variedades arábica e robusta, que lhe são dadas a testar. “Os portugueses gostam mais de robusta”, que é onde está o creme, mas a junção dos dois é o que dá “a mistura perfeita”, explica aos jornalistas Maria João Cunha, diretora de qualidade e assuntos regulamentares da Delta. Trabalha no grupo há mais de 20 anos. Tinha quatro quando viu o pai entrar na empresa. “Éramos vizinhos do Sr. Rui”, lembra, referindo-se ao fundador Rui Nabeiro. A história é comum a muitas das mais de mil pessoas que a Delta emprega em Campo Maior.
E é esse legado que a família quer continuar. “Estamos a dar continuidade a uma história que começou com uma convicção simples mas extraordinária: a de que é possível construir uma grande empresa sem nunca perder a proximidade às pessoas”, diz João Manuel Nabeiro, chairman do grupo. “Foi esse compromisso que me levou a fazer há mais de 45 anos uma escolha bastante concreta. A de ter dentro desta fábrica, literalmente, a minha própria casa”.
Crescer lá fora “com os pés no chão” e recados para Montenegro
Para a Delta atingir o top 10 mundial, o caminho ainda é longo. Em dois anos, o grupo passou do 22.º lugar do ranking para a 20.ª posição. “Ainda não é a Liga dos Campeões”, onde jogam rivais como a Nestlé (dona da Nespresso), a Lavazza ou a Starbucks, “mas já é a liga dos melhores”, assume Rui Miguel Nabeiro. O CEO acredita que a entrada na ‘Champions’ é possível daqui a 15 anos.
Foi para isso que, com o “maior investimento de sempre da história industrial” do grupo, a Delta equipou e modernizou a fábrica de Campo Maior não só com um armazém maior mas também com novos silos de armazenamento de café, um novo torrador de grande capacidade, moinhos industriais, linhas de embalamento e de produção de cápsulas e um parque fotovoltaico.

A capacidade de produção passou de 100 toneladas de café por dia para 200. O que não quer dizer que comece já a vender o dobro. “Não é automático. Era bom, gostava muito. Um dia vamos vender mais que o dobro, até porque não vamos chegar ao top 10 mundial a vender o dobro. Vamos chegar ao top 10 a vender cinco vezes mais do que vendemos hoje”, assume Rui Miguel Nabeiro ao Observador.
Ainda que o crescimento orgânico corra “a bom ritmo”, o CEO admite que a Delta anda de olho no mercado. “Não será possível chegar ao top 10 e ter o ritmo que nós pretendemos só de forma orgânica, apesar de, organicamente, nos correm bem as coisas. Estamos a olhar a possibilidade de aquisições, naturalmente, fora de Portugal”, revela, sem desvendar mais.
O grupo fechou este mês a aquisição de 100% de uma empresa em Andorra, que já fazia a distribuição dos produtos Delta no principado. “Começámos essa operação agora e continuamos a olhar para várias oportunidades”, acrescenta. “Somos, sobretudo, gente muito consciente. O meu avô ensinou-me que nós só levantamos um pé quando já temos o outro bem assente no chão. E é isso que temos estado a fazer”.
Para chegar ao top 10 do mundo, vai ser preciso “continuar a investir muito, consistentemente, durante anos”. E “decisões de investimento desta escala levam anos a planear, uma geração a amortizar e décadas a consolidar”, declarou Rui Miguel Nabeiro, já no discurso que fez no auditório com o nome do avô e com o primeiro-ministro e o ministro da Economia na linha da frente. Para os dois tinha recados guardados.
“Estas decisões não se tomam em ambientes de incerteza, tomam-se quando existe confiança de que as regras do jogo se mantêm, de que o esforço de investir em Portugal é recompensado, de que quando uma empresa toma uma decisão de longo prazo, o enquadramento em que essa decisão foi tomada não se altera significativamente. Esperamos do país previsibilidade, estabilidade, simplificação e foco na competitividade”.

Ainda com o alvo no Governo, o CEO da Delta defendeu que “cada processo que se arrasta para além do prazo razoável é uma oportunidade perdida” e que “não se trata de um problema de pessoas mas um problema de sistema, e os sistemas podem melhorar”. E no que toca à política fiscal, “Portugal precisa de um sistema que estimula quem investe, quem exporta e quem cria emprego qualificado. Isso não deve ser entendido como um favor às empresas mas como uma estratégia de desenvolvimento do país. Precisamos de um Estado que trate a ambição das empresas como um ativo nacional”. O recado ficou dado.
Ano começou “mal”, mas preço do café não deve subir
O começo do ano não foi fácil para a Delta. Ao contrário, até, do que Rui Miguel Nabeiro chegou a antecipar em fevereiro, quando, na apresentação dos resultados de 2025, disse, em declarações à Lusa, que via 2026 “muito mais tranquilo”, depois de um ano marcado pela volatilidade nos preços da matéria-prima. Hoje, sorri quando se lembra dessas palavras. “Começámos logo mal, não foi? Janeiro e fevereiro foram meses muito maus”, confessa.
Desde logo por causa do ‘comboio de tempestades’ deste inverno. “Fomos muito impactados, quer em Portugal, quer em Espanha”. Até no consumo se sentiu, adianta. Ainda assim, Rui Miguel Nabeiro não contabiliza prejuízos, tirando nas duas instalações que a Delta tem em Leiria. “Mas comparado com aquilo que eu vi em Leiria, porque tive a ocasião de ir logo lá para ver a situação, não posso dizer que tivemos” perdas, diz.

