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Zurita Oliveira: a pioneira do rock quase desconhecida

A primeira mulher portuguesa a escrever, cantar e gravar uma canção rock é a figura central do documentário de Francisca Marvão. Estreia-se esta sexta-feira, dia 1, no IndieLisboa.

João Bonifácio
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Há um anacronismo logo na abertura de Quem tem medo de Zurita de Oliveira?: a imagem de um tema do nacional-cançonetismo surge num televisor que, pela lógica histórica, deveria estar a preto e branco mas está a cores, como se tivesse sido reanimada, deslocada do seu tempo original para um presente onde já não pertence. Esse pequeno desvio inicial diz muito sobre o que o filme de Francisca Marvão se propõe fazer: não apenas “documentar” ou recuperar um passado, mas reinventá-lo.

Pouco depois, há uma entrevista em áudio, cuja voz presumimos ser da própria Zurita, a falar da sua estreia discográfica, em 1971, com O Vira da Minha Rua, ao lado de um tal Aleixo. É difícil ter certeza acerca disto, tendo em conta que a estreia de Zurita no rock acontece em 1961. É claro que não há assim tanta informação clara sobre Zurita à disposição do cidadão comum, pelo que o documentário de Francisca Marvão não é apenas uma história sobre a primeira mulher no rock português, é uma espécie de caça paciente: a reconstrução da iconografia e da factologia possíveis através de conversas com quem a conheceu.

A ausência de contexto torna-se, portanto, método. Na prática, o espectador paira num território onde memória, a reconstrução e a ficção coexistem sem certezas absolutas, o que traz um charme extra. O que sabemos, de forma relativamente segura, é pouco, sendo que esse vazio alimenta o dispositivo do filme. Zurita de Oliveira (1931-2015) é apresentada como uma figura fundadora: a primeira mulher portuguesa a escrever, cantar e gravar uma canção rock, O Bonitão do Rock, editada em 1960. Um feito que, à partida, deveria garantir-lhe um lugar de destaque na história da música nacional, mas que, paradoxalmente, a condenou ao esquecimento. O documentário parte dessa contradição: como pode uma pioneira ser, ao mesmo tempo, praticamente desconhecida?

https://www.youtube.com/watch?v=rcUWhUn_rGI

Em vez de responder de forma tradicional, com uma linha narrativa cronológica, Marvão opta por um gesto mais radical: convoca várias mulheres músicas contemporâneas e coloca-as a dialogar com a obra de Zurita, a discutir os seus poemas, a reinterpretar as suas canções. Não é, digamos, um documentário no sentido tradicional do termo: Zurita não é apenas recordada, é re-imaginada.

A dimensão biográfica vai surgindo aos poucos, sempre mediada por vozes indirectas. Uma sobrinha, Ana Maria de Oliveira, revela que Zurita nasceu no seio de uma família de actores, os Rentini, uma companhia itinerante que percorria o país. A infância foi, portanto, marcada pela instabilidade: escolas trocadas, cidades sucessivas, identidades em trânsito. Cascais, Sacavém, Moscavide. Uma geografia fragmentada que ajuda a explicar, talvez, o carácter esquivo da artista. Sabe-se também que era irmã de Camilo de Oliveira, figura bem mais visível do panorama cultural português, o que torna ainda mais intrigante o seu relativo e actual anonimato – digo actual porque aqui e ali fica-se com a impressão de que ela foi bastante popular num determinado período.

O filme introduz então uma recriação de uma entrevista dos anos 60. Nessa “entrevista”, Zurita fala do seu conjunto de ié-ié, composto por três raparigas, algo absolutamente inédito no contexto português da época. Um dos músicos recorda que ela era constantemente requisitada, sugerindo a tal notoriedade que contrasta com o esquecimento posterior. Há também referências a uma proximidade com figuras maiores da cultura portuguesa, como Amália Rodrigues e Ary dos Santos.

A actriz Paula Marcelo descreve-a como reservada, quase inacessível. Há relatos mais excêntricos: um homem afirma que Zurita andava armada e disparava sobre pássaros, que depois eram fritos, um hábito herdado dos irmãos, caçadores. A imagem que emerge é contraditória: tímida mas indisciplinada, recatada mas capaz de desafiar convenções – alguém que se recusava a aceitar o que estava proibido às mulheres, mas que também não se exibia (exceto no palco).

https://www.youtube.com/watch?v=nx8UDFmHOls

Essa tensão reflecte-se também na sua prática musical. Segundo vários testemunhos, Zurita tocava guitarra elétrica sem recorrer a pautas convencionais, utilizando antes um sistema de notação próprio, inteligível apenas para si. É uma imagem poderosa: uma artista que literalmente escreve a sua própria linguagem. Nos concertos, fechava as atuações com solos de guitarra, algo que, para o público jovem da época, era praticamente inaudito.

Embora tudo indique que Zurita terá editado apenas um par de singles em nome próprio, continuou a escrever canções, sobretudo fados, sob o pseudónimo Costa de Oliveira. Essas composições foram interpretadas por artistas como Ada de Castro, que alcançaram sucesso comercial. Há, portanto, uma espécie de desdobramento identitário: a Zurita do rock, marginal e invisível, e a Costa de Oliveira, autora de fados populares, integrada no circuito dominante — mas de forma privada — do seu nome.

Mais do que reconstruir uma biografia, Quem tem medo de Zurita de Oliveira? interroga os mecanismos de canonização e esquecimento, mas também o papel da mulher numa determinada época: até onde poderia Zurita ter chegado se gravasse os seus fados em nome próprio, por exemplo?

No final, o que permanece não é tanto a verdade factual sobre Zurita de Oliveira, mas a sensação de que essa verdade, se alguma vez existiu de forma estável, já não é recuperável. O filme devolve-lhe uma voz, mesmo que fragmentada – como aquele primeiro plano sugere, há histórias que só podem ser contadas quando aceitamos que o passado, tal como aquelas imagens a cores de um tempo a preto e branco, é sempre uma construção.