“Os Antípodas”, de Annie Baker, encenação de João Pedro Mamede/Os Possessos
Teatro do Bairro Alto (TBA), Lisboa (7 a 16 de maio)
Um grupo de argumentistas está reunido numa sala isolada na tentativa de construir “a grande história”. Esse é o ponto de partida de Os Antípodas, da dramaturga norte-americana Annie Baker, de quem já vimos encenados por cá os textos Círculo de transformação em espelho (Teatro Oficina, 2014) e, pelos Artistas Unidos, O Cinema (2017) e Os Aliens (2019).

A peça, que chega ao Teatro do Bairro Alto (TBA), em Lisboa, pela mão do coletivo Os Possessos, expõe os mecanismos e as fraturas da criação artística contemporânea, levantando questões como: o que resta da imaginação quando tudo parece já contado? Como se constrói uma história num mundo em crise? Entre bloqueios, obsessões e impasses, o texto questiona o próprio lugar da narrativa — e a urgência ou impossibilidade de encontrar sentido neste mundo.
A encenação é de João Pedro Mamede e a tradução de Fernando Villas-Boas. O elenco é composto por João Pedro Vaz, Isabel Costa, Catarina Rôlo Salgueiro, Vasco Barroso, Pedro Caeiro, Rafael Gomes, Leonardo Garibaldi, André Pardal e Henrique Gil.
“FRANK”, de Cherish Menzo/ GRIP & Theater Utrecht icw Dance On Ensemble
Teatro Municipal do Porto — Rivoli (Grande Auditório), Porto (8 e 9 de maio)
Em FRANK — abreviatura de Frankenstein — a coreógrafa neerlandesa Cherish Menzo propõe uma reflexão sobre a figura do monstro, não só como representação física, mas como construção de medos e narrativas que nos aterrorizam e nos atraem simultaneamente.

A artista explora o corpo em palco como um espaço de transformação contínua, onde imagens físicas e reconhecíveis são distorcidas, fragmentadas e reconfiguradas. O monstruoso surge, assim, menos como figura e mais como processo: aquilo que se forma a partir do que nos inquieta e atrai ao mesmo tempo. A dança desses gestos — um jogo entre atração e repulsa — cria uma experiência sensorial profunda e perturbadora.
“Suplicantes”, de Sara Barros Leitão
Teatro Municipal do Porto — Campo Alegre (Auditório) , Porto (13 e 14 de maio)
A encenadora, dramaturga e atriz Sara Barros Leitão volta a colocar em cena Suplicantes, uma revisitação da tragédia de Ésquilo. Agora no Porto, no âmbito do FITEI – Festival Internacional de Expressão Ibérica, o espetáculo regressa para confrontar o público com uma Europa contemporânea onde os migrantes continuam a ser usados como “bode expiatório” para todos os males. Em palco, um deputado social-democrata, um estafeta migrante e uma intérprete cruzam discursos e experiências, revelando fraturas políticas e humanas que atravessam o projeto europeu.

Mais do que uma reinterpretação clássica, Suplicantes propõe uma reflexão urgente sobre imigração, exploração laboral e os limites das políticas de acolhimento. Entre frases que ecoam como palavras de ordem — “A imigração não é um problema, é uma solução” —, a peça (uma das peças que marcaram o ano de 2025 para o Observador) expõe contradições profundas e convoca o público a pensar o presente. Num tempo em que o debate sobre migrações domina a agenda política, este regresso ao palco surge como um gesto necessário.
“Éclipse”, de Léo Rousselet
Centro Cultural de Belém — Blackbox, Lisboa (27 e 28 de maio)
Uma lâmpada suspensa, um fio de um interruptor, um copo de água, uma bola, uma vela, fósforos. O palco é um universo minimal, onde a luz e a sombra, o som e o silêncio se articulam com precisão. É um dos destaques do FIMFA Lx26 – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas este Éclipse, de Léo Rousselet, um espetáculo em que os objetos mais banais ganham vida própria.

Sentado numa cadeira, Rousselet manipula o tempo e a luz através de malabarismo e alguns elementos de nova magia, numa sequência de situações que desafiam a lógica e mesmo a nossa perceção do real. Com um humor subtil e um imaginário que evoca o cinema mudo, Éclipse é uma proposta que cruza disciplinas e evidencia o espírito do FIMFA, que sempre prova como o teatro de formas animadas se pode abrir a múltiplas linguagens. O espetáculo é pensado para públicos a partir dos seis anos.
“Habitar”, Hotel Europa
Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery, Matosinhos (15 e 16 de maio), Theatro Circo, Braga (29 de maio)
A companhia Hotel Europa distingue-se por criações que cruzam investigação histórica com linguagem contemporânea, mas desta vez, o espetáculo é particularmente próximo, pois propõe-se a retratar o problema da habitação em Portugal e na Europa. Em janeiro, estiveram em Braga a recolher testemunhos sobre esse tema e sobem agora a palco para apresentar Habitar, o resultado dessa residência artística.

Neste espetáculo de teatro documental — uma criação de André Amálio e Tereza Havlíčková — contam-se histórias reais: de pessoas que vivem em tendas por não conseguir pagar a renda, dos idosos que são despejados após décadas ou de gente que divide espaço com dezenas de pessoas. Entre relatos de especialistas, agentes imobiliários e ativistas, Habitar expõe uma das questões mais urgentes da sociedade portuguesa. No dia 15, em Matosinhos, onde a peça se apresenta no âmbito do FITEI – Festival Internacional de Expressão Ibérica, há uma conversa pós-espetáculo.