A Delta fechou o ano passado com receitas de 650 milhões de euros. As exportações valem 35% do volume de negócios. O objetivo para este ano é crescer dois dígitos, apesar do arranque pouco promissor. “Acredito que temos a flexibilidade e a capacidade de adaptação suficiente para conseguirmos chegar ao final do ano com os resultados que pretendemos”. Até porque março já deu sinais positivos. “Foi muito bom, mesmo excecional, o que aliviou um bocadinho a pressão”. Mesmo com o impacto do conflito no Médio Oriente.
Além do preço do combustível, que afeta toda a cadeia de distribuição, a Delta está ser afetada pelo custo do gás. “Nós torramos café a gás, os nossos refrigeradores são todos a gás, portanto o preço do gás tem impacto, naturalmente, na nossa capacidade de produção. Estamos a medir todos os dias e a avaliar, mas para já ainda não me assusta. Poderá assustar a continuidade desta situação”, confessa o CEO.
Ainda assim, Rui Miguel Nabeiro não conta voltar a subir preços este ano, à semelhança do que aconteceu no ano passado. “Espero que não, não tenho em plano. O preço do café tem-se mantido estável e isso é uma notícia muito, muito boa para nós. Se o preço do café, que é o custo maior que nós temos, não nos dificultar a vida, não vejo razão para este ano termos que mexer nos preços do café”.
Catanas em sacas e o café preferido dos espanhóis
Dos novos investimentos da Delta, fazem parte três robôs, equipados com câmaras e sensores que lhes dão autonomia para passearem sozinhos pela fábrica e que se desviam quando surge alguém no caminho. Nos poucos metros que separam o novo armazém de café verde da fábrica da Delta, o movimento das máquinas não pára. Umas tiram as sacas de café dos contentores e colocam-nas em paletes, outras servem para despaletizar, ou seja, retirar as sacas das paletes e reencaminhá-las para um sistema onde vão ser reutilizadas pela indústria têxtil.
Dentro das sacas, junto dos grãos de café, já foi mais comum encontrar “objetos estranhos”. Iam desde facas e catanas a convites de casamento, chaves e maços de tabaco. Mas também pedras para fazer peso. “Agora cada vez há menos”, dizem os responsáveis da fábrica.
Já as sacas, são cada vez mais. “O meu avô foi sempre obrigando a termos pelo menos seis meses de stock. Eu inicialmente achava aquilo um disparate. Porquê tanto tempo? Quando há um ano e meio o preço do café teve a maior subida de sempre percebi que, de facto, fazia todo o sentido”, conta Rui Miguel Nabeiro. A memória do comendador Rui Nabeiro, que morreu em 2023, está tão impregnada na fábrica como o cheiro a café.
Para Rui Miguel Nabeiro, não faz sentido entrar numa nova geografia sem explicar quem era o comendador e como funciona o “ecossistema” Campo Maior, onde até os chapéus e toldos que a marca distribui pela restauração são produzidos. “Porque os tempos vão passando, algumas pessoas vão-se reformando, outras mais novas vão entrando. É importante manter a forma de fazer as coisas”.
Uma filosofia que o grupo casa com a aposta em inovação, seja entrando em startups ou em investigação própria. A moda mais recente são os cafés frios. “Eu costumo dizer que se nós fizermos sempre a mesma coisa, acabaremos a competir com o preço mais barato. E a Delta não compete nunca por ser o mais barato. Compete por trazer inovação e, sobretudo, valor acrescentado”.
Entre os mercados que lhe falta conquistar, Rui Miguel Nabeiro aponta o leste europeu. Depois de ter conquistado 30% da quota do mercado de cápsulas de café na Polónia, à boleia da Biedronka do grupo Jerónimo Martins, a Delta quer “esticar” a cobertura para países como a Áustria e a República Checa. “Se queremos entrar em mercados onde alguns produtos podem ser diferentes, a flexibilidade industrial é extremamente importante. Foi isso que aqui estivemos a fazer durante estes últimos anos, que culmina também com a aquisição importante da nova máquina de cápsulas”, de onde podem sair 720 cápsulas por minuto. Das mais antigas saem 520. “É muito importante para nós consolidar uma posição na Europa”. França, Luxemburgo e Suíça são países onde a influência da Delta já é grande. E Espanha é o maior mercado depois de Portugal.
Para os espanhóis há quase um café próprio. Chamam-lhe “torra à espanhol”, apesar de a designação oficial ser “torra torrefacto”. Ao contrário do que acontece na torra natural, o grão é caramelizado, o que o torna preto, brilhante e mais amargo. “É ideal para o café com leite”.